Menor dependência chinesa desafia futuro da soja brasileira

Genética, edição gênica e agregação de valor ganham espaço diante das mudanças no mercado global

27.08.2026 | 14:18 (UTC -3)
Vera Barão

A estratégia da China de reduzir em 25% a dependência das importações de soja até 2030 coloca um novo desafio para o Brasil e reforça a necessidade de investir em genética, biotecnologia e agregação de valor à produção. O movimento foi discutido durante o XXIII Congresso Brasileiro de Sementes (CBSementes), em Foz do Iguaçu (PR), e ganha relevância para o país, que atualmente destina cerca de 80% das exportações de soja para o mercado chinês.

A redução da dependência das compras externas faz parte do plano quinquenal chinês que envolve investimentos em produção, genética e biotecnologia. Embora seja um processo gradual, a mudança de cenário exige que o setor brasileiro antecipe movimentos e busque alternativas para manter a competitividade da soja.

Nesse contexto, a tecnologia ganha importância ainda maior. Durante o Congresso, o pesquisador Alexandre Nepomuceno, da Embrapa Soja, destacou a dimensão que a biotecnologia já alcançou na cultura. Dados da Embrapa mostram que, entre as cultivares de soja registradas no Brasil de 2013 a 2024, 93,8% eram transgênicas, com forte presença de tecnologias voltadas à tolerância a insetos, especialmente as plataformas Bt.

Esse processo é resultado de décadas de pesquisa. A Embrapa Soja iniciou ainda nos anos 1990 trabalhos de incorporação da biotecnologia ao melhoramento genético e, desde 1997, desenvolve pesquisas com soja transgênica em parceria com empresas privadas.

A transgenia, entretanto, já é uma tecnologia consolidada. “O avanço agora ocorre em direção a ferramentas mais precisas, como a edição gênica, que amplia as possibilidades de desenvolver características específicas nas plantas”, afirma Nepomuceno.

A evolução foi destacada por Othon Abrahão, da DBN Biotech, que apresentou a combinação entre edição gênica, inteligência artificial e conhecimento genético como uma das frentes da nova geração da biotecnologia. As ferramentas podem contribuir para o desenvolvimento de plantas mais resistentes a insetos e doenças e mais adaptadas aos diferentes desafios da produção.

“Se a transgenia consolidou uma etapa importante da agricultura ao permitir a introdução de características específicas nas plantas, a edição gênica amplia a capacidade de atuar de maneira mais direcionada sobre o próprio material genético”, afirma Abrahão.

Para o Brasil, a possibilidade de uma mudança no perfil da demanda chinesa reforça a importância de agregar valor à soja, em vez de depender exclusivamente do aumento do volume produzido. Uma das oportunidades está no desenvolvimento de características destinadas a usos industriais. A soja, assim como o milho, pode desempenhar papel relevante na transição energética, abrindo espaço para materiais voltados a novas aplicações.

Ao mesmo tempo em que a China busca ampliar sua autonomia na produção de soja, empresas chinesas de biotecnologia estão chegando ao mercado brasileiro. A movimentação foi avaliada de forma positiva pela diretora da CropLife e moderadora do painel, Catharina Pires, por representar a entrada de novos investimentos, tecnologias e alternativas para o agricultor.

“Essa chegada de empresas para cá nós vemos com bons olhos. No fim do dia, estamos falando de mais tecnologia e mais alternativas para o agricultor brasileiro”, afirmou Catharina, destacando ainda que o movimento é consequência da segurança jurídica e da atratividade do mercado brasileiro.

Para o setor, a maior concorrência pode acelerar investimentos em pesquisa e desenvolvimento e estimular a criação de tecnologias voltadas às necessidades específicas da agricultura brasileira.

Enquanto a China trabalha para reduzir sua dependência da soja importada, empresas chinesas aumentam sua participação no desenvolvimento de tecnologias dentro do Brasil. Para a cadeia produtiva, esse processo não representa necessariamente uma ameaça à posição da soja brasileira, mas exige adaptação.

A resposta pode estar justamente na inovação. Edição gênica, inteligência artificial, melhoramento genético e novas características industriais podem ajudar o Brasil a diversificar mercados e aumentar o valor da produção, mantendo a soja como uma das principais forças do agronegócio nacional.

Germoplasma e marcos regulatórios

A modernização dos marcos regulatórios e o fortalecimento da proteção do germoplasma são fundamentais para estimular investimentos em novas tecnologias e levar inovação ao produtor rural. A avaliação foi apresentada por Fernando Michel Wagner, gerente executivo de Negócios Institucionais da GDM, durante CBSementes, em Foz do Iguaçu (PR).

Segundo Wagner, o germoplasma — conjunto de materiais genéticos utilizado no desenvolvimento de novas cultivares — é a base sobre a qual a biotecnologia é aplicada. Ele compara a semente a um “cavalo”, que carrega todo o potencial genético que poderá receber e expressar diferentes tecnologias.

Durante a palestra, o executivo chamou atenção para as fragilidades existentes no Brasil na proteção do germoplasma e para os impactos que isso pode provocar sobre os investimentos no setor. Na avaliação de Wagner, um ambiente regulatório mais seguro é necessário para estimular a entrada de novas empresas, tecnologias e técnicas de melhoramento genético, incluindo ferramentas como a edição gênica.

O especialista também apresentou o cenário de outros países produtores de soja e destacou os avanços registrados na Argentina, que vem tratando a proteção do germoplasma como uma estratégia para fortalecer o agronegócio e ampliar sua competitividade.

No Brasil, a discussão ocorre paralelamente ao debate sobre a modernização da legislação de proteção de cultivares. “Acompanhar o movimento internacional é essencial para que o país ofereça segurança às empresas e consiga atrair investimentos capazes de gerar inovação e valor para o agricultor”, ponderou.

“Temos que olhar para dentro de casa, mas também entender que o ecossistema global está buscando oferecer mais segurança para que as empresas se sintam atraídas e possam trazer aquilo que vai gerar valor na ponta para o agricultor”, afirmou.

Na avaliação do executivo, o fortalecimento da proteção do germoplasma pode ser favorável a toda a cadeia de sementes, ampliando as opções disponíveis ao produtor e permitindo que os ganhos da inovação sejam distribuídos ao longo da cadeia.

“Temos que cuidar desse germoplasma, desse cavalo, para que possamos levar todo esse conjunto tecnológico nesse chip que é a semente”, resumiu Wagner.

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