El Niño ganha força em agosto e exige planejamento climático

Desafios vão desde excesso de chuva, atrasos logísticos e danos a ativos, até calor persistente e baixa umidade

05.08.2026 | 16:33 (UTC -3)
Mário César de Mauro

A influência do El Niño deve marcar o clima brasileiro neste mês de agosto com contrastes regionais relevantes para a tomada de decisão de empresas de diferentes setores. Segundo a Climatempo, o aquecimento rápido e consistente do Oceano Pacífico Equatorial central e leste indica um evento com potencial de forte a muito forte intensidade, cuja influência tende a aumentar ao longo da primavera e do início do verão na temporada 2026/2027.

O principal sinal do fenômeno será a combinação entre chuva acima da média no Sul do País, risco de temporais e episódios de tempo severo, e a manutenção de dias quentes e secos em grande parte do Centro-Oeste, interior do Nordeste e áreas da Região Norte. O cenário reforça a necessidade de gestão preventiva de riscos climáticos em operações agrícolas, logísticas, energéticas, industriais, varejistas, financeiras e de infraestrutura.

“O El Niño não impacta o Brasil de forma uniforme, por isso o desafio de agosto estará no excesso de chuva, em enchentes, atrasos logísticos e danos a ativos para alguns negócios. Para outros, estará no calor persistente, na baixa umidade, no aumento do risco de queimadas e na pressão sobre produtividade, saúde ocupacional e demanda por energia. O ponto central é transformar previsão climática em planejamento operacional”, afirma Vitor Hassan, Head de Negócios da Climatempo.

Chuvas no Sul que podem afetar setores

No Sul, a previsão indica chuva acima do normal nos três estados, com atenção especial ao Rio Grande do Sul, que já registrou enchentes em julho. Temporais, rajadas de vento, granizo e altos acumulados de precipitação podem afetar atividades como transporte rodoviário, armazenagem, construção civil, seguros, agroindústria, distribuição de energia e impactar a continuidade operacional de plantas industriais.

No Sudeste e no Centro-Oeste, muitos dias de calor e ar seco devem predominar, com níveis de umidade que podem ficar abaixo de 20% em algumas áreas. Mesmo assim, a passagem de frentes frias no início e no fim do mês pode provocar chuva em parte de São Paulo, Mato Grosso do Sul, sul e oeste de Mato Grosso, Triângulo Mineiro, Sul de Minas, Zona da Mata, Rio de Janeiro e sul do Espírito Santo.

No Nordeste, a tendência é de predomínio de sol forte e tempo seco no interior, com chuva mais restrita à faixa litorânea entre o sul da Bahia e o Rio Grande do Norte. No Norte, há possibilidade de chuva um pouco acima do normal em áreas do Pará, Rondônia e Acre, enquanto o norte do Amazonas e Roraima devem ter volumes abaixo da média.

Impactos mais sentidos

Neste cenário de influência do El Niño, os impactos serão sentidos em diversos setores, com destaque para o agronegócio. O excesso de chuva no Sul pode comprometer janelas de plantio, colheita, manejo, armazenagem e transporte de grãos, enquanto o calor e a baixa umidade em outras regiões elevam a demanda por irrigação, manejo de solo e monitoramento de estresse hídrico nas lavouras.

No setor de energia, as temperaturas elevadas tendem a aumentar o consumo de eletricidade para refrigeração, ao mesmo tempo em que chuvas irregulares podem alterar a dinâmica de reservatórios, a geração hidrelétrica, a transmissão e manutenção de redes, especialmente em áreas sujeitas a temporais e ventania.

No setor de logística e infraestrutura, os temporais no Sul e instabilidade associada a frentes frias no centro-sul do País podem afetar rodovias, portos, aeroportos, centros de distribuição, obras e cronogramas de entrega. Empresas com cadeia nacional devem revisar rotas, estoques de segurança e planos de contingência.

Nas áreas da região Norte, onde a previsão é de chuva abaixo da média, a possibilidade de estiagem também acende alerta para a redução do nível dos rios, o que pode dificultar a navegabilidade em importantes corredores hidroviários da região.

Como uma parte relevante do transporte de cargas de insumos, combustíveis e alimentos depende dos rios amazônicos, eventuais restrições à circulação de embarcações podem elevar os custos logísticos, alongar os prazos de entrega e afetar o abastecimento de comunidades, operações industriais, atividades portuárias e cadeias produtivas locais.

Setores como varejo, indústria e serviços serão mais impactados com o calor persistente, a baixa umidade e as variações bruscas de tempo, que influenciam o fluxo de consumidores, as vendas sazonais, a demanda por climatização, a produtividade de equipes externas, a manutenção predial e a gestão de saúde e segurança do trabalho.

A maior frequência de eventos extremos amplia ainda a necessidade de análise climática na precificação de risco na concessão de crédito, influenciando a gestão de carteiras expostas ao campo, à infraestrutura e à cadeia de suprimentos e afetando seguros, créditos e as finanças de empresas.

A recomendação da Climatempo, portanto, é de que as empresas acompanhem atualizações frequentes da previsão do tempo e do monitoramento climático, especialmente em setores sensíveis a fatores como chuva, temperatura, umidade, vento, descargas elétricas, queimadas e condições de navegabilidade. A incorporação de inteligência meteorológica aos processos de planejamento permite reduzir perdas, proteger pessoas e ativos, adequar estoques, antecipar interrupções e melhorar a resiliência das operações.

“Mais do que um fenômeno climático, o El Niño é um fator de risco econômico e operacional. Em agosto, seus efeitos já começam a aparecer de forma mais clara no Brasil, exigindo das organizações uma leitura regionalizada do clima e respostas rápidas para um ambiente de negócios cada vez mais exposto a extremos meteorológicos”, finaliza Vitor Hassan.

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