Iscas alteram comportamento da formiga-argentina

Ácido bórico aumenta agregação no ninho; tiametoxam eleva atividade externa

29.07.2026 | 09:00 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Rebekah D Wallace / University of Georgia - Bugwood - BY CC 3.0
Foto: Rebekah D Wallace / University of Georgia - Bugwood - BY CC 3.0

Baixas concentrações de ácido bórico e tiametoxam em iscas açucaradas provocaram respostas comportamentais opostas em colônias de formiga-argentina, Linepithema humile. O ácido bórico ampliou a concentração de operárias dentro do ninho e reduziu a atividade na área de forrageamento. O tiametoxam levou as formigas para fora do abrigo e aumentou a circulação no ambiente externo. Os resultados vieram de um estudo conduzido na Universidade da Califórnia, em Riverside, nos Estados Unidos (DOI 10.3390/insects17080785).

A pesquisa avaliou efeitos subletais dos dois ingredientes ativos. Os cientistas buscaram simular a diluição dos inseticidas após a trofalaxia, processo de compartilhamento de alimento entre integrantes da colônia. Essa transferência pode expor grande parte da população a doses inferiores às concentrações letais.

A formiga-argentina representa uma praga invasora em ambientes agrícolas, urbanos e naturais. A espécie mantém associação com insetos produtores de honeydew, ou exsudatos açucarados, e pode favorecer populações de pragas sugadoras. Sua capacidade de formar supercolônias e deslocar artrópodes nativos também amplia o impacto ecológico.

Colônias de laboratório

O experimento utilizou colônias de laboratório com média de 294 operárias. A maioria dos grupos continha de uma a três rainhas, além de quantidades semelhantes de ovos e formas imaturas. Cada colônia permaneceu em uma arena formada por tubo de nidificação, fonte de umidade e área de forrageamento.

Os pesquisadores prepararam uma isca com ácido bórico a 0,2% e outra com tiametoxam a 0,00005%. Ambas continham solução de sacarose a 25%. O grupo controle recebeu apenas a solução açucarada. Cada tratamento reuniu dez colônias.

A equipe forneceu dez microlitros de isca por colônia em aplicação única. Não havia outra fonte de alimento. Imagens do ninho e da área externa foram registradas antes da aplicação e a cada 24 horas, durante três dias.

Ácido bórico

O ácido bórico aumentou em 25,6% a densidade de formigas dentro do ninho. Ao mesmo tempo, a atividade fora do abrigo caiu 56,3%. No terceiro dia, as colônias tratadas apresentavam agrupamentos mais densos próximos à fonte de umidade e poucas operárias na área de forrageamento.

O número médio de formigas na área externa caiu de 17,4 no início do ensaio para 7,6 no terceiro dia. Dentro do ninho, o total de operárias no agrupamento subiu de 189,6 para 216,6 no mesmo período.

Efeitos do ácido bórico

Os cientistas relacionam essa resposta aos efeitos do ácido bórico sobre o sistema alimentar dos insetos. A substância pode causar danos nas células epiteliais do intestino médio e dos túbulos de Malpighi, estruturas ligadas à absorção, excreção e equilíbrio hídrico. A maior concentração de operárias perto da umidade pode representar uma resposta à perda de água. A pesquisa não confirmou esse mecanismo, mas aponta essa hipótese.

Tiametoxam: resposta inversa

O tiametoxam produziu resposta inversa. A densidade no ninho caiu 36,5%, enquanto a atividade externa aumentou 862,3%. O número médio de operárias na área de forrageamento passou de 19,9 antes da aplicação para 191,5 no terceiro dia.

Também ocorreu redução no número de formigas reunidas dentro do ninho. A média caiu de 269 para 90 operárias. O volume ocupado pelo agrupamento passou de 2,46 mililitros para 1,27 mililitros. Os dados indicam perda de coesão da colônia e deslocamento de grande parte das operárias para fora do abrigo.

O tiametoxam pertence ao grupo dos neonicotinoides. O ingrediente ativo atua nos receptores nicotínicos de acetilcolina do sistema nervoso dos insetos e pode provocar superestimulação neuronal. No estudo, a exposição aumentou a permanência das formigas em áreas iluminadas.

Ensaio individual

Em um ensaio individual, cada operária permaneceu durante dez minutos em uma arena dividida entre zona clara e escura. As formigas tratadas com tiametoxam passaram, em média, 313,5 segundos na área iluminada. O grupo controle permaneceu 264,7 segundos no mesmo local. Na zona escura, o tempo médio caiu de 325,9 segundos no controle para 283,5 segundos após a exposição ao inseticida.

Distância total percorrida

Nenhum tratamento alterou a distância total percorrida pelas formigas. Os grupos caminharam entre 819 e 848 centímetros durante os dez minutos de observação. Esse resultado indica manutenção da mobilidade individual. As diferenças ocorreram na escolha do local e na organização coletiva.

Implicações para o manejo

Os resultados trazem implicações para o manejo. A queda rápida no forrageamento após a aplicação de ácido bórico pode refletir não apenas mortalidade, mas também permanência das operárias dentro do ninho. Esse comportamento pode reduzir novas visitas à isca e limitar exposições adicionais.

Com o tiametoxam, o aumento da circulação externa pode elevar o consumo da isca e favorecer a distribuição do ingrediente ativo pela colônia. Ao mesmo tempo, a presença de muitas formigas fora do ninho pode transmitir a impressão de crescimento da infestação nos primeiros dias após o tratamento.

O estudo acompanhou as colônias por três dias após a aplicação. Os cientistas recomendam novas avaliações por períodos maiores. Ensaios futuros poderão indicar se as alterações persistem, aumentam ou desaparecem, além de verificar eventual recuperação das operárias expostas.

Compartilhar

Newsletter Cultivar

Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura

acessar grupo whatsapp