Tecnologia reforça a conservação do solo no Paraná

Redimensionamento de terraços com geotecnologias aumentou a retenção de água e reduziu os riscos de erosão

20.10.2026 | 15:12 (UTC -3)
Lebna Landgraf

A Embrapa Soja (PR) e a Itaipu Binacional juntaram drones, softwares de modelagem e dados sobre disponibilidade de água no solo para indicar melhores práticas de conservação dos solos do Paraná. Com uma abordagem baseada em geotecnologias, as instituições procuraram diagnosticar a eficiência dos terraços — estruturas que controlam a erosão e auxiliam na infiltração de água — e propor intervenções práticas. Resultados da aplicação da metodologia na bacia hidrográfica do município de Toledo, a oeste do estado, mostraram que a erosão foi reduzida e a capacidade de armazenamento de água, triplicada.

“Nosso foco é aprimorar o dimensionamento do sistema de terraceamento, a partir da integração da taxa de infiltração, dos modelos digitais de elevação e de Sistemas de Informação Geográfica (SIGs), visando reduzir os impactos da erosão hídrica promovida por eventos extremos de chuva no Paraná”, afirma o pesquisador da Embrapa Júlio Franchini.

A eficiência de um terraço é tradicionalmente medida por sua altura e largura (geometria). De acordo com o pesquisador, o método tem se mostrado insuficiente para garantir a proteção do solo perante eventos climáticos extremos. “Nosso estudo, em contrapartida, foi baseado em ferramentas digitais e parâmetros hidrológicos para evidenciar a necessidade de modernização dos terraços por meio da identificação das estruturas que estavam falhando e operando com ineficiência.”

O estudo na bacia hidrográfica de Toledo, região que apresenta condições semelhantes às encontradas em cerca de 2 milhões de hectares no Paraná, incluiu variáveis para otimizar o armazenamento de água e a resiliência do solo, sob o sistema plantio direto (SPD). 

Os terraços são estruturas conservacionistas milenares usadas para o ordenamento do fluxo de água. São, por isso, indispensáveis para combater a erosão, mesmo no âmbito do sistema plantio direto. “Identificamos que os sistemas de terraceamento atuais apresentavam um desempenho inferior ao esperado, com falhas hidráulicas e rompimentos, e as avaliações tradicionais baseadas apenas em critérios geométricos estáticos eram insuficientes para explicar o funcionamento real em campo”, avalia Franchini.

Intervenção necessária 

Em outubro de 2017, na bacia hidrográfica de Toledo (PR), por exemplo, a Embrapa Soja e a Itaipu registraram índices de precipitação de 160 mm em cerca de 18 horas, o que causou o transbordamento de água nos terraços e a perda estimada de 7.500 m³ de solo, evidenciando a urgência de mudança nessas estruturas. A partir de então, o redimensionamento dos terraços foi conduzido em 115 hectares da bacia hidrográfica paranaense. 

Foram utilizados modelos digitais de elevação, obtidos por drones e o software Terraço 4.1, desenvolvido pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), para propor soluções de mitigação da erosão hídrica. O redimensionamento na microbacia substituiu 43 terraços ineficientes por 29 reprojetados. A altura média dos terraços subiu de 0,26 m para 0,72 m, elevando a capacidade de retenção de água de 22 mm para 71 mm.

Outro ponto que apontava a necessidade de redimensionamento dos terraços era a mudança nos maquinários contemporâneos. Franchini observa que as máquinas atuais são maiores e mais pesadas, o que dificulta manobras no espaço entre os terraços tradicionais, aumentando o tráfego e, consequentemente, a compactação do solo. Por isso, houve indicação para aumentar a distância horizontal média entre os terraços de 28 m para 51 m, com espaçamento vertical de cerca de 3 m. “Nossa ideia era contar com terraços eficientes e que ainda facilitassem o tráfego e reduzissem as manobras das máquinas modernas, mais robustas do que os modelos antigos”, ressalta.

O pesquisador revela que a eficácia do novo sistema de terraço foi comprovada entre 2019 e 2024, quando a microbacia enfrentou eventos com chuvas superiores a 30 mm/dia sem apresentar sinais de erosão ou sulcos. “Verificamos que os novos terraços são mais eficazes em interceptar o fluxo de água e de sedimentos, portanto, mais eficientes para preservar os solos e armazenar água. Esperamos a replicação desta metodologia em novas áreas de referência, visto que a região de estudo representa condições semelhantes às de aproximadamente dois milhões de hectares no Paraná”, projeta Franchini.

Da teoria à prática 

Para ampliar os dados científicos que justificassem o redimensionamento dos terraços, o pesquisador Henrique Debiasi, da Embrapa Soja, explica que um novo estudo introduziu o conceito de Capacidade Estrutural Relativa (CER). A ideia desse conceito é trazer mais precisão ao diagnóstico funcional dos sistemas de terraceamento, por meio do cálculo do volume de água que o terraço consegue segurar e do escoamento superficial gerado (quantidade de enxurrada gerada pela chuva). 

“Assim, foi possível classificar o estado das estruturas do solo em três condições: as que apresentavam segurança, as marginais e as que apresentarão falhas”, afirma Debiasi. Segundo o pesquisador, essa tipologia ajuda na identificação de áreas com falha estrutural e fornece subsídios para as intervenções. 

“Isso é relevante porque diferencia situações em que o manejo do solo é suficiente daquelas que demandam ações estruturais de redimensionamento ou reconfiguração do sistema de terraceamento”, explica Debiasi. “A introdução da condição intermediária (marginal) representa um avanço conceitual e prático, porque permite a identificação de situações em que o sistema opera próximo ao limiar de colapso estrutural, sendo altamente sensível tanto às condições hidrológicas quanto às práticas de manejo do solo”, enfatiza.

Para ele, a nova proposta de redimensionamento dos terraços é uma resposta científica, baseada em ferramentas modernas, para resolver problemas antigos da conservação do solo e de preservação da água.

Franchini e Debiasi reforçam que o estudo estabelece um arcabouço metodológico replicável e operacional para as bacias hidrográficas do Paraná.

“Esperamos que esses resultados subsidiem as decisões técnicas sobre a real necessidade de reforma ou redimensionamento de terraços, auxiliem na gestão preventiva e apoiem políticas públicas de planejamento territorial e de conservação de solo e da água em larga escala”, concluem.

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