Orvalho antecipa florescimento em plantas

Microgotas nas folhas geram óxido nítrico e reprimem síntese de ABA

26.02.2026 | 08:20 (UTC -3)
Revista Cultivar

Plantas da família Brassicaceae florescem mais cedo após eventos de orvalho. Microgotas nas folhas disparam reações químicas que elevam óxido nítrico e reduzem ácido abscísico. O processo antecipa a transição reprodutiva. A evidência combina ensaios moleculares em Arabidopsis thaliana e análise de 12.692.736 registros globais de floração. Os dados constam em trabalho de cientistas da Academia Chinesa de Ciências.

Pesquisadores observaram que o aumento de temperatura não explica sozinho a antecipação da floração. Plantas cultivadas em estufas não adiantaram o florescimento apenas com ajuste térmico. O grupo propôs um elo com a umidade atmosférica. Ar mais quente retém mais vapor. A condição favorece formação de orvalho mais cedo no ano.

O trabalho testou o efeito do orvalho em folhas de Arabidopsis thaliana. Microgotas se formam sobre tricomas. Nessas interfaces, a água gera espécies reativas de oxigênio. As reações produzem radicais hidroxila e peróxido de hidrogênio. O peróxido reage com grupos amina e forma óxido nítrico (NO). O NO migra para as células e ativa cascata redox.

Exposição ao orvalho

Após 24 horas de exposição ao orvalho, folhas apresentaram maior acúmulo de NO. A atividade da enzima óxido nítrico sintase não mudou. O resultado indica origem química extracelular do NO nas microgotas.

O NO promove S-nitrosilação da histona deacetilase HDA19 via GRXS17. A modificação aumenta a atividade deacetilase. O complexo reprime genes da biossíntese de ácido abscísico, como AAO3 e ABA2. Plantas tratadas com microgotas exibiram queda progressiva de ABA de cerca de 5-6 ng/g para menos de 2 ng/g entre 7 e 15 dias após o estágio de duas folhas. As plantas iniciaram alongamento do caule e floresceram cerca de uma semana após o tratamento. Plantas controle mantiveram fase vegetativa.

Mutantes com ponto de mutação em HDA19 que impede S-nitrosilação não reduziram ABA nem alteraram tempo de floração sob orvalho. O dado reforça o papel da modificação redox no controle do florescimento.

Em campo

Na escala de campo, os autores compilaram 138.580 observações georreferenciadas de 478 espécies em 81 gêneros de Brassicaceae, entre 1990 e 2023. O conjunto soma 12.692.736 eventos de floração. Modelos mistos indicaram o ponto de orvalho como preditor positivo mais relevante da frequência de floração. A contribuição do ponto de orvalho alcançou 0,118, com P = 1,18 x 10⁻⁷. A interação entre ponto de orvalho e visibilidade também mostrou efeito positivo. Precipitação, pressão ao nível do mar e visibilidade isolada exibiram associações negativas.

Metade dos eventos de floração ocorreu até uma semana após período com condensação de orvalho em análises regionais na Holanda. A associação persistiu após controle de fotoperíodo por latitude, longitude e dia do ano.

Os autores propõem que microgotas foliares atuam como modulador adicional do florescimento, ao lado de fotoperíodo e temperatura. O mecanismo pode alcançar outras plantas com folhas antes da floração. A hipótese sugere implicações para manejo. Produtores poderiam testar névoa foliar para induzir florescimento mais cedo ou ampliar produção, segundo os autores.

Outras informações em doi.org/10.1073/pnas.2527021123

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