El Niño eleva risco para o mercado global de café em 2026

Cresce a chance do fenômeno se formar ao longo do ano e trazer impactos para a produção global da commodity

30.04.2026 | 17:23 (UTC -3)
Milena Feitosa Camargo

Potenciais impactos sobre as commodities agrícolas entram no radar com o aumento das chances de formação de um El Niño nos próximos meses. De acordo com a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, agência dos Estados Unidos responsável pelo monitoramento climático), há cerca de 60% de probabilidade do fenômeno entre maio e julho. Modelos do IRI (International Research Institute for Climate and Society, centro de pesquisa ligado à Universidade de Columbia) indicam probabilidade semelhante no curto prazo e apontam para a continuidade do evento até o final de 2026 e início de 2027.

Os modelos não indicam aumento da temperatura global, mas apontam para temperaturas mais elevadas no Oceano Pacífico, o que sugere a ocorrência de um evento de maior intensidade. Esse padrão pode elevar as temperaturas em diferentes regiões produtoras e ampliar os riscos para a agricultura. Para o café, há um desafio potencial para o desenvolvimento da safra 26/27 na América Central e do Sul, Sudeste Asiático e África Oriental.

No Brasil, a tendência é de menor risco de geadas durante o inverno, mas, por outro lado, aumentam as preocupações com a safra 27/28, diante de temperaturas mais altas durante a floração e o enchimento dos grãos, além de possíveis alterações no regime de chuvas. Caso o fenômeno se estenda até meados de 2027, os impactos podem alcançar também outras origens produtoras.

Projeções do El Niño em 2026

Os mercados de commodities agrícolas podem enfrentar novos desafios este ano com o surgimento de um evento El Niño, caracterizado por temperaturas da superfície do mar acima da média no Oceano Pacífico. As projeções indicam que o fenômeno pode já estar em vigor durante o primeiro semestre de 2026, com probabilidade de intensificação ao longo do segundo semestre.

“As commodities agrícolas poderão enfrentar riscos climáticos mais elevados”, afirma Laleska Moda, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets.

Analisando as previsões de anomalias da temperatura da superfície do mar (SST) para a região Niño 3.4, as médias dos modelos sugerem um aumento acentuado das temperaturas no final do ano, podendo ultrapassar 1,5°C entre outubro e novembro de 2026, o que indicaria um evento mais forte do que o inicialmente previsto. Para confirmação oficial, as temperaturas devem permanecer acima de +0,5°C por períodos consecutivos.

Diretrizes recentes apontam probabilidades semelhantes entre cenários de El Niño moderado, forte e muito forte a partir do final de 2026.

Impactos do El Niño para o Café

Um El Niño ativo que persista até o início de 2027 pode trazer temperaturas recordes, além de secas ou inundações em diversas regiões, aumentando os riscos para a produção agrícola. No caso do café, isso pode representar um desafio relevante para o desenvolvimento da safra 26/27 em áreas produtoras importantes.

“No caso do café, isso poderia representar um desafio potencial para o desenvolvimento da safra 26/27 em áreas produtoras importantes, como a América Central e do Sul, o Sudeste Asiático e a África Oriental”, afirma Laleska Moda. “Períodos prolongados de calor também podem prejudicar o desenvolvimento da planta”, completa.

Na América Central, o El Niño normalmente leva a temperaturas médias mais altas e precipitação abaixo da média, especialmente durante julho e agosto, quando os frutos do café ainda estarão se desenvolvendo para a safra 26/27. O fenômeno pode afetar principalmente Guatemala, Honduras e El Salvador.

Durante o segundo semestre, o El Niño também pode provocar temperaturas mais altas e perturbações nos padrões de precipitação na Colômbia, impactando potencialmente a safra principal de 26/27, enquanto um evento mais forte ou prolongado até o início de 2027 pode prejudicar a safra intermediária (mitaca).

Na África Oriental, o fenômeno tende a aumentar as temperaturas, mas com efeitos variados sobre as chuvas. Na Etiópia, pode reduzir as precipitações entre junho e setembro e, posteriormente, provocar excesso de chuvas, prejudicando a colheita. Em Uganda, é frequentemente associado a chuvas acima da média, elevando o risco de inundações e deslizamentos.

O El Niño também pode causar condições mais secas e quentes no Sudeste Asiático e na Índia, aumentando o risco de ondas de calor. A Índia pode enfrentar uma estação de monções mais fraca e quente, enquanto na Indonésia e no Vietnã os impactos tendem a se concentrar no desenvolvimento das safras futuras, especialmente se o fenômeno se estender até 2027.

No Brasil, um El Niño ativo pode inicialmente reduzir os riscos de geadas durante o inverno de 2026, mas também pode representar desafios no final do ano, durante o desenvolvimento da safra 27/28.

Embora o fenômeno tenha menor correlação direta com os padrões de chuva nas principais regiões cafeeiras do país, ele pode atrasar o início das chuvas de primavera e afetar negativamente o ciclo produtivo.

Apesar da expectativa de uma safra brasileira recorde em 2026/27, que tende a pressionar os preços no curto prazo, o cenário climático pode limitar movimentos mais acentuados de queda. “Os possíveis impactos do El Niño poderiam limitar correções mais profundas do mercado no final do ano”, afirma Laleska Moda.

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