Velocidade e preparo do solo impactam tração e consumo
Por Marcelo Queiroz Amorim, Carlos Alessandro Chioderoli, Leonardo de Almeida Monteiro, Daniel Albiero, Elivânia Maria Sousa Nascimento e Danilo Roberto Loureiro, da UFC
Para a edição de final de ano da Cultivar Máquinas, decidimos comparar tratores de uma das faixas de potências que mais cresce em vendas no mercado brasileiro, a dos 250 cv. Para isto, aplicamos um critério, abrindo uma tolerância de 5% a mais e a menos, sobre a base de 250 cv. Escolhemos, então, seis tratores de seis marcas diferentes: Case IH modelo Puma 230 - MY25; Fendt modelo 726 Vario Gen7; John Deere modelo 8250R; Lovol modelo N 2604; Massey Ferguson modelo MF 7725 Dyna-6, e Valtra modelo T250 CVT.
Em comum, os modelos deste comparativo têm a característica de utilizar motores de seis cilindros, equipados com turbocompressor e injeção eletrônica de combustível (com uma exceção), a tração é do tipo TDA (tração dianteira auxiliar) e todos são equipados com cabina.
Em apenas dois casos o motor é o mesmo, pois a Massey Ferguson e a Valtra, sendo marcas da AGCO, compartilham, entre outras coisas, o mesmo motor, porém com transmissões diferentes.
Os motores destes tratores têm, em geral, bastante desenvolvimento tecnológico e comprovada confiabilidade, pelo número de tratores comercializados nesta faixa de potência. São tratores preparados basicamente para duas situações, a primeira é ser o trator mais importante de uma fazenda, responsável por tracionar a principal máquina de semeadura e algum equipamento de preparação do solo. Também podem ser usados em situações em que a propriedade é de maior porte, então são utilizados em operações secundárias, porém com bastante exigência. Este segundo caso é o da cana-de-açúcar, em que alguns modelos têm, inclusive, versões com opcionais direcionados.
Quanto à comparação entre as normas de referência utilizadas para expressar a potência dos motores, tanto a Case IH como a Fendt usam a norma europeia ECE R120, a John Deere usa ISO97/68EC e a Massey Ferguson e a Valtra usam SAE J1995. A Lovol não especifica norma utilizada.
Há uma diferença significativa entre os valores informados por padrão de procedimento das normas, portanto é interessante realizar a conversão para ver exatamente qual a diferença de potência entre um modelo e outro.
Aplicando estas correções comparativas, temos as potências uniformizadas para o padrão ISO, assim: Case IH modelo Puma 230 - MY25, 240 cv; John Deere modelo 8250R, 250 cv; Massey Ferguson modelo MF 7725 Dyna-6, 234 cv; Valtra modelo T250 CVT, 234 cv; e Fendt modelo 726 Vario Gen7, 270 cv. Para o modelo N 2604 da Lovol não foi possível corrigir o valor de potência do motor, pois não há informação de qual protocolo segue.
Os motores utilizados pela CNH, nas linhas Case IH e New Holland, na sua maioria são FPT NEF 6. O Puma 230 - MY25 utiliza um motor de seis cilindros, com 6.700 cm3 de volume deslocado, turbo e intercooler, com injeção eletrônica de combustível. A potência nominal é 234 cv, porém a máxima é 241 cv. O motor tem integração com a transmissão através do sistema APM que seleciona, de forma automática, sem necessidade de programação, a marcha, sincronizando com o motor, para manter velocidade constante. Os motores cumprem norma Tier III de emissões, equivalente à MAR-1.
A John Deere tem sua própria marca de motores que utiliza em toda a sua linha de tratores. O modelo 8250R utiliza um motor de 9.000 cm3 de volume deslocado e é o maior deste nosso comparativo. Este trator é o menor de uma série de sete modelos que utilizam o mesmo motor. A injeção de combustível é eletrônica e atende à normativa MAR-1 com sistema EGR, com redução de temperatura dos gases. Assim como o Case IH, ele também possui integração do motor com a transmissão, sistema FieldCruise. Infelizmente, a John Deere não informa o valor do torque máximo deste modelo.
Tanto a Massey Ferguson como a Valtra utilizam o modelo 74CW3 da marca AGCO Power. Esse motor de seis cilindros, com volume deslocado de 6.600 cm3 entrega 250 cv a 1.950 rpm e um torque máximo de 1.000 Nm a 1.500 rpm. Usa um sistema turbo com intercooler e injeção eletrônica de combustível. Também, como é comum nesta série, há um sistema de integração motor-transmissão, denominado DTM, que gerencia eletronicamente esta relação.
A Lovol, neste modelo N2604, utiliza motores da marca Shangchai, modelo SC9DK280G3, produzidos na China, de seis cilindros e 8.820 cm3 de deslocamento volumétrico. A potência nominal é de 260 cv a 2.200 rpm e o torque máximo de 1.070 Nm, sem informação de que rotação se proporciona este valor. A informação disponível indica cumprimento de padrão Euro II de controle de emissões, mesmo utilizando motores com injeção mecânica de combustível com bomba injetora.
A Fendt utiliza, no modelo 726 Vario Gen7, o motor AGCO Power, modelo CORE75. Esse modelo faz parte da série 700 composta de dois modelos. Esse motor que proporciona 262 cv a 1.700 e torque máximo de 1.540 rpm a 1.300 rpm é de última geração e utiliza um conceito de baixas rotações. Utiliza sistema de redução de emissões do tipo SCR com pós-tratamento de gases de escape, com Arla 32. O volume deslocado do motor é de 7.527 cm3 e com o sistema dynamic performance até 20 cv a mais podem ser disponibilizados para vencer sobrecargas.
Diferentemente dos tratores de menor potência e nível tecnológico comumente equipados com transmissões mecânicas, os tratores deste comparativo possuem transmissões hidrostáticas e/ou continuamente variável (CVT), com exceção do trator da marca Lovol, que utiliza transmissão mecânica sincronizada. Conceitualmente, nas transmissões hidrostáticas destaca-se o sistema “powershift”, denominação que varia conforme o fabricante, mas que permite a troca de marchas em regime de carga, sem o uso da embreagem. Desta forma, a variação da velocidade e consequentemente do torque ocorre sem a necessidade de acionar a embreagem e parar o trator. Deste tipo de transmissão deriva a Full Powershift, constituída por pacotes de discos que atuam tanto na seleção das velocidades, quanto para a alteração dos grupos, permitindo realizar todas as combinações de marchas do trator.
Nas transmissões CVT também ocorre o gerenciamento conjunto do motor e transmissão, sem a existência de marchas, tendo-se infinitas relações de transmissão.
Nos sistemas que fazem integração de motor-transmissão, o mecanismo de gerenciamento define a velocidade correta em função da carga demandada, refletindo no aumento da eficiência operacional e na redução do consumo de combustível.
O trator Puma 230 - MY25 vem equipado com uma transmissão denominada Autoshift, que é do tipo “powershift” integral, com 18 velocidades à frente e seis à ré, contemplando uma faixa de velocidade de 0 a 40 km/h. Destaca-se o equilíbrio entre a potência e a eficiência no uso do combustível, que ocorre por meio do gerenciamento automático de produtividade (APM), que seleciona a melhor relação de marcha para a velocidade, não sendo necessário trocar de marchas constantemente.
Seguindo a mesma tendência, o modelo 8250R da John Deere usa a tradicional PowerShift™ da marca, que disponibiliza 16 velocidades à frente e quatro velocidades à ré. Ressalta-se a função automática APS, em que a transmissão controla os parâmetros de funcionamento do motor trocando as marchas automaticamente, visando proporcionar condições de maior economia e uso do torque e da potência. O sistema permite escolher a marcha ideal de trabalho, sendo que a troca de marchas do trator ocorre conforme a carga imposta, de modo a atender melhor aos parâmetros de rendimento. A transmissão Efficiency Manager™ também está disponível no modelo 8250R, proporcionando 23 velocidades à frente e 11 à ré, com escala de variação na velocidade de 15% e 30%, respectivamente. Além disso, a partir da determinação da velocidade de operação, o sistema gerenciador de eficiência monitora a carga do motor, realizando a troca de marcha e a alteração da rotação de forma automática, quando necessário.
Entre as duas marcas da AGCO existe uma grande diferença, mesmo utilizando o mesmo motor, o modelo MF 7725 Dyna-6 da Massey Ferguson usa uma transmissão Dyna-6 de 24 velocidades à frente e à ré, enquanto seu irmão da Valtra, o T250 CVT, usa uma transmissão continuamente variável, igual à que usa o Fendt 726 Vario Gen7. Especificamente no caso do modelo MF 7725 Dyna-6, a transmissão é composta por seis relações “powershift”, perfeitamente escalonadas em quatro grupos. Cabe destacar que a transmissão Dyna-6 é equipada de série com o reversor eletro-hidráulico Power Shuttle, que proporciona mudanças de direção frente e ré sem o uso do pedal da embreagem e com a máquina em carga e em movimento.
O modelo Valtra T250 CVT, utiliza uma transmissão continuamente variável (CVT) que possibilita trabalhar com um número infinito de velocidades, atendendo às diferentes particularidades das operações. Possui duas faixas de velocidade, sendo de 0,03 km/h a 28 km/h para operações de campo e de 0,03 km/h a 40 km/h para transporte. O modelo Valtra T250 CVT também dispõe de um sistema de gerenciamento dinâmico do trator de modo a ajustar automaticamente a velocidade de deslocamento e a rotação do motor conforme a carga demandada.
Em relação ao modelo de trator Lovol N 2604, o fabricante informa apenas que a transmissão é do tipo sincronizada, com 18 marchas à frente e seis à ré, com velocidades de 3,37 km/h a 31,96 km/h.
Por último, o trator 726 Vario Gen7 é equipado com uma transmissão continuamente variável (CVT), modelo TA 190 que disponibiliza uma faixa de velocidade de 0,02 km/h a 60 km/h à frente e de 0,02 km/h a 33 km/h à ré. A transmissão proporciona uma condução contínua e dinâmica em qualquer velocidade de trabalho, sendo que os eixos dianteiro e traseiro são acionados separadamente. Destaca-se que o modelo 726 Vario Gen7 possui embreagem de tração integral controlada eletronicamente, sendo que o controle manual da tração dianteira auxiliar neste modelo é dispensado.
O sistema de levante hidráulico dos tratores deste comparativo enquadra-se nas categorias III e IV, segundo a norma NBR ISO 730-2011, que utiliza como fator de classificação a potência nominal do motor. Cabe destacar ao leitor que a norma estabelece faixas sobrepostas de potência, sendo que o sistema hidráulico de determinado modelo de trator pode ser classificado em diferentes categorias.
Outro ponto que merece melhor entendimento refere-se às válvulas de controle remoto (VCR), que possibilitam aos tratores realizarem diferentes operações por meio do acionamento de cilindros e motores hidráulicos externos. Como critérios comparativos, o diferencial entre tratores recai sobre a pressão, a vazão e o número de VCRs do sistema de controle remoto, sendo que a seleção deve atender às especificidades de cada implemento ou máquina com qualidade e precisão.
O sistema hidráulico do trator, trator Puma 230 - MY25, tem como propósito atender maior demanda de vazão por meio de uma bomba PFC de pressão e fluxo compensado de centro fechado, que confere um fluxo ao sistema hidráulico principal de 180 l/min e uma pressão de 215 bar. Paralelamente, dispõe de quatro VCRs, além de uma válvula hidráulica de retorno com dreno. O sistema de levante hidráulico de três pontos possui eixo de acionamento em aço para os braços fundidos, cilindros com diâmetro de 110 mm que conferem uma capacidade de levante de 6.894 kg.
Já o modelo 8250R da John Deere possui bomba hidráulica de pistões axiais com vazão máxima de 227 l/min a uma pressão de 200 bar. O sistema de levante hidráulico de três pontos possui capacidade de 9.000 kgf, com controle eletrônico por meio de sensores localizados nos braços inferiores. O sistema de controle remoto apresenta quatro VCRs com vazão de 132 l/min. Opcionalmente, tem-se a disponibilidade de cinco VCRs com acionamento eletro-hidráulico, que permite o controle eletrônico sem a necessidade de alavancas.
Em relação ao sistema hidráulico do modelo MF 7725 Dyna-6 da Massey Ferguson, este dispõe de uma bomba de pistões de vazão variável com pressão de 200 bar, conferindo uma vazão máxima de 150 l/min. O sistema de levante hidráulico de três pontos traseiro possui capacidade de 9.950 kgf, com controle eletrônico que permite maior precisão das funções dos braços hidráulicos, garantindo o gerenciamento da profundidade e a altura de trabalho para diferentes implementos. Destaca-se ainda que o modelo apresenta a opção do sistema de levante hidráulico de três pontos dianteiro com capacidade de levante de 4.000 kgf. Complementarmente, o modelo disponibiliza quatro VCRs para acionamento de máquinas e implementos via controle remoto.
O sistema hidráulico do trator Valtra T250 CVT apresenta uma vazão de 190 l/min e uma pressão de 200 bar, com capacidade do sistema de levante hidráulico de três pontos de 9.950 kgf e 4.000 kgf, para os engates traseiro e dianteiro, respectivamente. Em relação ao sistema de controle remoto, este modelo vem equipado com uma bomba de pistão de centro fechado com controle de fluxo de pressão com quatro VCRs. O acionamento das válvulas pode ser de forma eletrônica ou por alavancas (duas eletrônicas e duas por alavancas), ou as quatro de forma totalmente eletrônica.
O modelo do trator Lovol N 2604 disponibiliza apenas as informações sobre a vazão do sistema hidráulico de 100 l/min e da capacidade do sistema de levante hidráulico de três pontos de 6.625 kgf e quatro VCRs.
Por último, o modelo 726 Vario Gen7 da Fendt possui uma bomba hidráulica de fluxo variável que fornece uma vazão de 220 l/min, com quatro VCRs, com capacidade do sistema de levante hidráulico de três pontos de 10.800 kgf no engate traseiro e 5.196 kgf para o engate dianteiro.
O Case IH Puma 230 - MY25 tem cabina suspensa e assento com suspensão pneumática. Tem configuração projetada para a cana-de-açúcar (kit cana) com freio pneumático, barra de tração reforçada e com engate especial, eixo dianteiro reforçado, maior capacidade de levante no sistema hidráulico de três pontos e maiores bitolas do eixo dianteiro.
Quanto às especificações do 8250R, é interessante informar que ele pode vir equipado com suspensão dianteira independente, o que proporciona melhor aderência dos pneus com o solo e um melhor conforto transmitido à cabina do operador. Também, os tratores deste modelo são preparados para receber o piloto automático, receptor de sinais e o sistema iTEC, que auxilia a configuração de manobras de cabeceiras.
O MF 7725 Dyna-6 também usa suspensão dianteira independente de fábrica e pode vir equipado de fábrica com recursos de agricultura de precisão, como o piloto automático centimétrico e decimétrico. Também pode vir preparado para o trabalho na cana-de-açúcar com eixo dianteiro de 3 m e sistema hidráulico de três pontos na parte frontal, inclusive com tomada de potência.
O trator Valtra modelo T250 CVT compõe uma série, que foi premiada em 2017 na Feira Agritechnica, na qual ele é o modelo mais potente e vem pronto de fábrica para receber o piloto automático e toda a tecnologia Fuse da AGCO. Há um sistema para automatizar as manobras de cabeceira.
O modelo N2604 da Lovol é uma novidade no mercado brasileiro. A informação disponível sobre características e especificações é reduzida.
O Fendt 726 Vario Gen7 vem preparado para equipamentos de agricultura de precisão como piloto automático, possiblidades de fazer manobras no modo automático, aplicação de produtos em taxa variável e o sistema de telemetria. Equipamentos interessantes são os ejetores de pó do filtro de cabina e do pó acumulado no radiador. No eixo dianteiro, a suspensão automática se completa com a suspensão de cabina para dar estabilidade e conforto.
*Por José Fernando Schlosser e Alexandre Russini, do Nema/UFSM
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