Policultivo com milho sustentou aldeias antigas no Cerrado brasileiro

Isótopos de 101 indivíduos revelam dietas distintas e manejo diversificado de plantas no período pré-colonial

16.07.2026 | 09:02 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
DOI 10.1126/sciadv.aef7066
DOI 10.1126/sciadv.aef7066

Populações pré-coloniais do Cerrado brasileiro mantiveram sistemas diversificados de produção de alimentos com forte participação do milho. A agricultura local não dependia de monocultivo. O resultado contraria interpretações antigas sobre baixa capacidade produtiva do bioma e sobre o predomínio de grupos móveis dedicados à caça e à coleta (DOI 10.1126/sciadv.aef7066).

A conclusão parte da análise de isótopos estáveis em restos humanos de 101 indivíduos. As amostras vieram de 37 sítios arqueológicos do Cerrado, da Caatinga e da Mata Atlântica. O conjunto inclui aldeias associadas à tradição cerâmica Aratu, abrigos rochosos ligados à tradição Una e sítios com cerâmica do sertão.

Materiais analisados

Os pesquisadores avaliaram isótopos de carbono, nitrogênio e oxigênio no colágeno ósseo, na dentina e no esmalte dentário. Esses indicadores permitem estimar a participação de plantas com diferentes vias fotossintéticas na dieta, o consumo de proteína animal e aspectos ligados ao ambiente e à água ingerida.

Os resultados apontaram maior consumo de plantas do grupo C4 entre moradores das aldeias Aratu. O milho representou a principal fonte desse sinal isotópico. Indivíduos dos abrigos rochosos apresentaram valores compatíveis com maior presença de plantas C3 e com dietas mais variadas.

A diferença surgiu tanto no colágeno quanto no esmalte dentário. O colágeno reflete principalmente a fração proteica da alimentação. O esmalte registra uma parcela mais ampla da dieta e responde com maior sensibilidade ao consumo de vegetais.

Forte dependência

Nas aldeias Aratu, o sinal de carbono indicou forte dependência do milho. Parte dos indivíduos do mesmo sítio apresentou padrões distintos, porém. Essa variação aponta diferenças internas de alimentação e afasta a hipótese de um regime uniforme para toda a população.

Os grupos associados à tradição Una mostraram maior diversidade alimentar. As amostras revelaram graus diferentes de consumo de recursos C3 e C4. O padrão se aproxima de uma horticultura em menor escala, combinada ao uso de plantas silvestres.

As populações da Caatinga também consumiram menos recursos C4 em comparação com os moradores das aldeias Aratu. Os valores de nitrogênio não apresentaram diferença significativa entre Cerrado e Caatinga. Segundo o estudo, esse resultado pode indicar menor participação de proteína animal na dieta dos indivíduos da Caatinga, apesar do enriquecimento natural de nitrogênio no ambiente semiárido.

Cronologia das amostras

A cronologia reuniu amostras datadas entre 1.055 e 333 anos calibrados antes do presente. As aldeias Aratu e os sítios Una ocuparam parte desse intervalo ao mesmo tempo. A coexistência reforça a interpretação de sistemas culturais e econômicos distintos no centro-leste da América do Sul.

Evidências arqueobotânicas já registravam cultivos no Cerrado milhares de anos antes dessas aldeias. O conjunto inclui milho, mandioca, feijões, amendoim, abóbora, cabaça e algodão. Entre as espécies mencionadas aparecem Manihot esculenta, Phaseolus lunatus, Phaseolus vulgaris, Arachis hypogaea e Lagenaria siceraria. Plantas silvestres também integravam o manejo.

O novo estudo acrescenta evidência direta sobre o consumo desses recursos. Restos vegetais demonstram presença de cultivos. Os isótopos revelam a contribuição desses alimentos para a dieta humana.

Nas aldeias Aratu, grãos de amido de milho e possíveis vestígios de batata-doce já indicavam processamento de plantas cultivadas. Marcas de uso em recipientes cerâmicos também sugerem fermentação de bebidas. Os pesquisadores associam esses elementos a funções alimentares, sociais e possivelmente rituais.

Milho no Cerrado

O milho chegou ao Cerrado cerca de 3.700 anos calibrados antes do presente. Essa introdução ocorreu mais de dois milênios antes do surgimento das grandes aldeias Aratu. Por esse motivo, o estudo não vincula a formação dessas aldeias a uma expansão tardia do cultivo a partir dos Andes.

A interpretação favorece um processo local. As comunidades teriam acumulado conhecimento sobre solos, plantas e paisagens do Cerrado. Esse manejo preservou a diversidade de cultivos e combinou espécies domesticadas com recursos silvestres.

As aldeias Aratu reuniam de centenas a cerca de dois mil habitantes. O tamanho desses assentamentos exige revisão dos modelos baseados apenas em descrições históricas do século vinte. Esses relatos apresentavam os povos do centro-leste sul-americano como grupos móveis, com horticultura secundária e baixa densidade populacional.

Grandes aldeias

O registro arqueológico aponta outra dinâmica. Grandes aldeias, ocupação prolongada e consumo elevado de milho indicam produção organizada de alimentos. O sistema não reproduzia, porém, um monocultivo intensivo.

Os resultados aproximam o Cerrado de outras regiões tropicais da América do Sul com sociedades populosas e agricultura baseada no milho. Os pesquisadores ressaltam diferenças importantes. O Cerrado não apresenta a mesma escala de obras hidráulicas e alterações da paisagem identificada em áreas como Llanos de Mojos, na Bolívia.

A comparação vale pelo desenvolvimento paralelo de sistemas agrícolas em savanas tropicais. Em ambos os casos, o milho ocupou posição central dentro de estratégias mais amplas. A produção reunia vários cultivos, plantas silvestres e formas locais de manejo.

O estudo situa o policultivo com milho como uma estratégia duradoura no Cerrado pré-colonial. A descoberta amplia o conhecimento sobre a história agrícola do bioma e mostra uma relação antiga entre produção de alimentos, diversidade vegetal e organização de grandes comunidades.

A pesquisa foi realizada pelos cientistas Eliane Chim, Henry L. A. Fernandes, Sibeli A. Viana, Haruan Straioto, Elver Mayer, Sophia Huesges, Erin Scott, Diego T. Mendes, Danilo R. Zardo, Nicolás M. Stríkis, Gilmar Henriques, Rafael L. de Souza, Maria Ana Correia, Luana Caroline Nicolau, Erica de S. Rocha, Edward Koole, Julio C. Rodrigues, Talita Lima, Andersen Liryo, Andrei Isnardis, Lucas Bueno, Juvandi de S. Santos, Carlos Etchevarne, Marcia A. Alves, André Prous, Axel Steinhof, Francisco William da Cruz Júnior, Jana Ilgner, Ricardo Fernandes, Patrick Roberts e André Strauss.

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