Derivados de isoxazol abrem caminhos para novos defensivos agrícolas

Estudo reúne avanços no controle de fungos, insetos, bactérias e plantas daninhas e identifica oportunidades para novas moléculas

12.10.2026 | 08:21 (UTC -3)
Revista Cultivar
doi 10.1016/j.aac.2026.10.001
doi 10.1016/j.aac.2026.10.001

Estudo sobre derivados de isoxazol identificou avanços no desenvolvimento de fungicidas, inseticidas, herbicidas e agentes antibacterianos e antivirais para uso agrícola. Os estudos analisados demonstram atividade contra diferentes organismos fitopatogênicos, mecanismos de ação diversificados e possibilidades de aumento da seletividade por meio de modificações na estrutura molecular. Os resultados também apontam aplicações na proteção das culturas contra a fitotoxicidade de herbicidas e na regulação do crescimento vegetal.

O trabalho reúne pesquisas sobre síntese química, relações entre estrutura e atividade biológica, alvos moleculares e perspectivas para novos produtos fitossanitários.

Sobre o isoxazol

O isoxazol pertence à classe dos heterociclos de cinco membros. Sua estrutura contém três átomos de carbono, um de nitrogênio e um de oxigênio. A disposição desses elementos permite diferentes substituições químicas e favorece a interação com proteínas envolvidas em processos fisiológicos de fungos, insetos, bactérias e plantas.

Essa versatilidade explica o interesse pela estrutura no desenvolvimento de defensivos. Compostos comerciais, como isoxaflutol e isoxabeno, já incorporam o núcleo de isoxazol. Novas pesquisas procuram ampliar suas aplicações, melhorar a seletividade e identificar moléculas capazes de atuar sobre organismos resistentes aos ingredientes ativos disponíveis.

O trabalho destaca a importância das posições 3, 4 e 5 do anel de isoxazol. Alterações nessas regiões modificam propriedades físico-químicas, afinidade pelos alvos biológicos e intensidade da atividade. A combinação com outros grupos químicos também permite desenvolver compostos com características distintas das moléculas utilizadas como referência.

Atividade contra diferentes patógenos

As pesquisas sobre atividade fungicida abrangem patógenos associados a doenças de cereais, hortaliças e outras culturas. Entre os organismos avaliados aparecem Magnaporthe grisea, Puccinia triticina, Botrytis cinerea, Fusarium graminearum, Rhizoctonia solani e Sclerotinia sclerotiorum.

Um dos derivados avaliados apresentou 91% de inibição de Magnaporthe grisea na concentração de 2 miligramas por litro. O resultado ficou próximo ao desempenho do triciclazol, utilizado como referência. Outra molécula alcançou 90% de controle de Puccinia triticina, agente da ferrugem-da-folha do trigo, na concentração de 50 miligramas por litro.

A combinação do isoxazol com estruturas do grupo das carboxamidas também apresentou resultados. O composto identificado como 8 registrou concentração efetiva mediana (CE50) de 0,54 miligrama por litro contra Fusarium graminearum e 0,18 miligrama por litro contra Rhizoctonia solani. Valores menores de CE50 indicam maior atividade nas condições específicas do ensaio.

Os estudos sobre essa molécula identificaram inibição da succinato desidrogenase (SDH), enzima envolvida na respiração celular dos fungos. Sua ação compromete o ciclo dos ácidos tricarboxílicos e a fosforilação oxidativa, com redução da produção de energia necessária ao crescimento do patógeno.

As análises microscópicas também identificaram deformações de hifas, alterações da parede celular, vacuolização e desorganização de organelas. Esses efeitos acompanharam a interferência no metabolismo energético dos fungos.

Outro derivado atuou sobre a integridade das membranas celulares. Obtida pela combinação de isoxazol com miricetina, um flavonoide presente em plantas, a molécula provocou extravasamento de proteínas e ácidos nucleicos das células fúngicas. Esse processo compromete a permeabilidade da membrana e interfere na sobrevivência do patógeno.

O trabalho também cita um composto com atividade sobre a esterol 14-alfa-desmetilase (CYP51). Essa enzima participa da biossíntese do ergosterol, componente das membranas celulares dos fungos. Sua inibição prejudica a integridade e o funcionamento dessas estruturas.

Os pesquisadores destacam ainda a combinação de isoxazol com produtos naturais, como vanilina, miricetina e estilbenos. Os derivados de vanilina e de miricetina superaram fungicidas de referência, como o clorotalonil e a azoxistrobina, em ensaios específicos. O derivado de estilbeno aproximou-se do desempenho da boscalida.

Potencial contra oomicetos

O trabalho também aborda compostos destinados ao controle de oomicetos, grupo de organismos responsável por doenças como requeimas e míldios.

Derivados de isoxazol apresentaram atividade contra espécies de Phytophthora, incluindo Phytophthora capsici, Phytophthora infestans, Phytophthora cactorum e Phytophthora citrophthora.

Entre os resultados, um composto derivado da associação entre miricetina e isoxazol apresentou atividade contra Phytophthora capsici superior à da azoxistrobina nas condições do estudo citado. As análises indicaram danos à membrana celular e perda de componentes intracelulares.

O estudo também destaca os inibidores da proteína de ligação ao oxisterol (OSBP). Essa proteína participa do transporte de lipídios e da manutenção das membranas celulares dos oomicetos.

Oxatiapiprolina e fluoxapiprolina representam exemplos comerciais de moléculas com atuação sobre esse alvo. Ambas pertencem à classe das isoxazolinas, estruturas relacionadas ao isoxazol. Os pesquisadores esclarecem, entretanto, a ausência de registros de derivados de isoxazol com atuação comprovada sobre OSBP na literatura analisada. A obtenção dessas moléculas constitui uma possibilidade para novas pesquisas.

Potencial contra bactérias fitopatogênicas

Na área de bactericidas, derivados de benzisoxazol apresentaram atividade contra espécies do gênero Xanthomonas.

O composto 14a registrou concentração inibitória mínima de 3 miligramas por litro contra patovares de Xanthomonas campestris. A tetraciclina, utilizada como referência, apresentou concentração inibitória mínima de 12 miligramas por litro no mesmo ensaio.

Contra Xanthomonas oryzae pv. oryzae, o derivado registrou concentração inibitória mínima de 5 miligramas por litro, diante de 14 miligramas por litro para a tetraciclina.

Outras moléculas apresentaram mais de 90% de inibição contra bactérias associadas a doenças do arroz e dos citros. Os resultados incluem atividade contra Xanthomonas axonopodis pv. citri.

Apesar desses resultados, os pesquisadores apontam limitações no conhecimento dos mecanismos antibacterianos. Grande parte das investigações permanece concentrada em testes de atividade e na identificação preliminar das relações entre estrutura química e resposta biológica.

Diferentes mecanismos de ação

A atividade inseticida constitui outra área de desenvolvimento dos derivados de isoxazol. Os estudos abrangem lagartas, pulgões, cigarrinhas, moscas e ácaros.

Um composto contendo substituição por flúor apresentou concentração letal mediana (CL50) de 4,6 miligramas por litro contra Plutella xylostella. No mesmo estudo, o clorpirifós registrou 7,7 miligramas por litro, a ciflutrina apresentou 12,8 miligramas por litro e a azadiractina alcançou 10,2 miligramas por litro.

Outra molécula provocou 100% de mortalidade de Spodoptera exigua na concentração de 50 miligramas por litro. Derivados adicionais apresentaram atividade contra Spodoptera litura, Spodoptera frugiperda e Acyrthosiphon pisum.

Dois compostos produziram 73% de mortalidade de larvas de Spodoptera frugiperda na concentração de 100 microgramas por grama. As análises indicaram interferência nos receptores do ácido gama-aminobutírico (GABA), envolvidos na transmissão de sinais nervosos.

Outro grupo de moléculas atua sobre os receptores de rianodina (RyR). Esses receptores regulam a liberação de cálcio nas células musculares dos insetos. Sua ativação descontrolada altera a contração muscular e compromete a sobrevivência das pragas.

As pesquisas também identificaram derivados com ação sobre receptores nicotínicos de acetilcolina, síntese de quitina e metabolismo energético mitocondrial. A diversidade de alvos amplia as possibilidades de desenvolvimento de inseticidas, embora diferentes compostos possam compartilhar mecanismos já utilizados por produtos comerciais.

A seletividade em relação a organismos não alvo constitui outro ponto de interesse.

Em um estudo com pulgões, o composto 38a apresentou CL50 de 1,46 miligrama por litro, mas também demonstrou toxicidade oral aguda para abelhas. Sua dose letal mediana (DL50) alcançou 0,87 micrograma por abelha.

Uma modificação estrutural originou o composto 38b. A nova molécula manteve atividade contra pulgões, com CL50 de 1,68 miligrama por litro, enquanto a DL50 para abelhas aumentou para 14,65 microgramas por indivíduo.

A diferença corresponde a uma redução expressiva da toxicidade oral aguda nas condições experimentais. Os pesquisadores relacionaram a ação inseticida do composto às subunidades beta-1 e beta-4 dos receptores nicotínicos de acetilcolina dos pulgões.

O estudo também apresenta o isoxamezotiaz, candidato a inseticida desenvolvido a partir de estruturas mesoiônicas com unidades de dimetilisoxazol. Segundo os pesquisadores, a molécula apresenta atividade contra cigarrinhas resistentes e supera os problemas de toxicidade para abelhas associados à triflumezopirima. O composto encontra-se em desenvolvimento industrial.

Herbicidas: enzimas e rotas metabólicas

Os derivados de isoxazol apresentam diferentes mecanismos de ação herbicida. O estudo identifica compostos com atividade sobre as enzimas 4-hidroxifenilpiruvato dioxigenase (HPPD), protoporfirinogênio oxidase (PPO), acetolactato sintase (ALS), solanesil difosfato sintase (SDPS) e fitoeno dessaturase (PDS).

A atividade sobre HPPD ocupa posição de destaque. A enzima participa de processos relacionados à biossíntese de componentes necessários à formação e à proteção dos pigmentos fotossintéticos. Sua inibição provoca branqueamento das folhas e compromete o desenvolvimento das plantas sensíveis.

Um derivado identificado como composto 40 apresentou 100% de controle de Echinochloa crus-galli e Abutilon theophrasti na dose de 150 gramas por hectare. O desempenho alcançou resultado semelhante ao do isoxaflutol utilizado como referência.

As investigações identificaram um mecanismo envolvendo a transformação da molécula no solo e nas plantas. O composto original não atua diretamente sobre a HPPD. Sua conversão produz um metabólito capaz de inibir a enzima.

A concentração inibitória mediana desse metabólito alcançou 1,05 micromol por litro, diante de 1,34 micromol por litro para a mesotriona no ensaio comparativo.

Outros derivados apresentaram atividade sobre PPO, enzima envolvida na biossíntese da clorofila. O estudo também registra compostos capazes de bloquear o transporte de elétrons no fotossistema II.

Uma das moléculas analisadas apresentou ação simultânea sobre SDPS e PDS. Essa combinação interfere na fotossíntese e na biossíntese de carotenoides, favorecendo o estresse oxidativo e o aparecimento de clorose nas plantas tratadas.

As relações entre estrutura química e atividade herbicida indicaram influência dos grupos ligados ao anel de isoxazol. A introdução de determinados grupos amida na posição 4 aumentou a atividade de algumas séries de compostos. Substituições com cloro também favoreceram o desempenho de moléculas específicas.

Os pesquisadores ressaltam, porém, a dependência dessas respostas em relação à estrutura molecular utilizada como base. Uma modificação favorável para determinada classe pode apresentar resultado diferente em outra.

Moléculas reduzem a fitotoxicidade

Além da ação direta contra plantas daninhas, os derivados de isoxazol apresentam potencial como agentes protetores, conhecidos como safeners.

Esses compostos aumentam a tolerância das culturas a determinados herbicidas. Sua atuação envolve a ativação de mecanismos de desintoxicação, com participação de enzimas do citocromo P450, glutationa, glutationa S-transferases e transportadores celulares.

Em um dos estudos, o tratamento de sementes de milho com um derivado de isoxazol aumentou a atividade de enzimas relacionadas à desintoxicação após exposição ao clorsulfurom. O desempenho superou o de um protetor comercial utilizado como referência.

Outros compostos reduziram os efeitos do metsulfurom-metílico e do acetocloro em plântulas de milho.

Análises de acoplamento molecular também sugerem que algumas moléculas competem com herbicidas pelos locais de ligação à enzima ALS. Esse mecanismo pode contribuir para reduzir os efeitos sobre a cultura sem comprometer necessariamente o controle das plantas daninhas.

Os resultados indicam uma segunda frente de utilização do isoxazol no manejo químico: além de participar de moléculas herbicidas, sua estrutura pode contribuir para a proteção das culturas tratadas.

Atividade antiviral

Os pesquisadores identificaram aplicações adicionais na proteção contra vírus vegetais e na regulação do crescimento.

Nos ensaios contra o vírus do mosaico do tabaco (TMV), um derivado apresentou 93,2% de atividade de inativação. O produto utilizado como referência, ningnanmicina, registrou 92,5% nas mesmas condições.

Outra molécula obtida pela associação de isoxazol com miricetina demonstrou capacidade de ligação à proteína do capsídeo viral. Essa interação interferiu na montagem das partículas do vírus e prejudicou seu ciclo de infecção.

As pesquisas também identificaram compostos capazes de ativar enzimas relacionadas à defesa vegetal e aumentar a resistência sistêmica das plantas.

Ação em regulação do crescimento

Na regulação do crescimento, um derivado favoreceu o desenvolvimento radicular de plântulas de arroz submetidas ao alagamento contínuo durante oito dias. A mortalidade, entre 30% e 40% no tratamento controle, caiu para 15% nos tratamentos avaliados.

O composto também reduziu sintomas de fitotoxicidade associados a diferentes herbicidas. Os resultados foram relacionados à formação de metabólitos derivados de hidroxi-isoxazol e à melhoria de processos fisiológicos das plântulas.

Outro derivado, o ácido 1,2-benzisoxazol-3-acético, apresentou atividade semelhante à de auxinas sintéticas. Na concentração de 20 micromoles por litro, promoveu 95% de indução de brotações em explantes de cotilédones de tomateiro.

Ensaios adicionais identificaram efeitos sobre divisão celular, regeneração de tecidos, respostas ao estresse e sinalização associada à defesa vegetal.

Do laboratório ao campo

O trabalho destaca a necessidade de aprofundar a caracterização dos mecanismos de ação e a avaliação dos possíveis efeitos ambientais das moléculas.

Embora muitos derivados apresentem atividade superior à de compostos de referência, parte das evidências decorre de ensaios laboratoriais, testes bioquímicos e avaliações preliminares com plantas ou organismos-alvo. Esses resultados não demonstram, isoladamente, eficácia agronômica ou segurança em condições de campo.

Os pesquisadores também identificam lacunas relacionadas aos mecanismos de seletividade, ao comportamento ambiental e à compreensão das interações moleculares envolvidas na atividade biológica.

Entre as prioridades de pesquisa aparecem métodos de síntese com menor custo e impacto ambiental, identificação de novos sítios de ligação e desenvolvimento de estruturas com maior seletividade.

O trabalho propõe ampliar o uso de inteligência artificial generativa, aprendizado profundo e simulações moleculares na seleção e otimização de compostos. Também recomenda integrar análises multiômicas, biologia estrutural e biologia química na investigação dos mecanismos de ação.

Outras possibilidades incluem moléculas com atividade nematicida, indutores de resistência das plantas e produtos destinados a processos fisiológicos ainda pouco explorados.

O avanço dessas aplicações dependerá da confirmação dos mecanismos de ação, de estudos toxicológicos e ambientais e da validação da eficácia em condições agrícolas (doi 10.1016/j.aac.2026.10.001).

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