Abelhas rainhas transferem methyl parathion para ovos

Estudo com Apis mellifera indica perda de filtragem social após exposição crônica a organofosforado

02.07.2026 | 14:35 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Sascha Nicklisch - UC Davis
Foto: Sascha Nicklisch - UC Davis

Abelhas operárias de Apis mellifera reduzem a entrada de pesticida na dieta da colônia, mas essa proteção perde eficiência sob exposição crônica. Quando esse mecanismo social entra em colapso, rainhas acumulam o composto nos ovários e transferem parte da carga química para ovos em desenvolvimento. O resultado aparece em estudo liderado por pesquisadores da Universidade da California, Davis com methyl parathion (DOI 10.1016/j.cub.2026.06.022). O produto está proibido no Brasil desde 2016.

A pesquisa avaliou o fluxo do organofosforado entre alimento, operárias, cera, rainhas, ovários e ovos. O methyl parathion entrou como composto modelo. O pesticida apresenta ação neurotóxica conhecida em abelhas e características físico-químicas próximas às de outros organofosforados.

Reduzindo a concentração

As operárias reduziram a concentração do pesticida no alimento processado e armazenado em células de favo. No segundo dia, a concentração nas células caiu noventa e cinco por cento em relação ao alimento presente nos alimentadores. No décimo dia, a redução caiu para oitenta e seis por cento. Os dados indicam perda gradual da filtragem feita pelas operárias durante o manuseio, o processamento e a deposição do alimento.

A carga corporal também mudou com o tempo. No segundo dia, rainhas e operárias não apresentaram diferença significativa. No décimo dia, as operárias acumularam cinquenta e cinco vezes mais methyl parathion do que as rainhas. A média chegou a mil e quarenta e nove partes por bilhão nas operárias, contra dezenove partes por bilhão nas rainhas.

Pesticida direcionado

Mesmo com carga corporal menor, as rainhas direcionaram o pesticida para tecidos reprodutivos. No décimo dia, os ovos apresentaram concentrações entre oitenta e uma e cento e quarenta e uma partes por bilhão. Esses valores superaram em cinco a dez vezes a carga corporal das rainhas. Os pesquisadores interpretam esse padrão como descarregamento materno, processo no qual a fêmea transfere contaminantes para a progênie.

O estudo também registrou diferença entre rainhas com maior e menor postura. Rainhas com mais ovos distribuíram a carga química entre mais descendentes, com menor concentração média por ovo. Os pesquisadores tratam esse resultado como observação descritiva, pois o número de rainhas avaliadas limitou a análise estatística.

Distribuição na colônia

A presença da rainha também alterou a distribuição do pesticida na colônia. Nano-colônias com rainha consumiram mais alimento do que colônias sem rainha. No entanto, a carga total mensurada em operárias, cera e alimento de células não diferiu de forma significativa. A rainha mudou o destino do contaminante dentro da colônia, com maior concentração em operárias e maior deposição em cera no décimo dia.

Os resultados sustentam a ideia de colônias como redes integradas de detoxificação. As operárias funcionam como primeira barreira. Elas processam alimento contaminado e reduzem a exposição da rainha e da cria. Sob exposição crônica, essa barreira perde capacidade. A rainha mantém baixa carga corporal, mas transfere parte do contaminante aos ovos.

A pesquisa aponta uma limitação em ensaios toxicológicos baseados apenas em operárias sem rainha. Esse tipo de teste não captura a exposição de ovos nem a redistribuição química provocada pela presença da rainha. Para os pesquisadores, avaliações com contexto social da colônia podem revelar efeitos ocultos de contaminantes sobre reprodução, cria e dinâmica interna da colmeia.

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