Arquitetura da soja reduz parasitismo de percevejo-marrom

Maior complexidade das plantas reduz ação de Telenomus podisi e pode exigir ajuste nas liberações

23.08.2026 | 13:42 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Jovenil Jose da Silva / Embrapa
Foto: Jovenil Jose da Silva / Embrapa

A maior complexidade da arquitetura das plantas de soja reduz a capacidade de Telenomus podisi parasitar ovos de Euschistus heros. O efeito pode exigir ajustes na quantidade de parasitoides liberados conforme o desenvolvimento da cultura e o nível de infestação. O parasitismo caiu pela metade nas plantas com estrutura mais complexa em comparação com plantas mais simples. A conclusão integra estudo conduzido por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz.

Os pesquisadores avaliaram três arquiteturas de soja. Plantas no estádio V5 representaram a arquitetura simples. Plantas no estádio V8 formaram o tratamento intermediário. Plantas entre R2 e R3 compuseram a condição mais complexa. O experimento utilizou a cultivar IAC Foscarin.

Cada tratamento contou com 25 repetições. Os pesquisadores infestaram cada planta com 85 ovos de Euschistus heros, com variação de dez ovos para mais ou para menos. Os ovos permaneceram distribuídos em duas folhas na região intermediária do dossel. Em seguida, dez fêmeas copuladas de Telenomus podisi entraram em cada gaiola pela base da planta. A exposição durou 24 horas.

Arquitetura e parasitismo

A análise apontou efeito significativo da arquitetura da soja sobre o parasitismo. A taxa diminuiu conforme aumentaram a altura da planta, o número de folhas e o índice de complexidade arquitetônica. A área foliar total também apresentou associação com o desempenho do parasitoide. Entre as características avaliadas, número de folhas e área foliar total apresentaram maior capacidade de explicar a variação no parasitismo.

O resultado indica uma limitação física para o deslocamento e a localização dos ovos nas plantas mais desenvolvidas. Uma arquitetura com mais folhas e maior superfície amplia o espaço de busca. Essa condição aumenta o percurso necessário até o hospedeiro e pode reduzir a eficiência de forrageamento de Telenomus podisi.

Crescimento populacional

A influência da arquitetura também apareceu nas projeções de crescimento populacional de Euschistus heros. Os pesquisadores mantiveram a mesma população inicial da praga e a mesma quantidade de parasitoides nas simulações. Nas plantas com arquitetura complexa, a população de percevejos atingiu o nível de ação cerca de dez dias antes em comparação com o cenário de arquitetura simples.

A taxa finita de crescimento populacional de Euschistus heros alcançou 1,033 no cenário com plantas complexas e 1,021 nas plantas simples. A taxa líquida de reprodução chegou a 2,77 na arquitetura complexa e 1,91 na simples. O tempo médio de geração apresentou pequena diferença: 30,44 dias no cenário complexo e 30,10 dias no simples.

Os resultados reforçam a necessidade de considerar a fenologia da soja no planejamento das liberações inundativas. A recomendação baseada apenas em uma quantidade fixa de parasitoides pode provocar subdosagem ou uso acima da necessidade. O risco cresce durante o avanço do ciclo, pois a planta ganha folhas, altura e área foliar.

Plantas com ovos

O modelo desenvolvido no estudo também incorporou o nível de plantas com ovos de Euschistus heros. A demanda por fêmeas de Telenomus podisi aumentou com a infestação e com o número de folhas. Em uma lavoura com 280 mil plantas por hectare e incidência de ovos em 0,5% das plantas, a estimativa variou de 2.380 fêmeas por hectare em plantas com oito folhas para 4.900 fêmeas por hectare em plantas com 20 folhas.

Com infestação em 1% das plantas, a estimativa aumentou de 4.760 para 9.800 fêmeas por hectare entre esses dois níveis de arquitetura. Com 2% de plantas infestadas, o modelo indicou 9.520 fêmeas por hectare em plantas com oito folhas e 19.600 fêmeas por hectare em plantas com 20 folhas.

O nível de infestação exerceu influência maior sobre a quantidade calculada de parasitoides em comparação com a arquitetura. Para os pesquisadores, o resultado destaca a importância do monitoramento frequente de ovos de Euschistus heros. Liberações iniciadas em níveis baixos de infestação tendem a demandar menos parasitoides para atingir a mesma meta de parasitismo.

Protocolos usados

O estudo também discute os protocolos atuais usados no Brasil. Trabalhos anteriores baseados em modelagem recomendam três a quatro liberações, com pelo menos cinco mil fêmeas adultas de Telenomus podisi por hectare em cada aplicação. Essas recomendações consideram o potencial de parasitismo, mas não incorporam variações na complexidade da planta e na incidência de ovos.

Os pesquisadores destacam a relevância do resultado para cultivares de soja com crescimento indeterminado. Essas plantas continuam formando novas folhas após o início do período reprodutivo. A alteração da arquitetura ao longo do ciclo pode modificar o desempenho do parasitoide durante a fase de maior interesse para o manejo de percevejos.

As estimativas ainda dependem de validação em condições de campo. O experimento utilizou plantas individuais em ambiente controlado e densidade de ovos superior à observada com frequência em lavouras. A estratégia permitiu isolar o efeito da arquitetura sobre a busca do parasitoide. Segundo o estudo, futuros trabalhos de campo poderão calibrar as taxas de liberação com base na fenologia da soja, no número de folhas e na infestação por Euschistus heros (doi 10.1002/ps.71241).

O trabalho foi realizado pelos cientistas Nathália Graziele Falcão Fernandes, Elianara Carvalho Cardoso, João Pedro Benaci Ayusso e Lessando Moreira Gontijo.

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