Citricultura inicia safra 2026/27 com margens pressionadas

Preços menores, greening e custos elevados aumentam a seletividade econômica no setor

07.08.2026 | 16:43 (UTC -3)
Revista Cultivar, a partir de informações do Itaú BBA

A citricultura brasileira entra na safra 2026/27 diante de um cenário de menor oferta, mas sem espaço para uma recuperação significativa dos preços. A combinação entre bienalidade negativa, condições climáticas desfavoráveis, estoques industriais mais elevados e demanda internacional menos aquecida deve manter as cotações da laranja em patamares mais baixos, ao mesmo tempo em que produtores enfrentam aumento dos custos de produção.

Segundo análise do Itaú BBA, a safra brasileira de laranja 2026/27 foi estimada pelo Fundecitrus em cerca de 255 milhões de caixas no cinturão citrícola de São Paulo e no Triângulo/Sudoeste Mineiro. O volume representa queda em relação às 295 milhões de caixas da safra 2025/26 e permanece abaixo das aproximadamente 300 milhões de caixas consideradas pelo mercado como um volume adequado.

A redução ocorre principalmente em função da bienalidade negativa, após uma safra positiva em 2025/26. O cenário também foi agravado pelo clima, marcado por chuvas irregulares, temperaturas elevadas em momentos importantes do ciclo e episódios de ventos fortes. Esses fatores prejudicaram a florada, o pegamento e o desenvolvimento inicial dos frutos.

Com isso, a produtividade média estimada recuou 14%, para 697 caixas por hectare.

Exportações avançam pouco

Apesar do aumento da produção na safra 2025/26, as exportações brasileiras de suco de laranja tiveram crescimento limitado. Como cerca de 95% do suco produzido no país é destinado ao mercado externo, o comportamento da demanda internacional tem forte influência sobre o mercado interno.

Os embarques cresceram 3,7% na temporada, alcançando 805 mil toneladas em equivalente FCOJ (suco de laranja concentrado e congelado), com receita de US$ 2,54 bilhões. O resultado ficou distante do crescimento de 27% registrado na produção na comparação com a safra anterior.

A principal pressão veio da União Europeia. Os embarques brasileiros para o bloco somaram 369 mil toneladas, queda de 5,8% em relação à temporada 2024/25.

Nos Estados Unidos, por outro lado, as importações de suco brasileiro aumentaram diante da persistente escassez de laranja na Flórida. O estado, responsável por mais de 90% da produção de suco norte-americana, permanece em patamar historicamente baixo, próximo de 13 milhões de caixas. Greening, furacões recorrentes e redução da área cultivada diminuíram estruturalmente a oferta local e ampliaram a dependência dos Estados Unidos em relação ao produto brasileiro.

Estoques reduzem pressão sobre os preços

A combinação de uma safra maior em 2025/26 com exportações abaixo do esperado levou à recomposição dos estoques industriais. O aumento da disponibilidade de fruta, sem crescimento equivalente da demanda externa, elevou os estoques de meio de safra, especialmente de FCOJ.

Esse movimento ajudou a reduzir a urgência de compra de fruta no início da nova temporada. Assim, mesmo diante da estimativa de uma safra menor em 2026/27, o mercado não apresentou uma reação imediata de alta após a divulgação dos números do Fundecitrus.

A percepção entre os agentes do setor é de que os estoques de passagem devem permanecer relativamente confortáveis, funcionando como um colchão de oferta e reduzindo a sensação de escassez no início do ciclo.

Laranja e suco acumulam queda nas cotações

Com estoques maiores e demanda internacional menos intensa, os preços recuaram ao longo do ciclo. Após alcançarem níveis historicamente elevados em 2024, as cotações passaram por forte correção em 2025 e 2026.

A laranja posta na indústria acumulou queda de 30% em um ano, chegando a R$ 30,57 por caixa no mercado spot em 3 de agosto, segundo dados do Cepea. No mesmo período, o suco de laranja negociado na Bolsa de Nova York caiu 40%, para US$ 154,95 por libra-peso.

Para a safra 2026/27, a expectativa é de manutenção dos preços em níveis mais baixos, especialmente para produtores mais expostos ao mercado spot. Já aqueles que possuem contratos de longo prazo com a indústria apresentam maior proteção, com parte dos acordos ainda tendo referências próximas de R$ 50 por caixa.

O recuo das cotações da matéria-prima, contudo, ainda não chegou integralmente ao consumidor. Nos Estados Unidos, o preço do suco de laranja no varejo permanece em níveis historicamente elevados. Em junho, o suco concentrado e congelado foi cotado a US$ 4,87 por lata, o terceiro maior valor nominal desde 2000.

O descolamento entre os preços da matéria-prima e os praticados no varejo contribuiu para a retração do consumo. Nas 52 semanas encerradas em 11 de julho de 2026, as vendas de suco de laranja nos Estados Unidos somaram 274,7 milhões de galões, queda de 8,3%.

O recuo foi mais intenso nos produtos associados ao FCOJ. As vendas de suco reconstituído caíram 12,1% em volume, enquanto as de concentrado congelado recuaram 15,2%. No NFC, a queda foi menor, de 5,2%.

NFC ganha espaço nas exportações

A mudança no perfil de consumo também vem influenciando a indústria brasileira. O NFC, ou suco não concentrado, respondeu por 43% dos embarques brasileiros em equivalente FCOJ na safra 2025/26, com 346 mil toneladas. Há uma década, a participação era de aproximadamente 20%.

Apesar do avanço, o produto apresenta desafios operacionais. O NFC exige frutas de melhor padrão, cuidados adicionais no processamento e uma estrutura logística mais complexa, devido ao maior volume ocupado durante o transporte e à necessidade de armazenamento e distribuição.

No início da safra 2026/27, a oferta de NFC foi prejudicada pelos menores índices de ratio das frutas. As chuvas acima da média entre maio e julho no cinturão citrícola retardaram a maturação e o desenvolvimento dos parâmetros de qualidade exigidos pela indústria.

Custos pressionam margens

Além dos preços mais baixos, o produtor enfrenta uma estrutura de custos mais pesada. A intensificação das pulverizações para controle do greening, somada ao aumento dos preços de fertilizantes e diesel, eleva as despesas de produção.

O problema é agravado pelo fato de que boa parte desses custos não acompanha proporcionalmente a produtividade do pomar. Mesmo com menor produção por hectare, gastos com manejo, tratos culturais, defensivos, mão de obra e operações continuam necessários para manter a área produtiva.

Nesse cenário, produtores mais tecnificados, capitalizados e com pomares irrigados tendem a apresentar maior capacidade de preservar margens.

A relação de troca com fertilizantes também se deteriorou em 2026. Os níveis observados para ureia e MAP estão entre os piores dos últimos cinco anos e só ficam acima, em termos de pressão, dos registrados em 2022, quando a guerra entre Rússia e Ucrânia provocou forte alta nos preços internacionais dos fertilizantes.

Com a perda de valor da laranja, o poder de compra do produtor em relação aos insumos voltou a diminuir. Segundo o Itaú BBA, o cenário pode levar parte dos produtores a realizar adubações abaixo do nível considerado ideal, com possíveis reflexos sobre a produtividade futura.

Greening redesenha a citricultura

Entre os principais desafios estruturais do setor está o greening, doença bacteriana transmitida pelo psilídeo que compromete o desenvolvimento das plantas, reduz a produtividade e a qualidade dos frutos e pode antecipar a erradicação dos pomares.

Na safra 2025/26, a doença teria impedido a colheita de 49,6 milhões de caixas. Considerando um preço médio de referência de R$ 37 por caixa, o impacto estimado alcançou aproximadamente R$ 1,8 bilhão em receita bruta no campo.

A incidência de greening no cinturão citrícola chegou a 47,6% em 2025/26, maior nível da série recente. Os índices foram ainda mais elevados no Sul, com 74%, e no Sudoeste, com 56%.

A pressão da doença vem estimulando a expansão dos plantios para novas regiões. Dados da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo indicam que cerca de 50% das mudas produzidas no estado foram destinadas a municípios fora do cinturão citrícola. Entre essas mudas, 49% foram para Minas Gerais, 28% para Mato Grosso do Sul, 10% para o Paraná, 7% para Goiás e 6% para outros estados.

A estratégia, porém, não elimina o risco fitossanitário. No Norte do cinturão, a incidência de greening aumentou de 6% em 2022/23 para 31% em 2025/26. No Noroeste, passou de 8% para 20% no mesmo período.

Próxima safra terá bienalidade positiva, mas clima permanece como risco

Para o próximo ciclo, a expectativa de bienalidade positiva tende a favorecer uma produção maior. O cenário, entretanto, permanece condicionado ao clima e à evolução do greening.

A análise do Itaú BBA aponta que um eventual El Niño forte ou muito forte pode aumentar a irregularidade climática e favorecer períodos de temperaturas elevadas. O risco é particularmente relevante entre setembro e novembro, durante a fase crítica de florada, quando condições adversas podem comprometer o potencial produtivo antes mesmo do desenvolvimento dos frutos.

Assim, a citricultura entra em uma fase de maior seletividade econômica. Com preços menos remuneradores, custos elevados e desafios fitossanitários crescentes, escala, irrigação, sanidade dos pomares, tecnologia e eficiência operacional tendem a ganhar ainda mais importância para a manutenção da rentabilidade.

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