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Bordas de Mata Atlântica próximas a lavouras de hortaliças ajudaram a manter redes de interação entre abelhas e plantas em áreas sob manejo orgânico e convencional. O efeito da paisagem reduziu diferenças esperadas entre os dois sistemas. O manejo influenciou mais a organização das interações do que a composição de espécies (DOI 10.1111/een.70125).
O estudo avaliou 12 propriedades rurais no Alto Tietê, no estado de São Paulo. Seis adotavam manejo convencional. Outras seis possuíam certificação orgânica. Todas apresentavam cerca de três hectares e ficavam a aproximadamente 30 metros de fragmentos de vegetação nativa.
As propriedades cultivavam hortaliças semelhantes, entre elas abóbora, alface, beterraba, brócolis, cebolinha, cenoura... Os pesquisadores realizaram três campanhas entre junho de 2019 e fevereiro de 2021. As coletas abrangeram períodos secos e chuvosos.
A equipe registrou 505 exemplares de abelhas, distribuídos em 33 espécies e quatro famílias. Apidae reuniu 17 espécies. Halictidae apresentou 11. Megachilidae somou quatro. Andrenidae contou com uma espécie.
As áreas orgânicas abrigaram 24 espécies de abelhas. As propriedades convencionais registraram 21. A riqueza total não apresentou diferença estatística entre os manejos. Contudo, as áreas orgânicas tiveram mais espécies exclusivas.
As comunidades dos dois sistemas compartilharam 44% das espécies de abelhas. Entre elas apareceram Apis mellifera, Nannotrigona testaceicornis, Paratrigona subnuda, Plebeia droryana, Tetragonisca angustula e Trigona spinipes. Não havia colônias manejadas de polinizadores nas propriedades. Todas as abelhas coletadas pertenciam a populações presentes na paisagem.
O levantamento também registrou 34 espécies vegetais de 13 famílias. Espécies cultivadas representaram 43% do total. Plantas nativas responderam por 57%. As áreas orgânicas apresentaram 25 espécies vegetais visitadas por abelhas. As convencionais reuniram 21. A composição das plantas não diferiu de forma significativa entre os manejos.
As redes das áreas orgânicas apresentaram maior diversidade de interações. O índice médio alcançou 2,71, ante 1,63 nas propriedades convencionais. Esse resultado indica distribuição mais ampla das visitas entre as espécies presentes.
A conectância seguiu direção oposta. As áreas convencionais apresentaram valor médio de 0,52. As orgânicas registraram 0,26. A conectância representa a proporção de interações realizadas em relação ao total possível dentro da rede.
Segundo o estudo, a maior conectância no manejo convencional decorreu da dominância de espécies supergeneralistas. Apis mellifera e Trigona spinipes concentraram grande parte das visitas. Nas áreas orgânicas, as interações ficaram mais distribuídas entre diferentes abelhas e plantas.
Nas propriedades convencionais, os pesquisadores coletaram 209 abelhas de 18 espécies durante as observações das interações. Trigona spinipes participou de 22,2% dos registros de interação. Apis mellifera respondeu por 20,4%. As plantas mais visitadas incluíram Leonurus japonicus e Ocimum basilicum.
Nas áreas orgânicas, a equipe coletou 296 abelhas de 28 espécies. Paratrigona subnuda e Apis mellifera participaram, cada uma, de 17% das interações. Trigona spinipes respondeu por 14,7%. Bidens pilosa e Synedrella nodiflora receberam o maior número de visitas.
Outros indicadores, como sobreposição de nicho, aninhamento e especialização da rede, não apresentaram diferenças significativas. A modularidade alcançou valores maiores nas áreas orgânicas, mas o resultado ficou fora do limite estatístico adotado.
A presença de plantas floridas nas margens manteve redes ativas nos dois sistemas. Plantas espontâneas tiveram participação relevante. Espécies ruderais funcionaram como fontes de alimento para os polinizadores. O trabalho cita Bidens pilosa, Synedrella nodiflora, Galinsoga parviflora, Conyza canadensis e Sonchus asper entre os recursos associados às interações.
Os resultados indicam importância agronômica e ecológica das faixas de vegetação localizadas entre cultivos e fragmentos florestais. Essas áreas fornecem flores, locais de nidificação, abrigo e condições microclimáticas favoráveis. Também facilitam o deslocamento de abelhas entre a mata e as lavouras.
Os pesquisadores concluem que a conservação da vegetação nativa nas bordas pode sustentar processos de polinização até em propriedades convencionais. A manutenção de recursos florais diversos também pode reduzir impactos locais do manejo agrícola. A eliminação completa da vegetação espontânea nas margens tende a retirar espécies com papel relevante nas redes de interação.
O trabalho recomenda uma avaliação conjunta da riqueza de espécies e da estrutura das redes ecológicas. A contagem de abelhas e plantas, isoladamente, não revelou todas as diferenças entre os sistemas. A análise das interações mostrou mudanças na distribuição das visitas e na dependência de espécies generalistas.
O estudo foi desenvolvido pelos cientistas Samantha Marx de Castro, Cauê Nagatani, Vania Nobuko Yoshikawa, Franciny Yuko Urushima, Kelli dos Santos Ramos, Guaraci Duran Cordeiro e Maria Santina de Castro Morini.
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