Mercado de sementes de soja entra em novo ciclo no Brasil

Rabobank projeta expansão até 2040, com consolidação regional, pressão financeira e maior disputa tecnológica

28.05.2026 | 15:21 (UTC -3)
Revista Cultivar, a partir de informações do Rabobank

O mercado brasileiro de sementes de soja deve continuar crescendo nos próximos anos, mas em ritmo menor e sob pressão de estoques elevados, margens apertadas e maior disputa entre empresas. Estudo do RaboResearch estima um mercado total endereçável de cerca de 24,5 bilhões de reais ao fim da safra 2024/25. O valor pode alcançar 37 bilhões de reais até 2040, com crescimento anual composto de 2,8%.

A análise aponta uma mudança de ciclo no setor. O crescimento da área plantada com soja sustentou a expansão do mercado de sementes nas últimas décadas. Entre 2000 e 2025, a área dedicada à oleaginosa no Brasil avançou com taxa composta anual de 5,1%. Para os próximos anos, o RaboResearch projeta ritmo menor, próximo de 1,5% ao ano, diante da crise nas margens dos produtores.

Custo com sementes

O custo com sementes também deve subir. O estudo prevê maior incorporação de tecnologia nas sementes usadas pelo produtor brasileiro. Com isso, o custo por hectare deve avançar pelo menos 20% até 2040. A participação das sementes nos custos operacionais tende a superar a média histórica de 11%.

O levantamento atribui parte do crescimento da produção brasileira de soja ao melhoramento das sementes. A produção nacional saiu de 32 milhões de toneladas na safra 1999/00 para pouco mais de 170 milhões de toneladas em 2024/25. O avanço acumulado chegou a 430% em 25 anos. Além da expansão de área, o estudo cita plantio direto, manejo do solo, adubação, controle de pragas e doenças e melhoramento genético como fatores de aumento da produtividade.

Destaque na produtividade

O Brasil também ganhou destaque na produtividade. Entre 2006 e 2025, a produtividade da soja brasileira cresceu com taxa composta anual de 2,04%. Nos Estados Unidos, o avanço ficou em 1,07% no mesmo período. Segundo o estudo, variedades mais adaptadas às regiões brasileiras permitiram melhor expressão do potencial genético das sementes.

Apesar desse histórico, o setor enfrenta excesso de oferta. O documento aponta dois fatores principais. O primeiro envolve a maior produção de sementes e a entrada de novos participantes entre 2020 e 2023, período marcado por margens elevadas. O segundo envolve a mudança na demanda. Muitos produtores passaram a procurar sementes de menor custo, enquanto o mercado havia se preparado para vender materiais de maior qualidade e preço mais alto.

Cadeia de sementes

A cadeia de sementes de soja no Brasil segue fragmentada. Segundo dados do Registro Nacional de Produção de Sementes citados no estudo, o país possui mais de 900 registros para produção de sementes de soja e 535 registros de beneficiamento. O elo de replicação reúne a maior quantidade de participantes, por apresentar menor barreira de entrada. Germoplasma e biotecnologia permanecem mais concentrados.

A estrutura inclui empresas de germoplasma, responsáveis pela genética base; empresas de biotecnologia, responsáveis pelos eventos transgênicos; replicadores; cooperados; beneficiadores; sementeiros; e varejo. Os sementeiros operam com marca própria e podem produzir, beneficiar e vender sementes. Também podem contratar cooperados e beneficiadores para completar a operação.

A comparação com os Estados Unidos mostra um mercado brasileiro em fase inicial de consolidação. Nos Estados Unidos, a empresa líder detém perto de 30% do mercado de sementes. As quatro maiores respondem por cerca de 65%. No Brasil, a maior empresa de replicação e venda de sementes ocupa menos de 10% do mercado.

O estudo avalia, porém, que a consolidação brasileira não deve seguir um modelo nacional imediato. Entrevistas com agentes do setor indicaram maior chance de consolidação regional em uma primeira fase. Empresas eficientes tendem a ganhar espaço em seus polos de atuação. Uma segunda fase poderia envolver a formação de grupos nacionais maiores.

O conhecimento regional aparece como fator decisivo. O estudo cita a escolha de variedades, as preferências dos produtores, o relacionamento comercial e as diferenças entre mercados consumidores locais. A estratégia de crescimento também muda por região. O Mato Grosso aparece com perfil mais agressivo entre sementeiros, em contraste com Bahia e Goiás.

A rentabilidade explica parte da entrada de produtores na atividade. Para cooperados, o custo de produção da soja semente se aproxima do custo da soja grão. A diferença envolve cuidados adicionais para reduzir danos aos grãos e descarte. O prêmio pago aos cooperados costuma ficar em torno de 10% sobre o preço de mercado da soja.

Nas sementeiras, a barreira de entrada sobe. A atividade exige capital de giro, tecnologia, infraestrutura e análise de viabilidade. O estudo aponta os royalties como principal custo na produção de sementes de soja, com quase 50% do total. A compra de soja de cooperados responde por 26%. O processamento industrial representa 16%. Juntos, esses itens somam 90% dos custos.

Margens históricas

As margens históricas das sementeiras ficam entre 20% e 25%, segundo o RaboResearch. Esse patamar, somado à busca por diversificação, atraiu novos entrantes. O movimento ampliou a fragmentação e elevou a oferta de sementes no mercado.

O relatório também identifica um dilema entre escala e qualidade. Empresas focadas em qualidade podem precisar ampliar portfólio ao crescer. Sementeiras maiores nem sempre conseguem entregar apenas sementes do maior nível de qualidade. Empresas focadas em menor preço dependem de escala e eficiência, mas podem precisar investir em qualidade em regiões com maior exigência.

Germoplasma e biotecnologia

Germoplasma e biotecnologia também podem passar por mudanças. O estudo aponta o uso de inteligência artificial e edição gênica como fatores capazes de reduzir tempo e custos de desenvolvimento. Esse movimento pode diminuir barreiras de entrada no médio e longo prazo. A edição gênica, no entanto, ainda demanda debate, segundo o documento.

O setor também enfrenta desafios de curto prazo. A gestão de crédito ganhou relevância. O mercado de sementes operava de forma prioritária à vista. A pressão financeira dos produtores passou a empurrar parte das sementeiras para vendas a prazo. Esse movimento cria novos riscos para empresas sem estrutura de crédito consolidada.

A pirataria de sementes segue como problema relevante. O estudo cita dados da CropLife Brasil, segundo os quais 11% do mercado nacional de soja corresponde a sementes piratas.

As mudanças climáticas completam a lista de pontos críticos. As empresas devem adaptar variedades a ambientes mais quentes e secos, sem reduzir a produtividade esperada pelo produtor. O relatório informa que já existem variedades mais resistentes a estresses abióticos causados por falta de chuva e altas temperaturas.

Compartilhar

Newsletter Cultivar

Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura

acessar grupo whatsapp