Brasil poderá importar até 9 milhões de toneladas de trigo em 2026

Congresso Internacional da Indústria do Trigo debate desafios climáticos, custos, cenário econômico e mudanças no consumo

23.10.2026 | 14:02 (UTC -3)
Ana Flávia Gimenes, edição Revista Cultivar
Foto: TM Brasil
Foto: TM Brasil

O Brasil poderá importar 9 milhões de toneladas de trigo em 2026, ou até superar esse volume, diante da menor disponibilidade interna do cereal. A projeção foi apresentada pelo presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa, durante a abertura da 33ª edição do Congresso Internacional da Indústria do Trigo, na quinta-feira (22). O evento reúne representantes da cadeia produtiva e autoridades para discutir as perspectivas do setor e os desafios para o abastecimento nacional.

Segundo Barbosa, as condições climáticas e a redução da oferta doméstica devem levar o país ao maior volume de importações dos últimos 30 anos. O cenário também poderá ser influenciado pela qualidade do trigo argentino. Caso não haja melhora em relação à safra anterior, o Brasil poderá precisar ampliar as compras externas para atender às necessidades da indústria moageira.

Além das questões relacionadas à oferta, o setor enfrenta pressão sobre os custos. Entre os fatores apontados pelo dirigente estão os aumentos indiretos nos preços de insumos e embalagens, a elevação de 1,17% na carga tributária incidente sobre o trigo importado e a redução de 10% do crédito presumido. Segundo ele, esses fatores deverão afetar os custos da indústria em 2026 e 2027, com possíveis reflexos nos preços da farinha e de produtos derivados, como pães, massas e biscoitos.

Diante desse cenário, Barbosa ressaltou a necessidade de ampliar a eficiência operacional e revisar estratégias para preservar a competitividade da indústria nacional, contribuir para a segurança alimentar e garantir maior previsibilidade ao mercado interno.

O presidente do Conselho Deliberativo da Abitrigo, Daniel Kümmel, também destacou os desafios de escala da cadeia produtiva e o potencial brasileiro para ampliar a produção. Segundo ele, o país dispõe de terras, tecnologia e produtores capazes de impulsionar o cultivo. Kümmel ressaltou ainda que o trigo nacional e o importado são complementares para garantir o abastecimento brasileiro.

Presente na abertura, o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Guilherme Campos Júnior, destacou a importância do cereal na alimentação e reconheceu os desafios impostos pela redução da área plantada e da produção em razão do clima, além das elevadas taxas de juros. O secretário reafirmou o apoio do governo federal ao setor, citando o Plano Safra como um dos instrumentos de atendimento às demandas dos produtores rurais.

Geopolítica e cenário econômico

A programação do congresso também abordou os impactos das transformações políticas, econômicas e geopolíticas sobre os negócios. Na palestra inaugural, mediada por Rubens Barbosa, o analista de assuntos internacionais da CNN Brasil, Lourival Sant’Anna, e o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, discutiram os desafios do cenário global e brasileiro.

Sant’Anna destacou a interdependência entre países e os riscos associados às relações econômicas internacionais, observando que conexões antes consideradas vantajosas podem se transformar em fontes de vulnerabilidade para as cadeias produtivas.

Vale, por sua vez, avaliou que o Brasil precisará promover um ajuste fiscal em 2027, possivelmente com mudanças na dinâmica de despesas sociais, como previdência, saúde e educação. Entre as alternativas para o arcabouço fiscal, mencionou a possibilidade de reduzir de 2,5% para 1,5% ao ano o ritmo de crescimento real das despesas públicas.

Mudanças no consumo e inovação

As transformações no comportamento dos consumidores também estiveram entre os temas debatidos. No painel “A nova ciência do consumo”, especialistas analisaram como o uso de medicamentos análogos de GLP-1 pode influenciar os hábitos alimentares e reduzir a procura por determinadas categorias de produtos.

Mediado pela nutricionista e vice-presidente da Associação Brasileira de Nutrição e Saúde Mental, Vanderli Marchiori, o debate reuniu a diretora de Marketing da Scanntech, Priscila Ariani; o pesquisador em inovação de farinhas funcionais da italiana Grandi Molini Italiani, Lorenzo Rancati; e a médica Alessandra Rascovski, fundadora do Ambulatório Clínico de Obesidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).

Para a cadeia do trigo, compreender essas mudanças é importante para identificar tendências de consumo e avaliar oportunidades de inovação em produtos derivados do cereal.

Gestão e estratégia empresarial

A gestão dos negócios foi tema de outro painel, mediado pelo superintendente da Abitrigo, Eduardo Assêncio. O fundador da Academia CEO, Antonio Maciel Neto, e o consultor em gestão de carreira e desenvolvimento gerencial, Marcelo Treff, discutiram a adaptação do planejamento estratégico a um ambiente de maior incerteza.

Entre os pontos abordados estiveram o uso da tecnologia nas decisões empresariais, o fortalecimento da gestão de pessoas, o alinhamento da cultura organizacional aos valores das empresas e a retenção de talentos diante das novas expectativas dos profissionais.

O 33º Congresso Internacional da Indústria do Trigo segue até esta sexta-feira (23), com debates sobre o processo regulatório e os mercados nacional e internacional do cereal.

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