2,4-D: Polêmico desde sempre, imprescindível como nunca
Willian Daróz Matte, Vanessa Francieli Vital Silva, Fellipe Goulart Machado e Rubem Silvério de Oliveira Jr. (Universidade Estadual de Maringá – NAPD/UEM) e parceiros da Iniciativa 2,4-D
A antracnose da soja, uma consequência fisiológica ou causa de abortamento de legumes. O tema é parte de uma discussão atual em lavouras de soja, onde nas últimas safras se observou com maior frequência legumes sem grãos, presos às plantas. Na tentativa de estimar danos e apontar as causas desse sintoma, a doença, causada por fungo do gênero Colletotrichum, tem sido considerada.
Na atual safra 2017, a antracnose surge como a segunda doença em importância na mente dos sojicultores, para a tomada de decisão na escolha do controle químico, ficando apenas atrás da ferrugem. As condições de alta temperatura e umidade, somados a solos pobres em potássio, especialmente dos cerrados, favorecem sua ocorrência. Apesar de C. truncatum ser o táxon mais comumente associado com a antracnose da soja, outras espécies do gênero também estão envolvidas, como C. destructivum (Lehman e Wolf), C. gloeosporioides (Spauld; Schrenk) e C. graminicola (Sinclair e Backman, 1989).
Um experimento recentemente publicado por professores da USP/Esalq (Barbieri, 2017) que coletaram caules de plantas de soja, de janeiro de 2012 a novembro de 2014, com lesões marrons irregulares necróticas em lavouras comerciais no cerrado, encontrou entre os isolados a espécie Colletotrichum cliviae. Os testes de patogenicidade foram realizados duas vezes, com cinco cepas de C. cliviae em plantas de soja em vaso, cultivar 'BMX Potência' ou 'AMS Tibagi' e confirmaram a ocorrência de C. cliviae causando antracnose em soja no Brasil (Barbieri, 2017).
Também existem diversos trabalhos na literatura que consideram Colletotrichum truncatum como o principal agente causal da antracnose da soja. Porém, para Yang et al., 2012, 2014 há várias outras espécies de Colletotrichum envolvidas em diferentes regiões geográficas. Os trabalhos de Dias, 2014 e Barbieri, 2017 são o primeiro relato de C. cliviae envolvido com a antracnose da soja no Brasil. O estudo efetuado na Universidade de Brasília mostrou que o isolado I5H, proveniente do estado do Tocantins, apresentou lesões em plantas de soja mais severas, comparativamente, onde os autores classificaram como um dos mais agressivos à soja, causando lesões tanto em cotilédones, como em hastes. Os autores apontaram, ainda, que a prevalência desta antracnose esta separada geograficamente nos estados de Tocantins, Maranhão e Distrito Federal, justamente os locais onde têm sido relatados casos mais agressivos e recorrentes de danos por esta doença. (Dias, 2014).
Com a luz desses estudos mais recentes observa-se que o patossistema antracnose da soja é complexo e sua etiologia confusa. A escassez de informações sobre o patógeno, nas diversas regiões produtoras de soja, pode dificultar estratégias de controle, seja de uso de cultivares resistentes ou mesmo de fungicidas. Se no Brasil há a ocorrência de múltiplas espécies de Colletotrichum causadores da antracnose em soja, a própria reação varietal de suscetibilidade à doença pode ser diferencial entre regiões.
Além de que, a espécie mais “agressiva” pode estar sendo disseminada através de sementes contaminadas sem o devido cuidado, oferecendo maior dificuldade de controle para regiões em que anteriormente a antracnose não era uma doença tão importante.
Observa-se um avanço da doença, especialmente nos cerrados brasileiros, de forma ardilosa proporcionando um dano oculto através do descuido com a patologia de sementes. Os sintomas mais relatados e observados da antracnose nessas condições são lesões escuras, irregulares, formando depressões nas hastes e nos pecíolos. Comumente não se observam sintomas foliares e o fungo tem um comportamento preferencialmente saprofítico, colonizando estruturas (pecíolos) muitas vezes já descartadas pela planta. Em legumes, quando infectados no estágio inicial de formação, adquirem coloração castanho-escuro a negro e ficam retorcidos, recobertos pelos acérvulos do fungo (usar a sequencia de em uma montagem). Nos legumes em granação, as manchas negras inicialmente se concentram na região do grão, podendo atingir todo o legume, e também, apresentarem abundante produção de acérvulos.
Muitos autores explicam que esse tipo de infecção é causa de abortamento de legumes, o que justifica o alto potencial de dano dessa doença. Contudo, quando a infecção é tardia existe a formação de sementes, mas com baixa qualidade, que servem como fonte de inóculo, visto que a doença apresenta uma alta taxa de transmissibilidade via sementes.
Alguns trabalhos também relatam que em altas severidades a doença pode induzir a retenção foliar e a haste verde, devido à perda acentuada de legumes (Embrapa, 2008; Recomendações, 2007; Balardin, 2002; Dias et al, 2012).
Apesar da crescente importância da doença no Brasil (Dias et al, 2012; Barros, 2008), existe pouca informação sobre métodos adequados de controle, até mesmo a respeito da disponibilidade de resistência genética em soja. Nas recomendações oficiais constam métodos culturais de controle como rotação de culturas, manejo do solo, adubação potássica, maior espaçamento e menor densidade de plantio (Embrapa, 2008). Entretanto, Dias et al (2012) e outros autores enfatizam o emprego de variedades resistentes como ponto-chave no manejo integrado da antracnose na cultura da soja.
Klingelfuss e Yorinori (2001) observaram C. truncatum presente em folíolos de soja, mesmo na ausência de sintomas no campo. Para estes, a antracnose apresenta um longo período latente, onde o patógeno infecta a planta precocemente, mas os sintomas só são observados na fase de formação de legumes.
Observações realizadas em lavouras comerciais nos estados de Tocantins, Bahia e Mato Grosso, na safra 2017, constataram um comportamento diferencial quanto à sintomatologia da antracnose, não só em diferentes cultivares, como também relacionada ao regime de chuvas, especialmente na floração. Algumas cultivares apresentavam mais sintomas em hastes e pecíolos, enquanto outras demonstravam mais legumes sem grãos. Lavouras em que a época de semeadura coincidiu com alta pluviosidade durante a floração chegaram a apresentar 20% a mais de legumes nulos, em relação à mesma cultivar em outra época de semeadura, no estado da Bahia.
O devido entendimento da diversidade do patógeno, principalmente sobre as diferenças quanto à agressividade e ao comportamento epidêmico, é imprescindível para entender as diferenças observadas na eficiência das medidas de controle, em especial o químico. Além da avaliação, por parte do próprio produtor, da suscetibilidade das cultivares no seu local (e na sua espécie de Colletotrichum) de cultivo, a primeira medida para o controle da doença reside no uso de sementes livres do patógeno, produzidas em áreas livres da doença. Essas sementes devem ser tratadas com fungicidas capazes de reduzir os riscos de introdução do patógeno no campo. Resultados demonstraram no ano passado que o uso de misturas de mais de um ingrediente ativo no tratamento de sementes de soja diminuiu significativamente a transmissibilidade de C. truncatum para plântulas de soja.
Porém, o desafio para o controle químico de antracnose na parte aérea da soja é atingir o alvo. Considerando a dificuldade de atingir as folhas do terço inferior da cultura em estágios avançados, como de formação de legumes, certamente atingir legumes e hastes nesta fase fenológica é muito mais difícil. Portanto, tem se observado, não só em experimentos, como em lavouras comerciais, que programas de fungicidas com ativos mais efetivos sobre Colletotrichum nas primeiras aplicações (vegetativo e primeiras flores) têm apresentado bons resultados de controle.
Dados demonstraram numericamente as observações realizadas a campo e os danos da antracnose. Além dos sintomas conhecidos em legumes e hastes de soja, Blood, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 2015 observou que Colletotrichum horii é capaz de infectar flores, permanecer latente e provocar sintomas de antracnose em frutos de caquizeiro. Isso também já foi relatado em citros, oliveiras e morango (Zulfiqar, 1996; Iannota, 1999; Wilson, 1990). Em citros, os sintomas são caracterizados pela presença de lesões necróticas marrons ou alaranjadas nas pétalas e queda dos frutos recém-formados. Talvez seja necessária uma metodologia adequada para a devida quantificação e, mais importante ainda, comprovação da infecção floral em soja, visto que em várias espécies vegetais onde o fungo Colletotrichum é patogênico a flor é parte importante do processo epidêmico.
Assim, especula-se que possa ocorrer infecção floral pelo fungo, o que por consequência resultaria em um menor pegamento de legumes na soja, explicando o elevado potencial de dano da doença. Sendo assim, o número de legumes por planta está sendo avaliado e catalogado nas mais diversas regiões, com o objetivo de medir a eficiência de controle químico de antracnose.
Os resultados da safra 2017, em experimentos conduzidos em sete diferentes municípios do estado do Rio Grande do Sul, mostraram que quanto maior a retenção de legumes por planta, menor o número daqueles com sintomas de antracnose. Por fim, o impacto na produtividade é elevado, considerando uma condição menos agressiva, comparativamente ao observado nos estados da Bahia e do Tocantins nesta mesma safra.
* Por Lucas Navarini (IFRS)
Artigo publicado na edição 218 da Revista Cultivar Grandes Culturas
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Willian Daróz Matte, Vanessa Francieli Vital Silva, Fellipe Goulart Machado e Rubem Silvério de Oliveira Jr. (Universidade Estadual de Maringá – NAPD/UEM) e parceiros da Iniciativa 2,4-D
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