Oferta global mais apertada favorece recuperação do algodão

Déficit mundial e menor safra dos EUA sustentam preços; Brasil amplia exportações e pode expandir área

17.09.2026 | 12:59 (UTC -3)
Revista Cultivar, a partir de informações do Itaú BBA

O mercado mundial de algodão entra na safra 2026/27 com oferta inferior ao consumo e redução dos estoques. O Itaú BBA estima produção global de 25,5 milhões de toneladas, diante de consumo de 26,8 milhões de toneladas. O déficit chega a cerca de 1,2 milhão de toneladas. Com isso, os estoques finais devem recuar de 16,4 milhões para 15,2 milhões de toneladas. O cenário aumenta a sensibilidade das cotações a perdas produtivas e ao comportamento da demanda.

O ajuste ganha importância fora da China. O país concentra parcela elevada dos estoques mundiais, porém essas reservas apresentam menor circulação no comércio internacional. Sem os volumes chineses, a disponibilidade entre exportadores e demais consumidores mostra menor folga. Perdas adicionais nos Estados Unidos, Índia ou outros grandes produtores podem ampliar esse aperto.

Situação nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, seca e deterioração das lavouras levaram o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos a reduzir a estimativa de produção. A projeção caiu de 2,96 milhões para 2,87 milhões de toneladas entre agosto e setembro. A produtividade média prevista recuou para 0,87 tonelada por hectare, ante 0,96 tonelada por hectare na temporada anterior.

Na semana encerrada em 13 de setembro, 36% das lavouras norte-americanas receberam classificação boa ou excelente. Um ano antes, a proporção alcançava 52%. No início do mês, cerca de 59% da área de algodão enfrentava algum grau de seca. O Texas concentrava a situação mais crítica.

A menor produção reduziu a estimativa de estoques finais dos Estados Unidos para 780 mil toneladas. O volume corresponde a cerca de 26% do uso total. As exportações permanecem projetadas em 2,7 milhões de toneladas. Segundo o Itaú BBA, essa menor folga limita a capacidade norte-americana de ampliar embarques e abre espaço para fornecedores concorrentes, com destaque para o Brasil.

China e Índia

A China também tende a colher menos algodão. O adido agrícola do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos projeta 7,1 milhões de toneladas em 2026/27, queda de 5,6% frente ao ciclo anterior. A estimativa oficial aponta 7,3 milhões de toneladas. A redução decorre da menor área em Xinjiang e de condições climáticas menos favoráveis. O consumo chinês deve permanecer próximo de 9 milhões de toneladas.

Esse déficit produtivo não implica aumento automático das importações chinesas. O país mantém estoques elevados e administra cotas de importação. As compras externas também dependem da diferença entre preços domésticos e internacionais e da rentabilidade da indústria têxtil.

A Índia adiciona outra fonte de incerteza. O desenvolvimento do El Niño e a irregularidade das monções elevam o risco produtivo. Grande parte do algodão indiano utiliza cultivo de sequeiro. Chuvas mal distribuídas podem reduzir a produtividade, diminuir a oferta exportável e ampliar a necessidade de importações para abastecimento da indústria local.

Situação no Brasil

No Brasil, a safra 2025/26 alcançou produção recorde próxima de 4,4 milhões de toneladas de pluma. O resultado ocorreu mesmo com redução da área cultivada. O levantamento do Rally da Safra aponta cerca de 2,07 milhões de hectares plantados, retração de 6,3%. Condições climáticas favoráveis, maior participação de áreas irrigadas e avanços de manejo sustentaram a produtividade.

Mato Grosso manteve a liderança nacional. A produtividade do algodão em caroço pode alcançar 337 arrobas por hectare. A produção estadual de pluma pode chegar a cerca de 3 milhões de toneladas. Na Bahia, a área irrigada passou a representar 44% do total. A produção de pluma foi estimada em aproximadamente 980 mil toneladas, alta de 23%, com produtividade próxima de 368 arrobas por hectare em caroço.

O avanço brasileiro também aparece nas exportações. O ano comercial 2025/26, entre agosto e julho, registrou embarques recordes de 3,4 milhões de toneladas. A China importou 1,5 milhão de toneladas de algodão no período. O Brasil forneceu 784 mil toneladas, equivalentes a 51% das compras chinesas.

A diversificação dos destinos ganhou força no início de 2026/27. Em agosto, o Brasil embarcou 106,3 mil toneladas de pluma, volume 37% superior ao registrado um ano antes. A Índia respondeu por 26% dos embarques no mês. Paquistão, Bangladesh, Vietnã e Turquia também ganharam participação. Essa distribuição reduz a dependência do mercado chinês.

Cotações e fertilizantes

A recuperação das cotações internacionais melhorou as perspectivas econômicas para a próxima safra. Em Nova York, a pluma acumulou valorização superior a 8% desde julho. A média passou de 77,5 para 84 centavos de dólar por libra na primeira metade de setembro. No mercado interno, os preços em Rondonópolis avançaram 6,4% entre o início de julho e a primeira quinzena de setembro, para R$ 4,04 por libra.

A alta da pluma também melhorou a relação de troca com fertilizantes. O movimento elevou o poder de compra do produtor diante de fosfato monoamônico, ureia e cloreto de potássio. No algodão de segunda safra em Mato Grosso, o Itaú BBA revisou a estimativa de margem agrícola para 2026/27. A projeção passou de 26% em abril para cerca de 38% em agosto.

Esse quadro aumenta a possibilidade de expansão da área brasileira em 2026/27. As estimativas preliminares admitem área superior ao recorde de 2,2 milhões de hectares registrado em 2024/25. Apesar disso, o Itaú BBA projeta produção de 4,2 milhões de toneladas, abaixo das 4,4 milhões de toneladas da temporada anterior. A projeção considera produtividade mais conservadora e riscos climáticos associados ao El Niño.

O relatório aponta influência do fenômeno pelo menos até abril de 2027, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos. Em Mato Grosso, o ritmo de plantio da soja e a competitividade do milho também podem afetar a janela destinada ao algodão de segunda safra. A expansão da oferta brasileira ainda pode pressionar o basis durante a colheita de 2027, mesmo com fundamentos internacionais mais ajustados.

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