Broca-do-café favorece formigas inimigas naturais

Formigas ocupam frutos perfurados pela praga e podem ampliar o controle biológico em cafezais sombreados

28.07.2026 | 16:28 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Ninho de Pseudomyrmex elongatus - Foto: Jonathan R. Morris
Ninho de Pseudomyrmex elongatus - Foto: Jonathan R. Morris

A broca-do-café pode criar abrigo para formigas capazes de predá-la. A interação foi registrada em uma lavoura orgânica de café sombreado em Chiapas, no México. O pesquisador Jonathan R. Morris encontrou sete espécies de formigas dentro de frutos perfurados por Hypothenemus hampei. Cinco delas apresentaram sinais de reprodução no interior dos frutos. A descoberta indica um efeito ecológico incomum: a própria praga modifica o ambiente e favorece populações de seus inimigos naturais (DOI 10.1002/ecy.70463).

A broca perfura frutos de Coffea arabica para depositar ovos. Larvas e adultos jovens consomem o endosperma durante o desenvolvimento. A maior parte do ciclo ocorre dentro do fruto. Essa galeria protege o inseto contra condições ambientais adversas e contra parte dos agentes de controle biológico.

Formigas pequenas, porém, conseguem entrar nesses canais. Estudos anteriores já indicavam a remoção de adultos e formas imaturas da broca por espécies de pequeno porte. A nova observação mostra outro uso dos frutos atacados. As cavidades também funcionam como locais de abrigo e reprodução para algumas formigas.

Frutos verdes

Morris coletou centenas de frutos verdes com sinais de ataque em setembro e outubro de 2016. O material serviu para a retirada de brocas destinadas a um experimento de laboratório. Durante a abertura dos frutos, o pesquisador encontrou formigas em algumas amostras.

As espécies registradas incluíram Nesomyrmex echinatinodis, Procryptocerus hylaeus, Pseudomyrmex elongatus e Wasmannia auropunctata. Também apareceram representantes dos gêneros Azteca, Pheidole e Tapinoma, sem identificação até o nível de espécie.

Uso reprodutivo da cavidade

Cinco grupos apresentaram ovos, larvas, pupas, rainhas ou indivíduos reprodutivos alados. Os registros envolveram Nesomyrmex echinatinodis, Procryptocerus hylaeus, Pseudomyrmex elongatus, Wasmannia auropunctata e uma espécie de Tapinoma. Essa presença indica uso reprodutivo da cavidade, não apenas passagem ocasional.

Algumas dessas formigas já possuem papel conhecido no controle da broca. Procryptocerus hylaeus reduz a colonização dos frutos. Wasmannia auropunctata também diminui a infestação e preda formas imaturas de Hypothenemus hampei. Formigas do gênero Pseudomyrmex podem reduzir a quantidade de brocas dentro dos frutos e limitar novas colonizações.

O estudo não confirmou se todas as formigas encontradas consumiam a praga. Parte delas pode remover indivíduos e resíduos para liberar espaço. Evidências de outros trabalhos, porém, apontam predação de ovos, larvas, pupas e adultos por formigas capazes de entrar nas galerias.

Cavidades parcialmente limpas

O pesquisador observou cavidades parcialmente limpas nos frutos ocupados. Esse padrão não costuma aparecer quando apenas a broca permanece no interior. As formigas podem retirar resíduos do inseto e porções deterioradas do endosperma. Essa limpeza amplia a área disponível para o ninho. Algumas também parecem alargar a entrada aberta pela broca.

Morris classificou o processo como “construção indireta de nicho de baixo para cima”. Nesse mecanismo, uma presa altera o ambiente e produz uma vantagem para o predador. A broca abre a cavidade. As formigas aproveitam o espaço, realizam novas modificações e podem instalar colônias no próprio fruto.

A interação não ocorre em qualquer período. O uso depende do tamanho dos frutos e do tempo necessário para a formação das galerias. Mesmo assim, a reprodução de várias espécies dentro das cavidades indica um fenômeno recorrente, e não um evento isolado.

A instalação de ninhos nos frutos pode manter formigas diretamente sobre as plantas de café. Essa proximidade tende a elevar o contato com novas brocas. O efeito pode alcançar frutos vizinhos e contribuir para a regulação de futuras infestações.

Manejo ecológico

O trabalho também levanta uma implicação para o manejo ecológico. A eliminação completa da praga nem sempre favorece a estabilidade dos inimigos naturais. Baixas populações de Hypothenemus hampei podem fornecer alimento e abrigo para formigas predadoras. Essa disponibilidade ajuda a sustentar comunidades responsáveis pelo controle natural ao longo do tempo.

A proposta não recomenda aceitar danos econômicos. O resultado reforça a importância de avaliar níveis de infestação, dinâmica das formigas e conservação do habitat. Sistemas sombreados e com maior complexidade vegetal podem oferecer condições para a manutenção desses agentes. Nesse contexto, o manejo pode buscar equilíbrio entre redução da broca e permanência das interações ecológicas ligadas ao controle biológico.

DOI 10.1002/ecy.70463
DOI 10.1002/ecy.70463

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