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A broca-do-café pode criar abrigo para formigas capazes de predá-la. A interação foi registrada em uma lavoura orgânica de café sombreado em Chiapas, no México. O pesquisador Jonathan R. Morris encontrou sete espécies de formigas dentro de frutos perfurados por Hypothenemus hampei. Cinco delas apresentaram sinais de reprodução no interior dos frutos. A descoberta indica um efeito ecológico incomum: a própria praga modifica o ambiente e favorece populações de seus inimigos naturais (DOI 10.1002/ecy.70463).
A broca perfura frutos de Coffea arabica para depositar ovos. Larvas e adultos jovens consomem o endosperma durante o desenvolvimento. A maior parte do ciclo ocorre dentro do fruto. Essa galeria protege o inseto contra condições ambientais adversas e contra parte dos agentes de controle biológico.
Formigas pequenas, porém, conseguem entrar nesses canais. Estudos anteriores já indicavam a remoção de adultos e formas imaturas da broca por espécies de pequeno porte. A nova observação mostra outro uso dos frutos atacados. As cavidades também funcionam como locais de abrigo e reprodução para algumas formigas.
Morris coletou centenas de frutos verdes com sinais de ataque em setembro e outubro de 2016. O material serviu para a retirada de brocas destinadas a um experimento de laboratório. Durante a abertura dos frutos, o pesquisador encontrou formigas em algumas amostras.
As espécies registradas incluíram Nesomyrmex echinatinodis, Procryptocerus hylaeus, Pseudomyrmex elongatus e Wasmannia auropunctata. Também apareceram representantes dos gêneros Azteca, Pheidole e Tapinoma, sem identificação até o nível de espécie.
Cinco grupos apresentaram ovos, larvas, pupas, rainhas ou indivíduos reprodutivos alados. Os registros envolveram Nesomyrmex echinatinodis, Procryptocerus hylaeus, Pseudomyrmex elongatus, Wasmannia auropunctata e uma espécie de Tapinoma. Essa presença indica uso reprodutivo da cavidade, não apenas passagem ocasional.
Algumas dessas formigas já possuem papel conhecido no controle da broca. Procryptocerus hylaeus reduz a colonização dos frutos. Wasmannia auropunctata também diminui a infestação e preda formas imaturas de Hypothenemus hampei. Formigas do gênero Pseudomyrmex podem reduzir a quantidade de brocas dentro dos frutos e limitar novas colonizações.
O estudo não confirmou se todas as formigas encontradas consumiam a praga. Parte delas pode remover indivíduos e resíduos para liberar espaço. Evidências de outros trabalhos, porém, apontam predação de ovos, larvas, pupas e adultos por formigas capazes de entrar nas galerias.
O pesquisador observou cavidades parcialmente limpas nos frutos ocupados. Esse padrão não costuma aparecer quando apenas a broca permanece no interior. As formigas podem retirar resíduos do inseto e porções deterioradas do endosperma. Essa limpeza amplia a área disponível para o ninho. Algumas também parecem alargar a entrada aberta pela broca.
Morris classificou o processo como “construção indireta de nicho de baixo para cima”. Nesse mecanismo, uma presa altera o ambiente e produz uma vantagem para o predador. A broca abre a cavidade. As formigas aproveitam o espaço, realizam novas modificações e podem instalar colônias no próprio fruto.
A interação não ocorre em qualquer período. O uso depende do tamanho dos frutos e do tempo necessário para a formação das galerias. Mesmo assim, a reprodução de várias espécies dentro das cavidades indica um fenômeno recorrente, e não um evento isolado.
A instalação de ninhos nos frutos pode manter formigas diretamente sobre as plantas de café. Essa proximidade tende a elevar o contato com novas brocas. O efeito pode alcançar frutos vizinhos e contribuir para a regulação de futuras infestações.
O trabalho também levanta uma implicação para o manejo ecológico. A eliminação completa da praga nem sempre favorece a estabilidade dos inimigos naturais. Baixas populações de Hypothenemus hampei podem fornecer alimento e abrigo para formigas predadoras. Essa disponibilidade ajuda a sustentar comunidades responsáveis pelo controle natural ao longo do tempo.
A proposta não recomenda aceitar danos econômicos. O resultado reforça a importância de avaliar níveis de infestação, dinâmica das formigas e conservação do habitat. Sistemas sombreados e com maior complexidade vegetal podem oferecer condições para a manutenção desses agentes. Nesse contexto, o manejo pode buscar equilíbrio entre redução da broca e permanência das interações ecológicas ligadas ao controle biológico.
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