Brasil e EUA devem concentrar o suprimento global de algodão

Avaliação da Artigas do Brasil aponta geopolítica com principal vetor de risco nos próximos meses

15.04.2026 | 14:51 (UTC -3)
Catarina Guedes

O mercado global de algodão inicia o segundo trimestre de 2026 sob influência crescente de fatores externos, com destaque para riscos geopolíticos, incertezas climáticas e uma tendência de maior concentração da oferta exportável em poucos países. A avaliação é da Artigas do Brasil, que acompanha de perto os movimentos do setor e aponta um ambiente mais volátil, menos previsível e cada vez mais dependente de variáveis fora do equilíbrio tradicional entre oferta e demanda.

De acordo com a empresa, a geopolítica segue como principal vetor de risco. As tensões no Oriente Médio pressionam rotas marítimas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, o Bab el-Mandeb e o Mar Vermelho, com impactos diretos sobre fretes, seguros e prazos de entrega. Esse cenário amplia a volatilidade e reduz a previsibilidade dos fluxos globais de comércio.

“A geopolítica deixou de ser um fator periférico e passou a ser o principal driver do mercado. Disrupções em corredores logísticos críticos estão impactando custos, prazos e a confiabilidade das entregas”, afirma Danny van Namen, sócio da Artigas do Brasil, baseado em São Paulo.

Ao mesmo tempo, a logística permanece como um gargalo estrutural. Mesmo diante de uma oferta global ainda robusta, a disponibilidade efetiva de algodão segue limitada por congestionamentos portuários, desafios no transporte interno e interrupções operacionais. No Brasil, esse descompasso entre produção e capacidade de escoamento reforça uma característica já marcante do mercado atual.

“Esse descolamento entre ‘oferta no papel’ e ‘oferta disponível’ se tornou um dos elementos centrais da dinâmica de mercado hoje”, diz van Namen.

A seca persistente nos Estados Unidos eleva o risco de perdas de produtividade e abandono de áreas, enquanto o aumento dos custos de insumos influencia decisões de plantio, favorecendo culturas concorrentes como milho e soja. Esse movimento pode impactar diretamente a oferta global nos próximos ciclos. Para a Artigas, esse conjunto de fatores tende a concentrar ainda mais o suprimento global em um número restrito de origens.

“O mercado caminha para uma concentração cada vez maior da oferta exportável. Brasil e Estados Unidos devem responder por uma parcela crescente do algodão disponível no comércio internacional, o que aumenta a sensibilidade do mercado a eventos regionais”, afirma van Namen.

No caso brasileiro, vendas antecipadas em ritmo forte, demanda interna estável e limitações logísticas já começam a reduzir a disponibilidade exportável, mesmo diante de uma safra volumosa.

A pressão de custos ao longo da cadeia também se intensifica. A alta do petróleo segue impactando fretes, energia e fertilizantes, elevando o custo de produção e comprimindo margens do campo à indústria, em um contexto macroeconômico ainda marcado por juros elevados e consumo fragilizado no setor têxtil.

Do lado da demanda, o comportamento segue cauteloso. As indústrias operam com cobertura reduzida e priorizam compras de curto prazo, evitando compromissos mais longos diante da volatilidade e da baixa visibilidade de preços. “A demanda existe, mas o comportamento de compra é claramente defensivo. Os compradores aguardam mais clareza antes de voltar ao mercado com volumes relevantes”, afirma van Namen.

Nesse ambiente, a própria estrutura de mercado contribui para a volatilidade. A participação elevada de fundos e o volume de posições em aberto ampliam movimentos de preços, muitas vezes desconectados dos fundamentos físicos. Ao mesmo tempo, spreads fracos e uma estrutura de carregamento ampla limitam o potencial de altas mais sustentadas. “O mercado segue com um viés construtivo, mas frágil. Ritmo e movimento seguem no compasso dos eventos externos, e no dos fundamentos”, conclui.

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