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A camada de escamas depositada pelas fêmeas sobre as massas de ovos pode ajudar espécies do gênero Spodoptera a superar inimigos naturais, condições ambientais adversas, microrganismos e alguns métodos de controle. Revisão científica aponta essa proteção materna como uma adaptação relevante para a sobrevivência dos ovos e para o sucesso ecológico de pragas como Spodoptera frugiperda, Spodoptera litura e Spodoptera exigua. O trabalho também indica efeitos diretos sobre estratégias de manejo integrado.
Após a oviposição, as fêmeas retiram escamas do abdome e recobrem a parte superior e as laterais das massas de ovos. Substâncias adesivas mantêm esse material preso aos ovos e ao substrato durante o desenvolvimento embrionário. A espessura varia entre espécies, indivíduos, idade das fêmeas e eventos de oviposição.
Estudos anteriores classificam a cobertura em três níveis. No primeiro, os ovos permanecem expostos ou recebem uma camada muito fina. No segundo, entre 20% e 80% dos ovos permanecem visíveis. No terceiro, as escamas escondem toda a massa de ovos.
A idade da fêmea influencia o investimento nessa proteção. Fêmeas jovens tendem a produzir massas com coberturas mais espessas. A camada diminui ao longo dos eventos de postura. Em Spodoptera frugiperda, massas com cobertura superior a 180 micrômetros representam 9,9% das posturas produzidas durante a vida da fêmea. Massas com menos de 80 micrômetros de cobertura ou sem escamas somam 51,9%.
Segundo os cientistas, esse padrão pode refletir uma limitação na reserva de escamas abdominais. As primeiras posturas recebem maior proteção. Posturas posteriores recebem menor investimento. Os pesquisadores tratam essa relação como uma possível compensação na alocação de recursos reprodutivos.
A barreira física afeta o controle biológico. Camadas espessas dificultam o deslocamento de parasitoides sobre a massa de ovos e limitam o contato do ovipositor com o hospedeiro. Espécies do gênero Trichogramma apresentam menor parasitismo em massas protegidas por escamas. O efeito aparece nas três espécies de Spodoptera analisadas.
O parasitoide Telenomus remus apresenta desempenho diferente. O inseto consegue penetrar a camada e parasitar os ovos. Estudos reunidos registraram parasitismo eficiente tanto em massas cobertas como em ovos expostos. Esse comportamento pode favorecer Telenomus remus em programas voltados ao controle de espécies de Spodoptera, sobretudo no estabelecimento inicial das populações, quando as massas de ovos tendem a apresentar coberturas mais espessas.
Os pesquisadores destacam a necessidade de testar agentes de controle biológico em massas de ovos com escamas. Ensaios realizados apenas com ovos expostos podem não reproduzir as condições encontradas no campo. A recomendação ganha importância na seleção de parasitoides para liberações aumentativas.
O trabalho sugere, porém, avaliar em campo liberações combinadas de Telenomus remus e Trichogramma em surtos com diferentes lepidópteros-praga. Trichogramma tem ação mais generalista e pode atingir outras espécies presentes nas lavouras. Os cientistas citam ainda a preocupação de que liberações excessivas de um único inimigo natural reduzam a diversidade de espécies benéficas residentes.
As escamas também modificam a relação dos ovos com o ambiente. A cobertura reduz a perda de água em condições secas e pode limitar o ganho de calor sob incidência solar. O material também auxilia na manutenção da umidade próxima aos ovos e pode reduzir perdas causadas pela chuva. Em condições constantes de laboratório, a espessura exerce pouco efeito sobre a eclosão. Em ambientes sujeitos a variações, coberturas mais espessas aparecem associadas a maior sucesso de eclosão.
A proteção contra patógenos recebe menos evidências. Massas de ovos de Spodoptera litura com escamas apresentaram menor suscetibilidade à infecção fúngica em comparação com massas sem cobertura. A camada pode reduzir a adesão de esporos à superfície do ovo ou alterar o microambiente necessário para a germinação. Os pesquisadores, porém, classificam essa função como uma hipótese ainda sustentada por poucos estudos.
Os cientistas também apontam possíveis efeitos sobre produtos com ação ovicida. A barreira física pode limitar a penetração de inseticidas de contato. Um estudo citado na revisão registrou ação mais lenta e mais fraca do espinosade sobre massas de ovos cobertas de Spodoptera littoralis em comparação com massas descobertas. A menor penetração pode favorecer a exposição a doses subletais e acelerar a evolução da resistência a inseticidas. Os pesquisadores citam ainda a possibilidade de menor quantidade de resíduo sobre o córion. Lagartas recém-eclodidas de Spodoptera frugiperda costumam consumir o córion após a emergência. Uma redução dos resíduos nessa superfície pode diminuir a exposição ao inseticida por ingestão.
Para o controle químico, o trabalho propõe maior atenção a produtos com capacidade de penetração ou ação fumigante. Adjuvantes à base de organossilicone ou óleo também podem ampliar o espalhamento da calda e favorecer a passagem dos compostos pela matriz de escamas. Os pesquisadores ressaltam, porém, a falta de evidências diretas para várias dessas possibilidades. Testes padrão com ovos expostos tendem a superestimar o desempenho dos ovicidas no campo. Ensaios comparando massas cobertas e descobertas ainda precisam avançar.
A camada também pode interferir na comunicação química. Escamas de Spodoptera frugiperda contêm compostos capazes de participar de interações com parasitoides. Um estudo anterior identificou 20 compostos nas escamas dessa espécie, incluindo dois componentes de feromônio sexual. Trichogramma pretiosum é atraído por sinais presentes nesse material. A espessura da cobertura pode modificar a retenção e a liberação dessas substâncias, mas faltam medições quantitativas ao longo de diferentes níveis de cobertura.
Os pesquisadores apontam lacunas em genética, fisiologia e ecologia. Ainda não há definição dos genes envolvidos na formação das escamas e no comportamento de cobertura. Também faltam comparações entre populações nativas e invasoras de Spodoptera frugiperda. Outra frente envolve a resposta da espessura às mudanças de temperatura, umidade e radiação ultravioleta.
Para o manejo integrado, a principal implicação envolve a necessidade de considerar a proteção real das massas de ovos durante a avaliação de parasitoides, microrganismos e inseticidas. A camada de escamas pode alterar a eficiência de ferramentas aplicadas antes da eclosão. O conhecimento dessa barreira pode orientar a seleção de agentes biológicos e o desenvolvimento de estratégias de aplicação mais compatíveis com as condições encontradas no campo (doi 10.1079/ab.2026.0053).
O estudo foi realizado por Hong-Yan Yan, Haneef Tariq, Adeney de Freitas Bueno, Nicolas Desneux e Lian-Sheng Zang.
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