Clima pode ampliar em 91,8% área favorável à lagarta-do-cartucho

Modelo projeta avanço de Spodoptera frugiperda para latitudes maiores sob cenário de altas emissões de gases de efeito estufa

27.07.2026 | 08:06 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Phil Sloderbeck / Kansas State University - Bugwwod CC BY 3.0
Foto: Phil Sloderbeck / Kansas State University - Bugwwod CC BY 3.0

As mudanças climáticas podem ampliar em até 91,8% a área global com condições favoráveis à lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) até o fim do século. A maior expansão aparece no cenário SSP5-8.5, marcado por emissões elevadas de gases de efeito estufa. O avanço ocorre em direção a latitudes maiores, com deslocamentos para o norte e para o oeste (DOI 10.3390/insects17080772).

A projeção resulta de um modelo de distribuição desenvolvido na plataforma biomod2. Pesquisadores chineses integraram seis algoritmos com melhor desempenho: XGBOOST, Maxnet, Maxent, MARS, GBM e GLM. O modelo conjunto alcançou valor de 0,851 no índice TSS e 0,977 na curva ROC. Os indicadores apontam alta capacidade de discriminar áreas adequadas e inadequadas para a praga.

Área potencialmente favorável

No clima atual, a área potencialmente favorável alcança cerca de 20.260.500 quilômetros quadrados. Esse território corresponde a quase 10% da superfície terrestre global. As principais zonas concentram-se no leste da Ásia e na região centro-sul da América do Norte. Também aparecem áreas no sul da América do Sul, no sul da África, no Sudeste Asiático, na Europa e no leste da Austrália.

As regiões com baixa adequação representam 75,99% do total favorável no cenário atual. Elas ocupam aproximadamente 15.396.800 quilômetros quadrados. As áreas de adequação moderada somam cerca de 3.387.300 quilômetros quadrados. As áreas de alta adequação abrangem 1.476.300 quilômetros quadrados.

Cenários com crescimento

O estudo avaliou três trajetórias climáticas: SSP1-2.6, SSP2-4.5 e SSP5-8.5. Cada trajetória incluiu os períodos de 2041 a 2060, de 2061 a 2080 e de 2081 a 2100. Sob o SSP5-8.5, a área favorável alcança 18,12% da superfície terrestre no último período. Todas as classes de adequação apresentam crescimento nesse cenário.

No SSP1-2.6, a proporção global favorável passa para 14,22% entre 2041 e 2060, 14,61% entre 2061 e 2080 e 14,84% entre 2081 e 2100. A área de baixa adequação cresce de forma contínua. As zonas de alta adequação registram pequena redução.

No SSP2-4.5, as áreas favoráveis ocupam 15,03%, 15,14% e 16,17% da superfície terrestre nos três períodos analisados. O modelo indica aumento das zonas de baixa adequação e pequena variação nas classes moderada e alta.

Temperatura média do trimestre

A temperatura média do trimestre mais úmido apresentou a maior influência sobre a distribuição da praga, com participação de 31,66%. A precipitação do trimestre mais úmido respondeu por 21,23%. A temperatura média do trimestre mais seco contribuiu com 13,90%. A isotermalidade, relação entre a variação térmica diária e a anual, respondeu por 13,59%. As quatro variáveis reuniram 80,4% da importância calculada pelo modelo.

A maior adequação associada à temperatura do trimestre mais úmido ocorreu entre 24,38 e 24,86 graus Celsius. Para o trimestre mais seco, o pico apareceu entre 9,20 e 11,08 graus Celsius. Na precipitação do trimestre mais úmido, o intervalo de maior resposta ficou entre 437,12 e 457,92 milímetros.

Ocorrência da espécie

Os pesquisadores utilizaram 1.763 registros válidos de ocorrência da espécie. Os dados vieram do Global Biodiversity Information Facility, de publicações científicas e de levantamentos de campo. O processamento manteve apenas um registro por célula de 2,5 quilômetros, medida adotada para reduzir a concentração espacial das observações.

A análise do centro geográfico das áreas climáticas favoráveis indicou deslocamento para o norte em todos os cenários. No clima atual, esse centro localiza-se no Chade. No SSP5-8.5, o deslocamento termina na Argélia entre 2081 e 2100, após passagens projetadas pelo Níger e pela Líbia.

A expansão potencial decorre, segundo o estudo, da redução das limitações impostas pelo frio em regiões de média e alta latitude. O aquecimento também pode prolongar o período com temperaturas acumuladas favoráveis durante a estação de cultivo.

Os resultados indicam potencial climático, não intensidade real de infestação. O modelo não incorporou de forma completa a distribuição das culturas hospedeiras, as práticas agrícolas, as migrações sazonais, a competição, a predação e o parasitismo. A adaptação local das populações também pode alterar a resposta regional. Por esse motivo, as projeções apoiam o planejamento de monitoramento, mas não substituem levantamentos de campo e sistemas locais de alerta.

Áreas potencialmente adequadas para Spodoptera frugiperda no cenário SSP1-2.6
Áreas potencialmente adequadas para Spodoptera frugiperda no cenário SSP1-2.6
Áreas potencialmente adequadas para Spodoptera frugiperda no cenário SSP2-4.5
Áreas potencialmente adequadas para Spodoptera frugiperda no cenário SSP2-4.5
Áreas potencialmente adequadas para Spodoptera frugiperda no cenário SSP5-8.5
Áreas potencialmente adequadas para Spodoptera frugiperda no cenário SSP5-8.5

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