Escassez de alimento eleva predação de Eriopis connexa

Estudo aponta aumento da atividade predatória após períodos prolongados sem alimento

07.08.2026 | 14:28 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: André - CC BY 1.0 - curid=116770103
Foto: André - CC BY 1.0 - curid=116770103

A escassez de alimento aumenta a atividade predatória de Eriopis connexa sobre o pulgão Myzus persicae. O efeito ganhou força após períodos prolongados de privação. Fêmeas submetidas a 72 horas sem alimento apresentaram a maior intensidade de predação. O resultado indica uma resposta compensatória do inseto e reforça seu potencial para programas de controle biológico em sistemas com oferta irregular de presas.

O estudo foi conduzido pelos pesquisadores Lucas Ramos Vieira, Anna Mara Ferreira Maciel e Wesley Augusto Conde Godoy, do Departamento de Entomologia e Acarologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (doi 10.1111/afe.70079). O trabalho avaliou como diferentes períodos de escassez alteram a dinâmica de forrageamento de Eriopis connexa, predadora empregada no manejo integrado por sua capacidade de consumir pulgões.

Forma da pesquisa

Os pesquisadores trabalharam com fêmeas adultas, acasaladas e com cinco dias após a emergência. Os insetos passaram por quatro períodos de privação alimentar: zero, 24, 48 e 72 horas. No primeiro ensaio, cada joaninha recebeu 40 indivíduos de Myzus persicae. A equipe registrou a predação em intervalos de 15 minutos durante três horas consecutivas.

A sobrevivência dos pulgões caiu à medida em que aumentou o período sem alimento do predador. O tratamento com 72 horas de privação registrou 222 eventos de predação, ante 132 no grupo sem privação. O tempo médio de sobrevivência dos pulgões caiu de 175 minutos no controle para 167,3 minutos após 72 horas de jejum. Os tratamentos com 24 e 48 horas apresentaram resultados intermediários.

Segundo experimento

Um segundo experimento avaliou a resposta de Eriopis connexa diante de diferentes densidades de presa. Cada predador recebeu três, cinco, dez, 30, 50, 70 ou 90 pulgões. As avaliações ocorreram após seis e 24 horas. Os ensaios usaram ninfas de segundo e terceiro instares de Myzus persicae. Os pesquisadores excluíram adultos para impedir reprodução e surgimento de novas ninfas durante o período experimental.

Em todas as condições, Eriopis connexa apresentou resposta funcional do tipo II. Esse padrão envolve elevada taxa inicial de ataque e posterior saturação diante do aumento na densidade de presas. O tempo de manipulação permaneceu próximo entre os tratamentos. A principal mudança ocorreu na taxa de ataque, sobretudo nas primeiras seis horas após períodos mais longos sem alimento.

Após seis horas de exposição, a taxa de ataque atingiu 8,81 por hora no tratamento com 72 horas de privação. No controle, o valor chegou a 6,11 por hora. Após 48 horas sem alimento, a taxa alcançou 7,58 por hora. Os resultados apontam intensificação da busca e da captura de presas, sem alteração consistente no tempo necessário para o predador processar cada pulgão.

Análise conjunta

A análise conjunta dos dados confirmou efeitos independentes do período de privação e do tempo de exposição. Em comparação com o controle, 24 horas sem alimento elevaram em 19% a chance de predação. O aumento chegou a 55% após 48 horas e a 51% após 72 horas. Uma avaliação após 24 horas de contato com as presas elevou a chance de predação em cerca de 4,46 vezes na comparação com a avaliação feita após seis horas. A interação entre duração da privação e período de avaliação não apresentou significância estatística.

Os pesquisadores interpretam o aumento após longos períodos sem alimento como uma resposta compensatória. A privação pode ampliar a motivação para busca e captura. Após acesso às presas, a taxa de ataque caiu nas avaliações mais longas. O trabalho relaciona essa redução à saciedade ou à menor disponibilidade de pulgões após a predação inicial.

O tempo de manipulação apresentou pouca variação. Para os cientistas, esse resultado indica manutenção da eficiência de processamento da presa mesmo sob diferentes condições nutricionais. Assim, o aumento no consumo decorreu principalmente da maior intensidade de procura e captura.

Os resultados ampliam o conhecimento sobre o comportamento de Eriopis connexa em condições de oferta variável de alimento. Segundo o estudo, essa capacidade pode favorecer o uso da espécie em agroecossistemas com distribuição irregular de pulgões no espaço ou no tempo. Os pesquisadores também destacam a importância do estado nutricional do predador na avaliação de estratégias de liberação e manejo em programas de controle biológico.

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