Calor redefine estratégia econômica para uvas viníferas

Estudo indica sombra, troca de cultivar ou migração conforme a intensidade dos eventos extremos

04.06.2026 | 17:47 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Wenderson Araujo / CNA
Foto: Wenderson Araujo / CNA

Produtores de uvas para vinho podem obter melhor retorno econômico com estratégias distintas de adaptação ao calor, conforme a gravidade dos eventos extremos. Um estudo de cientistas da Cornell University avaliou três caminhos para vinhedos de Cabernet Sauvignon na Califórnia: uso de telas de sombreamento, troca por cultivar mais tolerante ao calor e migração para uma região mais fria. A conclusão aponta uma regra prática: manter o sistema atual compensa sob aquecimento leve; instalar sombreamento ganha força sob estresse moderado; adotar uma cultivar mais tolerante ao calor apresenta maior retorno em cenários extremos.

O trabalho analisou o valor presente líquido de receitas e custos em um ciclo de trinta anos. A equipe considerou a implantação de um hectare de vinhedo, a fase até a plena produção, custos anuais, preços de uvas e perdas de rendimento sob eventos de calor. O estudo focou Cabernet Sauvignon no condado de Napa, Carignane em Napa e Cabernet Sauvignon no condado de Lake.

Temperaturas elevadas

A pesquisa partiu de um problema técnico crescente na viticultura. Temperaturas elevadas afetam crescimento, produtividade e composição das bagas. Acima de trinta graus Celsius, a fotossíntese perde eficiência. Acima de trinta e cinco graus Celsius, ocorre degradação de fenólicos. Acima de quarenta graus Celsius, há risco de dano celular e queimadura de sol. Em cachos de Cabernet Sauvignon, temperaturas em controles sem proteção chegaram a cinquenta e oito graus Celsius. O uso de tela reduziu a temperatura do cacho para quarenta e sete vírgula sete graus Celsius em estudo citado pelos cientistas.

Primeira alternativa

A primeira alternativa avaliada envolve tela de sombreamento sobre as videiras ou no lado sul da copa. A tecnologia reduz a exposição direta ao sol e pode baixar a temperatura da fruta em cerca de três vírgula cinco graus Celsius. O custo pesa no resultado. O modelo incluiu custo inicial de setenta e quatro mil e cem dólares por hectare e manutenção de doze mil trezentos e cinquenta dólares por hectare a cada seis anos.

Segunda alternativa

A segunda alternativa troca a cultivar. O estudo usou Carignane como substituta potencial da Cabernet Sauvignon em Napa. Carignane integra o grupo de cultivares de Vitis vinifera com maior capacidade de produção sob clima mais quente, ao lado de Grenache, Zinfandel e Nebbiolo. A análise indicou maior estabilidade produtiva da Carignane em Napa frente a dias com temperaturas acima de trinta e cinco graus Celsius.

Terceira alternativa

A terceira alternativa envolve migração de área. O modelo comparou Napa com Lake County, região próxima e mais fria. Nesse cenário, o produtor mantém Cabernet Sauvignon, mas desloca a produção para uma área com menor histórico de eventos de temperatura extrema. Os custos de implantação e produção anual em Lake County apareceram abaixo dos custos de Napa. O preço médio da uva, porém, também ficou menor.

O estudo também mediu a reação de consumidores. A equipe entrevistou trezentos e três participantes nos Estados Unidos. Eles avaliaram rótulos hipotéticos ligados às três estratégias. Quando receberam explicação sobre a adaptação climática, os consumidores declararam disposição para pagar prêmios. O prêmio médio chegou a dezessete por cento para vinhos associados ao uso de sombreamento, doze por cento para troca de cultivar e cerca de onze por cento para mudança de região.

Os pesquisadores trataram esses prêmios como temporários. O modelo aplicou os acréscimos de preço apenas nos primeiros cinco anos de plena produção, do quinto ao nono ano. Depois, os preços retornaram ao padrão usado nas simulações. Essa escolha refletiu a hipótese de perda de novidade ao longo do tempo.

Nos cenários sem eventos extremos, Cabernet Sauvignon em Napa manteve o maior valor presente líquido. O resultado refletiu o preço elevado da uva nessa origem e a ausência de perdas por calor. Com eventos leves, a manutenção do sistema tradicional também liderou. O sombreamento apareceu como segunda melhor alternativa.

Com eventos moderados de calor, a tela de sombreamento gerou o maior valor presente líquido. Nesse caso, a proteção preservou rendimento suficiente para compensar custos de implantação e manutenção. Com eventos extremos, a troca por Carignane apresentou o melhor desempenho financeiro. O maior rendimento da cultivar ajudou a compensar o preço menor por mil quilogramas.

Os cientistas afirmam que o método pode auxiliar produtores, fornecedores de tecnologia, melhoristas, proprietários de terras, financiadores, formuladores de políticas e consumidores. O modelo permite inserir preços, produtividades e custos locais. Assim, cada vinhedo pode avaliar tecnologia, cultivar ou região com base em suas próprias condições produtivas e financeiras.

Mais informações em doi.org/10.5344/ajev.2026.25043

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