El Niño influencia projeções da safra de inverno 2026/27 em SC

Epagri prevê redução nas áreas de alho, cebola e trigo, enquanto aveia e cevada devem avançar

15.06.2026 | 10:38 (UTC -3)
Cristiele Deckert, edição Revista Cultivar

A Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) divulgou as primeiras estimativas para a safra de inverno 2026/27 no Estado, indicando um cenário marcado pela influência do El Niño e por mudanças importantes no comportamento das principais culturas de inverno do estado. Os dados apontam para uma redução nas áreas cultivadas com alho, cebola e trigo, enquanto aveia e cevada devem registrar expansão.

As projeções foram elaboradas a partir de informações coletadas por uma rede técnica presente em todas as regiões catarinenses. O levantamento ocorre em um contexto climático caracterizado por temperaturas amenas, elevada umidade e chuvas frequentes nos próximos meses, condições que tendem a influenciar diretamente o desempenho das lavouras.

Segundo a meteorologista da Epagri/Ciram, Marilene de Lima, o inverno deve apresentar temperaturas sem extremos e maior ocorrência de nebulosidade e precipitações. O risco de geadas ficará mais concentrado nas áreas mais elevadas do Meio-Oeste e do Planalto Sul.

Nas hortaliças, alho e cebola estão entre as culturas mais suscetíveis aos impactos do excesso de umidade. O aumento das chuvas pode favorecer o encharcamento do solo e a incidência de doenças bacterianas. No caso do alho, a sanidade das lavouras pode ser comprometida, especialmente em áreas com drenagem insuficiente. Já a cebola pode apresentar menor capacidade de armazenamento devido ao aumento do teor de água nos bulbos.

Além disso, períodos prolongados de instabilidade climática podem dificultar operações como o transplantio de mudas e os tratos culturais, exigindo maior aproveitamento das janelas de tempo seco.

Entre os grãos de inverno, o trigo também demanda atenção. A maior frequência de chuvas aumenta a pressão de doenças e dificulta o manejo em fases críticas do desenvolvimento da cultura. A aveia-grão, por sua vez, pode ser beneficiada pela maior disponibilidade hídrica no início do ciclo, desde que não ocorram períodos prolongados de encharcamento. Já a cevada requer cuidados adicionais com drenagem e sanidade das lavouras.

Queda no alho, cebola e trigo

As estimativas apontam retração nas principais culturas de inverno do estado. No alho, a área cultivada deve passar de 747 para 647 hectares, redução de 13%. A produção é estimada em 7,3 mil toneladas, volume 17% inferior ao da safra anterior. A região de Curitibanos permanece como principal polo produtor, com destaque para os municípios de Fraiburgo e Frei Rogério.

Na cebola, a queda nos preços observada no início de 2026, abaixo dos custos de produção, levou muitos produtores a reduzirem o plantio. A área cultivada deve recuar 9%, para 17,4 mil hectares. Mesmo com expectativa de aumento de 1% na produtividade, a produção total deverá diminuir 9%, alcançando 576,4 mil toneladas. A região de Ituporanga segue concentrando quase metade da área plantada no estado.

O trigo apresenta a maior retração entre as culturas analisadas. A área semeada deve cair cerca de 27%, passando de 104,5 mil para 76,2 mil hectares. Com produtividade média ligeiramente menor, a produção é estimada em 271 mil toneladas, redução de 29% em relação ao ciclo anterior.

Aveia e cevada avançam

Em sentido contrário, a aveia-grão deve ampliar sua presença nas lavouras catarinenses. A área cultivada está estimada em aproximadamente 37 mil hectares, crescimento de 12,3%, impulsionado principalmente pela incorporação de novas áreas ao monitoramento, especialmente no Planalto Sul. Com isso, a produção poderá atingir cerca de 60 mil toneladas, volume 12,8% superior ao registrado na safra passada.

A cevada também apresenta perspectiva de crescimento, embora permaneça como uma alternativa ainda restrita no estado. A área cultivada deve alcançar 500 hectares, aumento de 13,6%, enquanto a produção é estimada em aproximadamente 2 mil toneladas, alta de 3,8%.

Apoio aos produtores

Diante das incertezas climáticas, o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, Admir Dalla Cort, destacou que Santa Catarina dispõe de programas voltados tanto à recuperação de prejuízos quanto à prevenção de impactos provocados por eventos extremos. Entre as iniciativas citadas estão o Reconstrói SC, o Pronampe Agro SC Emergencial, o Recupera Maçã SC, além dos programas Kit Solo Saudável e Cereais de Inverno.

O presidente da Epagri, Dirceu Leite, afirmou que as equipes de pesquisa e extensão estão mobilizadas para acompanhar as condições climáticas e orientar os produtores. Segundo ele, práticas como plantio direto, terraceamento e monitoramento constante das previsões meteorológicas serão fundamentais para reduzir riscos ao longo da safra.

Inteligência para orientar decisões

As estimativas da Epagri/Cepa são construídas a partir de informações coletadas junto a extensionistas, cooperativas, sindicatos, prefeituras, instituições financeiras e outros agentes ligados ao meio rural. Após a coleta, os dados passam por análises estatísticas e validação técnica.

De acordo com o analista de Socioeconomia e Desenvolvimento Rural da Epagri/Cepa, Haroldo Tavares Elias, o acompanhamento contínuo da produção agropecuária é estratégico para o planejamento das safras, da armazenagem e da logística de distribuição, além de subsidiar políticas públicas e decisões de mercado.

Segundo ele, as projeções permitem identificar tendências de produção, antecipar demandas e contribuir para a formulação de ações mais eficientes de apoio ao setor agropecuário catarinense.

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