Oferta de cacau cresce 63%, mas moagem ainda não reage

Recebimento de amêndoas avança no semestre, enquanto processamento segue abaixo dos níveis de 2023

13.07.2026 | 15:09 (UTC -3)
Eduardo Savanachi, edição Revista Cultivar

O recebimento de amêndoas de cacau pela indústria brasileira somou 95.108 toneladas no primeiro semestre de 2026, alta de 63,4% em relação ao mesmo período do ano passado e praticamente no mesmo nível registrado antes da crise de oferta, em 2023. Os dados foram compilados pelo SindiDados – Campos Consultores e divulgados pela Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).

O avanço foi impulsionado pelo segundo trimestre, quando o recebimento atingiu 66.503 toneladas, crescimento de 64,5% sobre igual período de 2025. Para a presidente-executiva da AIPC, Anna Paula Losi, os números sinalizam uma retomada da produção nacional, embora ainda seja necessário consolidar esse crescimento nos próximos ciclos.

Apesar da melhora na oferta de matéria-prima, a recuperação ainda não chegou à indústria. A moagem totalizou 101.426 toneladas no primeiro semestre, aumento de apenas 3,6% frente a 2025 e volume ainda 19,8% inferior ao registrado no mesmo período de 2023, antes da escassez de cacau.

Segundo a AIPC, a diferença entre o crescimento do recebimento de amêndoas e da moagem mostra que a maior disponibilidade de cacau ainda não se converteu em recuperação da demanda por derivados. "Produzir mais cacau é apenas o primeiro passo. O fortalecimento da cadeia ocorre quando essa produção é transformada em produtos de maior valor agregado", afirma Anna Paula Losi.

Comércio externo

A maior oferta nacional também reduziu a necessidade de importações. O Brasil importou 18,1 mil toneladas de amêndoas no primeiro semestre, queda de 57,1% em relação ao mesmo período de 2025. Entre abril e junho, pela primeira vez em quatro anos, não houve necessidade de importar cacau em amêndoas. A entidade ressalta, porém, que o resultado reflete tanto a melhora da produção quanto um ritmo mais moderado da demanda por derivados, não significando autossuficiência do país.

Nas exportações de derivados de cacau, o desempenho permaneceu abaixo do esperado. Os embarques somaram 26.739 toneladas no semestre, retração de 7% frente ao mesmo período do ano passado. A Argentina foi o principal destino, com 45% do volume exportado, seguida por Estados Unidos (19%) e Chile (9%).

Regionalmente, a Bahia manteve a liderança no fornecimento de cacau à indústria, respondendo por 56,8% do recebimento nacional. O Pará ampliou sua participação para 38,8%, consolidando o crescimento da produção na região Norte.

Mercado internacional

No cenário internacional, a consultoria StoneX avalia que a recomposição da oferta global tem pressionado os preços, mas as perspectivas para a safra 2026/27 seguem cercadas por incertezas climáticas. A possibilidade de um episódio de El Niño mantém um prêmio de risco nas cotações, especialmente devido aos potenciais impactos sobre a produção na África Ocidental.

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