El Niño traz desafios para a safra de verão 2026/27 em SC

Epagri/Cepa prevê chuvas acima da média, atraso no plantio e maior pressão de doenças nas lavouras

29.09.2026 | 16:18 (UTC -3)
Observatório Agro Catarinense, edição Revista Cultivar

As estimativas da safra catarinense de verão 2026/27 foram divulgadas hoje (29/9) pelo Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola da Epagri (Epagri/Cepa) e apontam para um ciclo marcado por impactos do El Niño. Segundo as projeções, as condições climáticas e o excesso de umidade devem atrasar o plantio, favorecer doenças e reduzir as janelas para manejo e colheita, com efeitos sobre as produtividades. 

Para o analista de Socioeconomia e Desenvolvimento Rural da Epagri/Cepa, Henrique Oldoni, o cenário exige planejamento da safra, “o que envolve a escolha da cultura, da cultivar, do nível tecnológico e das datas de plantio e tratos culturais, além de atenção redobrada às práticas de conservação do solo para reduzir perdas e prejuízos”. 

A meteorologista Marilene de Lima explica que o El Ninõ já está configurado e tem previsão de atingir a intensidade muito forte no decorrer da primavera e começo do verão. Com isso, Santa Catarina deve registrar chuvas acima da média, com totais que podem chegar a três vezes o esperado em outubro e novembro. 

“É importante que os produtores rurais acompanhem as previsões divulgadas pelos órgãos oficiais, especialmente durante os períodos de maior influência dos fenômenos climáticos sobre as atividades agrícolas”, ressalta Marilene.

Confira abaixo os dados agropecuários das estimativas para a safra de verão 2026/27 em Santa Catarina, envolvendo arroz, soja, milho grão, milho silagem, feijão, maçã, banana e tabaco. As análises foram produzidas pelos analistas de Socioeconomia e Desenvolvimento Rural da Epagri/Cepa.

Arroz

Na safra de arroz, a área plantada em Santa Catarina deve permanecer praticamente estável, estimada em 143.396 hectares, alta de 0,01% em relação à temporada anterior. A produtividade média estadual é projetada em 8.501 kg/ha, redução de 5,8%, enquanto a produção deve alcançar 1,22 milhão de toneladas, também com queda estimada de 5,8%. As principais regiões produtoras são Araranguá, com 501,97 mil toneladas, seguida por Criciúma (185,23 mil t), Joinville (143,61 mil t), Tubarão (122,52 mil t) e Rio do Sul (103,59 mil t). Araranguá concentra 40,8% da área cultivada, seguida por Criciúma (15,3%), Joinville (12,1%), Tubarão (11%) e Rio do Sul (7%).

No mercado, o preço médio parcial do arroz em setembro em Santa Catarina está em R$ 70,18 por saca de 50 kg, valor 7,85% superior ao registrado em agosto. A evolução da safra e dos preços será acompanhada ao longo do ciclo, considerando as condições climáticas e o andamento do calendário agrícola.

Feijão 1ª Safra

Para a primeira safra de feijão 2026/27, a área cultivada em Santa Catarina deve somar aproximadamente 22 mil hectares, redução de quase 18% em relação ao ciclo anterior. Apesar da menor intenção de plantio, a produtividade média é estimada em 2.078 kg/ha, avanço superior a 6% na comparação anual. Com a redução da área, a produção estadual está inicialmente projetada em 45 mil toneladas, volume 13% inferior ao registrado na safra 2025/26.

As principais regiões produtoras concentram parcela significativa da área cultivada. Canoinhas responde por 26,7%, seguida por Xanxerê, com 18,8%, e Campos de Lages, com 14,6%. A redução da área plantada é, neste momento, o principal fator para a projeção de queda na produção estadual, enquanto a expectativa de maior produtividade contribui para amenizar parte dessa redução.

Milho grão (1ª safra)

Para a primeira safra de milho grão 2026/27, Santa Catarina deve ampliar a área plantada em 2,5%, alcançando 272.194 hectares, 6,66 mil hectares a mais que no ciclo anterior. A produtividade média é estimada em 9.517 kg/ha, recuo de 0,8%, enquanto a produção deve chegar a 2,59 milhões de toneladas, alta de 1,7%. O aumento da área cultivada contribui com o aumento da produção e  compensa a leve redução esperada no rendimento, em um cenário de incertezas climáticas associado à previsão de El Niño forte. A Microrregião de Joaçaba concentra a maior parcela da área, com 18,8%, seguida por Chapecó (14,9%) e Xanxerê (9,6%).

O calendário agrícola indica antecipação do plantio do milho em Santa Catarina, com 45% da área destinada ao cultivo já plantada no estado, especialmente nas Microrregiões de Chapecó e Xanxerê. Os produtores aproveitaram as breves janelas de tempo firme registradas na segunda metade de agosto e no início de setembro para avançar com a semeadura. 

Milho silagem

Na safra de milho silagem 2026/27, Santa Catarina deve ampliar em 1,5% a área destinada ao cultivo, alcançando 212.016 hectares, cerca de 3,2 mil hectares a mais que na safra anterior. A produtividade média é estimada em 46.972 kg/ha de silagem, redução de 1%, enquanto a produção estadual deve chegar a 9,96 milhões de toneladas, alta de 0,5%. O aumento da área plantada está associado, em parte, à maior demanda por milho silagem entre os produtores de leite e à expectativa de menor impacto de um eventual El Niño sobre a cultura em comparação à soja.

A Microrregião de Chapecó concentra a maior parcela da área prevista para o milho silagem, com 21,3%, seguida por São Miguel do Oeste, com 19%, e Concórdia, com 12,8%. Mesmo com a expectativa de redução da produtividade, o avanço da área cultivada deve resultar em um leve crescimento da produção estadual. No estado, 61% da área destinada ao milho silagem já está plantada, o que representa uma antecipação do plantio dos produtores. 

Soja (1ª safra)

Na primeira safra de soja 2026/27, Santa Catarina deve registrar uma área plantada de 756.403 hectares, redução de 0,3%, ou cerca de 2,6 mil hectares a menos que na safra anterior. A produtividade média, por outro lado, é estimada em 3.941 kg/ha, crescimento de 2,4%. Com isso, a produção estadual deve alcançar 2,98 milhões de toneladas, aumento de 2,1%, equivalente a 60,4 mil toneladas a mais que no ciclo anterior. A leve redução da área está relacionada à preocupação dos produtores com os riscos climáticos diante das previsões de ocorrência do fenômeno El Niño.

A Microrregião de Canoinhas concentra a maior parcela da área prevista para o cultivo de soja, com 22%, seguida por Xanxerê, com 17,4%, e Curitibanos, com 17,2%. Mesmo com a pequena retração da área plantada, a expectativa de aumento da produtividade deve contribuir para o crescimento da produção estadual na safra 2026/27.

Banana

Para a safra 2026/27, Santa Catarina estima 29.384 hectares de área colhida de banana, aumento de 0,7% em relação à safra anterior. A produtividade média deve crescer 0,4%, passando de 26.411 para 26.503 kg/ha, com destaque para as microrregiões de São Bento do Sul (32.441 kg/ha), Blumenau (30.797 kg/ha) e Itajaí (30.472 kg/ha).

A produção estadual está estimada em 778.778 toneladas, alta de 1,1% frente às 770.648 toneladas da safra 2025/26. Joinville concentra a maior parcela da produção, com 365.044 toneladas, seguida por Blumenau (159.712 t), Itajaí (121.280 t) e Araranguá (92.999 t). A microrregião de Joinville também lidera em área colhida, com 12.445 hectares, equivalente a 42,4% do total estadual. As estimativas não consideram possíveis efeitos adversos decorrentes de condições climáticas e meteorológicas.

Maçã

Para a safra 2026/27, Santa Catarina estima estabilidade na área colhida de maçã, que deve permanecer em 17.065 hectares. Os Campos de Lages concentram a maior parte da área cultivada, com 13.587 hectares, equivalentes a 79,6% do total estadual, seguidos por Joaçaba (15,0%) e Curitibanos (5,4%). A produtividade média estadual deve crescer 5,5%, passando de 39.809 para 42.008 kg/ha, com destaque para a microrregião de Joaçaba, que apresenta expectativa de aumento de 30,1%.

A produção catarinense de maçã está estimada em 716.872 toneladas, alta de 5,5% em relação às 679.334 toneladas da safra 2025/26. Os Campos de Lages respondem pela maior parcela, com 590.029 toneladas, seguidos por Joaçaba, com 91.389 toneladas, e Curitibanos, com 35.454 toneladas. A estimativa considera as condições atuais e não contempla possíveis efeitos adversos provocados por condições climáticas e meteorológicas.

Tabaco

As perspectivas para a safra de tabaco 2026/27 exigem cautela, com a área plantada estimada em 97.437 hectares, redução de 1,33% em relação ao ciclo anterior. Em muitas regiões, a área deve permanecer próxima à da safra passada, enquanto a instabilidade em outras atividades agropecuárias contribui para manter o interesse pela cultura. Também há registro de antecipação do plantio em algumas regiões, aumentando a exposição das lavouras a geadas, frio intenso, excesso de umidade e dificuldades no desenvolvimento inicial.

A produtividade média estadual é estimada em 2.414 kg/ha, avanço de 3,83%, enquanto a produção deve alcançar 235.202 toneladas, crescimento de 2,46%. Os resultados, contudo, ainda dependem das condições climáticas ao longo do ciclo. Canoinhas concentra 40,57% da área estimada, seguida por Ituporanga (15,07%) e Rio do Sul (14,42%). A estimativa de área plantada será atualizada em novembro, quando a Afubra divulgar os dados da safra.

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