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O setor de bioinsumos no Brasil superou R$ 7 bilhões na última safra (2024/2025), consolidando o país entre os três maiores do mundo, ao lado de Estados Unidos e China. Em escala global, o Brasil responde por entre 15% e 18% do segmento e concentra cerca de 50% das movimentações na América Latina. Esse avanço ocorre em paralelo à rápida transformação da indústria nacional, que registrou crescimento superior a 50% no número de empresas entre 2022 e 2025, impulsionado tanto pela entrada de novos players quanto pela diversificação de companhias tradicionais de insumos.
Os dados foram apresentados durante a terceira edição do Workshop de Inteligência de Mercado em Bioinsumos, promovido pela Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (Anpii Bio), realizada nesta terça (17) e quarta-feira (18), em Campinas. Consolidado como um dos principais espaços de análise estratégica do setor, o evento reuniu cerca de 200 participantes, incluindo executivos de mais de 90 empresas, com programação voltada à divulgação de dados inéditos e exclusivos, aliada à leitura de mercado, tendências e perspectivas para os bioinsumos no Brasil e no mundo. O encontro também contou com a participação de representantes do setor público, como o Ministério da Agricultura (Mapa) e a Embrapa, além de especialistas e consultorias, reunindo diferentes elos da cadeia produtiva em torno da qualificação da tomada de decisão baseada em dados.
“O avanço dos bioinsumos no Brasil está cada vez mais ligado ao acesso a dados qualificados, inteligência de mercado e à integração entre os diferentes agentes da cadeia. Iniciativas como o workshop são fundamentais para sustentar esse crescimento e consolidar o país como um dos protagonistas globais no desenvolvimento e na adoção dessas tecnologias”, afirma Larissa Bonotto, responsável pela frente de inteligência de mercado e diretora de operações da Anpii Bio.
Segundo dados apresentados pela DunhamTrimmer International Bio Intelligence, o mercado global de bioinsumos foi estimado em cerca de US$ 15 bilhões em 2025, com crescimento médio anual projetado de 10% até 2030, refletindo uma fase de expansão acelerada e avanço gradual em direção à maturidade. O segmento de biocontrole segue como principal pilar do setor, concentrando mais de 50% desse volume, enquanto os bioestimulantes, que são classificados como biofertilizantes na legislação brasileira, representam 28%. Já os inoculantes e promotores de crescimento microbianos, ao fortalecerem estratégias integradas de manejo, respondem por 17% de participação.
“O crescimento observado globalmente é impulsionado pela demanda por soluções mais sustentáveis e pela necessidade de maior eficiência produtiva. Ao mesmo tempo, vemos um ambiente de intensificação competitiva e expansão global das empresas do setor", explica Ignacio Moyano, vice-presidente de desenvolvimento de negócios para a América Latina da DunhamTrimmer International Bio Intelligence.
A América Latina se consolida como um dos principais motores dessa expansão, com crescimento projetado de 14% entre 2025 e 2030 e expectativa de atingir US$ 6,7 bilhões em faturamento ao final do período. Dentro desse movimento, o Brasil ocupa posição de destaque e se consolida como uma das principais referências globais, tanto em escala de uso quanto em desenvolvimento tecnológico de insumos biológicos, concentrando cerca de 50% da movimentação regional - impulsionado não apenas pelo tamanho da sua agricultura, mas também pela rápida adoção em cultivos extensivos e por um ambiente regulatório favorável.
De acordo com a consultoria, esse fortalecimento, tanto no Brasil quanto na América Latina, está diretamente associado à pressão por redução de resíduos, à busca por maior eficiência no uso de nutrientes e à crescente integração desses produtos ao manejo agronômico, especialmente em culturas extensivas como soja, milho e trigo, além da demanda por ferramentas cada vez mais estratégicas dentro dos sistemas produtivos, capazes de promover a nutrição das plantas, ampliar o controle de pragas e doenças e aumentar a resiliência das lavouras frente ao estresse climático, o que tem fomentado, do ponto de vista tecnológico, o avanço de soluções microbianas e biotecnológicas baseadas no uso de microrganismos.
Apesar desse avanço consistente, o principal desafio para a indústria está na captura de valor: em um ambiente cada vez mais competitivo, as empresas precisam avançar na comprovação de resultados agronômicos no campo, fortalecer a confiança do produtor e se diferenciar por meio da oferta de serviços técnicos, geração de dados e suporte agronômico, indo além do produto em si.
“Entramos em uma nova fase de desenvolvimento do setor, em que a expansão em área e adoção já não é suficiente para sustentar o crescimento. A captura de valor passa, necessariamente, pela capacidade das empresas de entregar consistência agronômica, gerar dados confiáveis e apoiar o produtor na tomada de decisão, em um contexto cada vez mais técnico e competitivo”, complementa Moyano.
Nesse ambiente global em transformação, o cenário internacional adiciona novas variáveis relevantes, como o avanço das negociações no âmbito do Mercosul. A abertura comercial prevista no acordo cria oportunidades importantes, como a eliminação de tarifas em cerca de 92% do comércio bilateral, maior acesso ao mercado europeu, expansão das exportações agrícolas e fortalecimento de cadeias agroindustriais.
Por outro lado, também amplia a concorrência internacional, pressiona margens, eleva as exigências regulatórias e de rastreabilidade e intensifica a pressão sobre os preços dos insumos. Na prática, a abertura de mercado amplia o potencial de crescimento, mas não garante rentabilidade, reforçando a necessidade de maior eficiência e competitividade por parte das empresas.
No Brasil, os dados apresentados pela Blink Inteligência Aplicada, por meio de seu fundador e CEO, Lars Schobinger, mostram que o mercado nacional já superou R$ 7 bilhões na última safra, considerando produtos comerciais e produção on farm. Nesse contexto, as culturas de soja, milho, cana-de-açúcar, algodão, café e citros concentram 96% do mercado de biológicos, evidenciando a forte presença desses insumos em sistemas produtivos de larga escala.
Além disso, os bioinsumos já representam 7,2% do mercado em relação aos químicos, com maior participação no milho, com 10,1%, seguido pela cana-de-açúcar, com 8,1%, e pela soja, com 7,1%. Na análise por segmento, os bionematicidas lideram com 31% de participação, seguidos por bioinseticidas, com 25%, e biofungicidas, com 15%, que vêm ampliando espaço de forma consistente.
Em relação à área tratada com biológicos comerciais, o levantamento demonstra avanço contínuo. Ainda assim, o valor das vendas cresceu em ritmo inferior ao observado nas safras anteriores: na comparação com 2023/24, a área potencial tratada (PAT) avançou 15,8%, mas, ao mesmo tempo, o valor de mercado cresceu 3,6%, com projeção de leve redução na safra 25/26, mas ainda com avanço importante na area tratada, evidenciando um descompasso entre adoção e captura de valor. “A entrada acelerada de novos players torna o mercado mais pulverizado e competitivo, intensificando a disputa por preço e comprimindo margens, mesmo em um cenário de maior consumo e adoção no campo”, afirma Lars Schobinger, fundador e CEO da Blink Inteligência Aplicada.
No entanto, no médio prazo, o setor deve entrar em uma nova onda de crescimento, com projeção de expansão de 66% na área tratada com biológicos comerciais nos próximos cinco anos, valor que representa um crescimento médio anual de 10,6% entre 2025 e 2030.
No entanto, no médio prazo, o setor deve entrar em uma nova onda de crescimento, com projeção de expansão de 66% na área tratada com biológicos comerciais nos próximos cinco anos, valor que representa um crescimento médio anual de 10,6% entre 2025 e 2030.
Os dados da Anpii Bio, apresentados pela 5P2R Marketing de Precisão, reforçam o momento de expansão da indústria nacional. O levantamento, que inclui dados exclusivos e inéditos da indústria brasileira, foi realizado pela associação a partir da análise de 30 empresas ao longo de 2025, por meio de coletas trimestrais. A análise integra uma base histórica iniciada em 2009, que confere à entidade a mais longa série estatística sobre bioinsumos no país, com 19 anos de dados contínuos.
O estudo também demonstra que, entre 2022 e 2025, o número de empresas cresceu mais de 50%, refletindo tanto o surgimento de novos entrantes quanto a ampliação do portfólio de companhias já consolidadas em outros segmentos, como fertilizantes e defensivos químicos. Atualmente, são mais de 200 empresas formalmente registradas junto ao Mapa.
Além disso, o Brasil já possui mais 1500 insumos com ação biológica registrados, mesmo antes da completa regulamentação da Lei de Bioinsumos. Dentre os destaques estão inoculantes, que representam 60% dos registros, seguidos por defensivos biológicos (39%) e biofertilizantes (2%).
Os dados também demonstram que a indústria nacional ganha protagonismo com baixa dependência externa: as empresas brasileiras respondem por 85% da produção e 75% do crescimento recente do volume, enquanto apenas 15% dos produtos biológicos são importados.
Mesmo diante de desafios como pressão de oferta, riscos de crédito e pressão nos canais de distribuição, as empresas associadas à Anpii Bio projetam, neste ano, o crescimento de 17% no consumo de bioinsumos no país. “O cenário combina aumento do número de empresas e produtos, expansão da capacidade industrial e avanço mais acelerado em volume do que em valor, em um ambiente mais competitivo e exigente. Ainda assim, as perspectivas para 2026 permanecem positivas e o mercado seguirá se fortalecendo e se diversificando”, afirma Anderson Nora Ribeiro, sócio-fundador da 5P2R Marketing de Precisão.
Para a porta-voz da Anpii Bio, o conjunto dos dados reforça o papel estratégico do Brasil no avanço global dos bioinsumos. “O país reúne escala produtiva, capacidade industrial e um ambiente cada vez mais estruturado para sustentar o crescimento do setor. O desafio, agora, está em transformar esse avanço em valor consistente para toda a cadeia, com inovação, qualidade e geração de resultados no campo”, conclui Larissa Bonotto.
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