Método para diagnosticar a meleira do mamoeiro
Por Tuffi Cerqueira Habibe e Antonio Souza do Nascimento (Embrapa Mandioca e Fruticultura)
O algodoeiro (
sp.) representado pelas quatro espécies cultivadas atualmente, especialmente a
L. r. latifolium Hutch. que corresponde a mais de 90% do total produzido de fibra, óleo e outros produtos, é considerado o “boi vegetal”, pois quase tudo que produz é aproveitado pelo homem.
Somente a fibra, seu produto principal, e que veste atualmente quase metade da humanidade, tem inúmeras aplicações industriais, sendo a matéria-prima para fabricação de vários tipos de tecidos, linhas, cadarços, talagarças, cordas etc. Após o processo de beneficiamento do algodão que separa a fibra (pluma) da semente, vários subprodutos podem ser obtidos da semente vulgarmente denominada de “caroço do algodão”.
No processo de beneficiamento, comumente chamado de “descaroçamento do algodão”, além da pluma e das sementes, ocorre uma certa quantidade de outros materiais denominados, no conjunto, de “impurezas” (areia, terra, restos de folhas, frutos pequenos, sementes de plantas daninhas etc), que recebem a denominação trivial de “quebra”. Ela chega, em média, a 5%. No mundo, atualmente, são produzidas - em mais de 65 países - numa área total de 33,31 milhões de hectares, cerca de 18,55 milhões de toneladas de algodão em pluma e cerca de 31,58 milhões de toneladas de sementes, considerando 37% de fibra e 63% de caroço. Com a quebra de 5%, ficam 30 milhões de toneladas de caroço de algodão.
Do total produzido anualmente de semente do algodão, cerca de 666.200 toneladas são usadas no novo plantio, gastando-se uma base de 20 kg de sementes/ha e considerando-se que a área plantada desde 1950 varia pouco, ficando em torno de 33 milhões de hectares. Numa amplitude de 29 a 36 milhões de hectares, cerca de 49,7 milhões de toneladas ficam para o processamento industrial, visando à obtenção de diversos subprodutos importantes para a humanidade, entre os quais o óleo, o línter (fibras curtas, de comprimento de 3 a 12 mm) e proteínas de elevado valor biológico.
A semente de algodão apresenta, em média, a seguinte composição: 12,5% de línter, 15,2% de óleo bruto, 46,7% de torta (resíduo da extração do óleo), 20,7% de casca e 4,9% de resíduos, produzidos no processo industrial.
A composição química da semente apresenta de 6 a 12% de umidade, 3 a 4% de cinzas (resíduo mineral), 16 a 26% de proteínas, 24 a 31% de carboidratos, 14 a 25% de óleo e de 14 a 21% de material fibroso. A semente na íntegra, ao natural, pode ser utilizada diretamente na alimentação de bovinos, desde que se tome algumas precauções como a quantidade máxima a ser administrada diariamente por animal e o tipo do animal (sexo, utilidade, idade, raça etc).
O caroço de algodão inteiro tem 92% de matéria seca, sendo 24% de fibra bruta; 20% de extrato etéreo; 0,21% de cálcio; 0,64% de fósforo e 23% de proteína bruta, e o línter é uma fonte de fibra facilmente digestível pelos ruminantes. Ele tem mais de 90% de sua composição em celulose (polímero de glicose).
O caroço de algodão é um alimento rico em energia, tendo em média 96% de nutrientes digestíveis totais (NDT). Quando se utiliza forragem de baixa qualidade, pode-se ministrar o caroço de algodão na base de 1,5 kg por animal/dia, considerando bovinos adultos. O caroço de algodão “in natura” não deve ser utilizado como alimento para animais monogástricos, principalmente aves e suínos, pois é tóxico, devido à presença do gossipol (complexo de substâncias - pelo menos 15% são de natureza fenólica, alcalóide) que ocorre nas sementes e em outras partes da planta do algodão, nas glândulas internas. Isso representa até 2% do peso da semente em cultivares “normais”, com glândulas internas, nas espécies cultivadas Na semente, o gossipol fica localizado internamente na amêndoa, nas partes escuras.
No processo de extração do óleo da semente do algodão, no descascador, a casca é separada da amêndoa que contém o embrião e até 40% de óleo. A casca tem em média 8,7% de água, 2,6% de cinza, 3,5% de proteína bruta, mais de 45% de carboidratos e - somente - em torno de 1% de lipídeos. A casca tem de 3 a 8% de línter e fibras com tamanho inferior a 3 mm. É altamente digestível e pode ser usada pura ou misturada com outros produtos na composição de rações, não necesssitando de moagem, tendo de 44 a 48% de fibra bruta. A casca pode ainda ser usada como adubo e combustível. No processo de industrialização do caroço de algodão obtém-se o línter, o óleo e a torta.
O línter, que é constituído por fibras curtas (3 a 12 mm), como foi dito anteriormente, não é retirado no processo de beneficiamento do algodão, onde as fibras são separadas das sementes. É constituído praticamente de celulose, tendo ainda, em pequenas quantidades, pectinas, constituintes minerais, lipídeos (óleo e ceras) e resinas. Entre as várias aplicações do línter, destacam-se o algodão hidrófilo, tecidos cirúrgicos, pólvora seca e misturas com lã para a fabricação de tecidos.
O línter, segundo o número de cortes processados no deslintamento da semente, é chamado línter de primeiro corte, de segundo corte e de terceiro corte. O de primeiro corte, que apresenta fibras mais longas, é usado para a fabricação de algodão hidrófilo (absorvente) e tecidos cirúrgicos. O línter de segundo corte é usado para a fabricação de celulose, bem como o línter de terceiro corte. O uso do línter permite a produção da celulose química de elevado conteúdo de ß-celulose, de alta viscosidade.
A exemplo do que é feito com a fibra do algodão, no Brasil, o línter é classificado conforme a Portaria M.A. N. 55, de 09 de fevereiro de 1990. A classificação envolve: a) línter de 10 corte, b) línter de 20 corte, c) línter de 30 corte. O artigo 33 define os tipos de línter de 1 a 4, sendo o 1 - o superior - de perfeito estado, seco e de coloração clara e o 4, de bom estado, seco e de coloração mais escura. O línter que estiver fermentado, devido ao elevado teor de umidade, será desclassificado. A matéria-prima para fabricação do algodão hidrófilo (de farmácia) é o línter sem os demais constituintes (lipídeos, ceras, alcanos, proteínas, substâncias pecticas etc), ficando somente a celulose (polímero de glucose). Para obtenção de tal produto, o línter natural é tratado via processo de digestão, onde as substâncias retromencionadas são solubilizadas.
No processo, cerca de 21% do produto original são removidos, pois contêm resíduos de casca de sementes e outras impurezas. Mas isso depende do tipo de línter utilizado. A concentração de álcalis, a temperatura de digestão e o tempo deste processo determinam o grau de purificação atingido, além do volume tirado da viscosidade da celulose. A digestão comercial do línter é geralmente realizada com solução contendo 2,5 a 3,5% de hidróxido de sódio. A temperatura varia de 1350 a 1710C (2750 a 3400F) com o meio com pressão de 30 a 100 Psi (libra/pol2). A digestão pode ser feita vertical ou horizontalmente, utilizando-se o tipo rotário. Às vezes, é necessário adicionar à digestão, um pouco de sabão ou detergente, para remover materiais estranhos, entre eles determinados tipos de ceras.
Em geral, em média, pode-se obter cerca de 50 kg de línter por tonelada de sementes. Para o plantio, a semente é deslintada. O objetivo é facilitar esta operação, aumentar o valor cultural da semente do algodão e protegê-la de alguns patógenos causadores de doenças. O trabalho é feito via mecânica (fica ainda 1 a 2% de línter) ou química - via ácido sulfúrico ou clorídico -, onde todo línter é digerido. A semente fica lisa e preta. Antes de ser processado nos silos, o caroço do algodão é aerado, mantendo-se a umidade em torno de 12%. Em seguida é limpo, via peneiras (Bawer), para eliminar as impurezas. Já deslintado, vai para o descascamento para separar a casca da amêndoa. Após o descaroçamento, a amêndoa vai para moagem, cozimento e, finalmente, para a extração do óleo, que pode ser mecânico ou químico, via uso de solventes.
O óleo do algodão é um dos cinco mais importantes do mundo, tanto em volume de produção como em qualidade, representando 17,3% do total do óleo produzido atualmente no mundo. Apresenta a seguinte composição de ácidos graxos: 47,8% de linoléico (18:2), 22,9% de oléico (C18:1), 23,4% de palmítico (C16:0), 2% de palmitoléico (C16:1), 1,4% de mirístico (C14:0) e 1,1% de esteárico (C18:0), tendo, ainda, baixa concentração de ácidos graxos ciclopropenos, como o estercúbido (C18) e o malválico (C17).
Além disso, a amêndoa possui vitaminas A, D e E. A torta pode ser gorda (com maior teor de óleo, cerca de 5%), ou normal, e é usada para alimentação animal ou como fonte para obtenção de farinha e massa protéica, com diversas aplicações industriais. É denominada, também, de “farelo de algodão”. A torta tem em média 90% de matéria seca, com 46% de proteína bruta e de 2 a 3% de lipídeos (extrato etéreo) e 7% de cinzas (0,21% de cálcio, 0,65% de magnésio, 1,14% de fósforo, 1,68% de potássio, 0,007% de sódio, 0,43% de enxofre, 10,9 ppm de cobre, 106 ppm de ferro, 19 ppm de manganês, 2,4 ppm de molibdênio e 62,8 ppm de zinco). As vacas toleram até 9000 ppm de gossipol (0,9%) e os bezerros até 200 ppm, até quatro meses.
Na torta, tem-se em média 11000 ppm de gossipol total, 6.600 a 8000 ppm no caroço e 10.700 ppm na casca. Novilhos que recebam 600 g de torta/dia têm expressivo aumento de peso. Há cultivares de algodão sem gossipol. (Assim, a farinha pode ser usada na alimentação humana). É muito útil em outros animais monogástricos, por ser rica em proteína de elevado valor biológico, como ácido glutâmico (10, 53 g/100g de farinha), arginina (5,43 g/100 g), leucina (3,12 g/100g), fenil-alanina (2,82 g/100 g), ácido aspártico (4,93 g/100 g), alanina (2,12 g/100 g), prolina (1,96 g/100 g) e serina (2,40 g/100g). A partir da farinha pode-se fabricar plásticos biodegradáveis e, das cultivares com elevado teor de gossipol, como a H102, é possível fabricar pílulas anticoncepcionais masculinas, pois o gossipol é um potente inibidor temporário de espermatogênese.
Embrapa Algodão
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