Brasil amplia liderança no mercado global do algodão

Durante a 23º Anea Cotton Dinner, Agroconsult destaca avanço das exportações e cenário favorável para a safra 2026/2027

26.06.2026 | 16:30 (UTC -3)
Catarina Guedes

Começou em tom altista o segundo dia da programação do 23º Anea Cotton Dinner and Golf Tournament, evento da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), que está concentrando os maiores players mundiais do algodão em Angra dos Reis, no RJ. A apresentação da consultoria em agronegócio Agroconsult, uma das mais esperadas do evento, compôs um cenário favorável aos preços, com perspectiva de redução da oferta mundial, consumo resiliente, queda da relação estoque/uso, que devem marcar o mercado internacional de algodão na temporada 2026/2027.

A apresentação da sócia e analista sênior da Agroconsult, a Engenheira Agrônoma e especialista em mercado de algodão, Heloísa Melo, reuniu as primeiras projeções da temporada e uma leitura estratégica do cenário internacional.  "O mercado voltou para os fundamentos. Depois do efeito da seca nos Estados Unidos e do arrefecimento das tensões geopolíticas, os preços hoje refletem mais o equilíbrio entre oferta e demanda do que fatores momentâneos", afirmou Heloisa. “A pior seca registrada nas áreas produtoras norte-americanas coincidiu com o agravamento das tensões entre Estados Unidos, Irã e Israel, elevando o petróleo acima de US$ 100 por barril. Como consequência, o poliéster ficou mais caro e o algodão ganhou competitividade”. Com a normalização das condições climáticas nos Estados Unidos e preços do petróleo caindo dos 100 USD/barril, o mercado voltou a ser precificado pelos seus fundamentos.

As projeções da Agroconsult indicam redução da produção mundial na temporada 2026/2027, enquanto o consumo deve permanecer superior à oferta. O resultado a sustentação dos preços internacionais em patamares mais elevados que os observados na temporada passada.

Brasil amplia liderança

Embora o Brasil deva aumentar as exportações em cerca de 19% sobre a temporada anterior, Heloisa destacou que esse crescimento não ocorreu porque o comércio internacional se expandiu.

"O comércio internacional de algodão permanece praticamente estável há cerca de 15 anos. O que aconteceu foi uma redistribuição desse mercado, e o país conquistou espaço que antes era ocupado por outros exportadores", diz.

Atualmente, o país representa aproximadamente 35% das exportações mundiais, enquanto os Estados Unidos participam com cerca de 27%. Há pouco tempo, o cenário era diferente: os norte-americanos concentravam aproximadamente 37% do mercado, enquanto o Brasil respondia por cerca de 15%. Outro diferencial competitivo destacado pela analista é a constância da oferta brasileira. O Brasil mantém alto fluxo praticamente contínuo de exportações ao longo do ano, característica valorizada pelos compradores internacionais.

O real concorrente

Outro ponto enfatizado durante a palestra é que a principal disputa do algodão não acontece apenas entre os países exportadores. Segundo ela, o algodão representa cerca de 22% do consumo mundial de fibras, enquanto a maior parte do mercado continua ocupada pelas fibras sintéticas, principalmente o poliéster.

"Nos próximos anos, se conseguirmos apenas manter a participação atual do algodão no mercado mundial de fibras, o crescimento do consumo já será muito significativo", afirma.

Na avaliação da Agroconsult, movimentos internacionais como o Plant, Not Plastic, que valorizam as fibras naturais, tendem a ganhar importância na estratégia global do setor.

Brasil mantém competitividade

Para a safra brasileira 2025/2026, que abastecerá o mercado mundial na temporada 2026/2027, a Agroconsult estima redução da área plantada, concentrada principalmente em Mato Grosso.

Mesmo com menor área cultivada, a consultoria avalia que a produtividade elevada continuará garantindo competitividade ao algodão brasileiro. Comparativos apresentados durante a palestra mostram desempenho econômico superior ao observado nas principais regiões produtoras norte-americanas, reflexo do maior potencial produtivo das lavouras brasileiras.

Bahia amplia irrigação

Durante a apresentação, a Agroconsult mostrou o caso da Bahia, segundo maior produtor de algodão do país, que chega à safra 2025/2026 como destaque, graças ao redesenho que vem acontecendo no sistema produtivo. Segundo a Abapa, o avanço da irrigação é sustentado nos estudos de disponibilidade do aquífero Urucuia. A Agroconsult estima que a Bahia manterá a área da temporada anterior. A redução do cultivo em sequeiro vem sendo compensada pela expansão das áreas irrigadas, que devem passar de 167 mil para 200 mil hectares. Com isso, a irrigação já representa quase metade da área plantada no estado, fator que também explica o calendário de plantio mais tardio em relação a outras regiões produtoras.

"Conseguimos fazer o mapeamento por satélite do irrigado e do sequeiro. A redução da área de sequeiro foi mais do que compensada pelo incremento do irrigado. Desde o início trabalhamos com estabilidade de área para o estado", afirma. "Muito se falou recentemente que o plantio da Bahia estava atrasado. Não está atrasado. Estamos vivendo um novo normal. A janela mudou porque o sistema de produção mudou. Hoje o produtor baiano estendeu o plantio para dentro do mês de janeiro", concluiu.

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