Estatística é pilar para o posicionamento seguro de cultivares
Por Rafael de Queiroz Costa, Yasmim Dias de Souza, Jamile da Silva Oliveira Nunes, Greice Marques Barbosa e Jerusa Maia e Sá
Antes mesmo de a semente germinar, o solo já abriga fungos prontos para se associarem às raízes assim que elas se formam. Essa parceria, conhecida como micorriza arbuscular, é uma das relações mais antigas entre plantas e microrganismos, remontando a um período anterior ao surgimento das próprias raízes na história evolutiva das plantas, e vem ganhando espaço nas discussões sobre produtividade e sustentabilidade nos sistemas de grandes culturas, sobretudo pelo papel que exerce na absorção de fósforo e na tolerância das plantas à falta de água.
Na maioria das lavouras, essa associação já acontece de forma espontânea, muitas vezes sem que o produtor perceba, mas conhecer como ela funciona ajuda a entender por que certas decisões de manejo favorecem ou prejudicam a produtividade da safra.
Os fungos micorrízicos arbusculares (FMAs) colonizam as raízes e, em troca de açúcares produzidos pela fotossíntese, oferecem à planta algo que ela sozinha não conseguiria com a mesma eficiência: acesso a nutrientes e água em regiões do solo que as raízes jamais alcançariam. Essa troca não é um detalhe biológico curioso. Ela tem impacto direto no bolso do produtor, especialmente quando o assunto é fósforo, um dos nutrientes mais caros e mais mal aproveitados pelas lavouras brasileiras.
Para entender por que essa simbiose importa tanto, vale lembrar como funciona a absorção de nutrientes pela raiz. Ao redor de cada raiz existe uma fina camada de solo, chamada de zona de depleção, onde os nutrientes vão se esgotando à medida que a planta absorve. Alguns nutrientes, como o nitrato, se movem com facilidade pela água do solo e repõem essa zona rapidamente. O fósforo não. Ele fica preso a partículas de argila e a óxidos de ferro e alumínio, e se desloca tão devagar que a raiz sozinha esgota rapidamente o que está ao seu alcance imediato.
É aí que entram os FMAs. Quando colonizam a raiz, formam estruturas chamadas arbúsculos dentro das células corticais, verdadeiras interfaces onde nutrientes e carbono passam de um organismo para o outro. Ao mesmo tempo, o fungo lança para fora da raiz uma rede de filamentos extremamente finos, as hifas extrarradiculares, que se espalham pelo solo muito além de onde a raiz conseguiria chegar. Por serem muito mais finas que a menor raiz, essas hifas exploram poros do solo inacessíveis ao sistema radicular e captam fósforo além da zona que a raiz já esgotou.
Na prática, é como se a planta ganhasse um sistema radicular extra, ligado ao original, mas de alcance muito maior e mais eficiente na captura de fósforo. Levantamentos de campo indicam que essa rede de hifas pode ampliar em dezenas de vezes a área de solo explorada em busca do nutriente, o que se traduz em plantas mais bem nutridas mesmo em solos com baixa disponibilidade de fósforo, situação comum em boa parte dos solos tropicais e subtropicais brasileiros, naturalmente pobres nesse elemento e com alta capacidade de fixá-lo.
O papel da micorriza não se limita à nutrição. Em anos de veranico, ou em regiões onde a irrigação não é opção, a mesma rede de hifas que busca fósforo também ajuda a planta a lidar melhor com a falta de água, explorando poros finos do solo onde ainda existe umidade disponível e ampliando o volume de solo do qual a planta consegue extrair água indiretamente. Plantas colonizadas costumam apresentar ainda ajustes fisiológicos que reduzem o impacto do déficit hídrico, como maior capacidade de manter a turgescência das células e um sistema radicular mais ramificado, estimulado pela própria presença do fungo.
Some-se a isso um efeito indireto, mas igualmente importante, sobre a estrutura física do solo. As hifas produzem uma proteína chamada glomalina, que atua como uma espécie de cola natural, unindo partículas de solo em agregados estáveis. Solos bem agregados infiltram e retêm água com mais eficiência, resistem melhor à erosão e mantêm a porosidade necessária para as raízes respirarem. Em outras palavras, a associação micorrízica não protege a planta contra a seca apenas por dentro, ajudando na fisiologia do vegetal, mas também por fora, melhorando a própria capacidade do solo de armazenar água.
Nem todo manejo, porém, é amigo dessa parceria. Algumas práticas comuns em sistemas de produção intensivos acabam reduzindo a população natural de FMAs no solo, justamente quando mais se precisaria deles. O revolvimento intenso e frequente do solo rompe fisicamente a rede de hifas já estabelecida. Doses elevadas de adubo fosfatado solúvel reduzem o estímulo da planta para investir na simbiose, já que ela passa a ter fósforo disponível sem precisar do fungo. Períodos longos de solo descoberto, sem plantas hospedeiras vivas, também enfraquecem essa comunidade, assim como sequências de cultivo com espécies não hospedeiras, como as brássicas, ou pousios muito longos.
Por outro lado, o produtor que mantém plantas vivas no solo pelo maior tempo possível, com plantio direto e cobertura vegetal, cria condições para que os fungos sobrevivam e se propaguem de uma safra para a outra, já que dependem de uma raiz viva para isso. Uma adubação fosfatada equilibrada, ajustada pela real necessidade da cultura e pela análise de solo, em vez de doses generosas por precaução, também preserva o estímulo à simbiose. Em áreas degradadas, recém-desmatadas ou com histórico de monocultivo intenso, onde a comunidade nativa de fungos pode estar bastante reduzida, o uso de inoculantes à base de FMAs tem se mostrado uma ferramenta interessante para reconstituir essa população mais rapidamente.
Na prática, isso se traduz em decisões relativamente simples no dia a dia da propriedade: reduzir o revolvimento do solo sempre que possível, manter a rotação com espécies hospedeiras, evitar longos períodos de pousio sem cobertura viva e calibrar a adubação fosfatada pela análise de solo em vez de aplicar doses fixas por segurança. Nenhuma dessas medidas depende de investimento em equipamentos ou tecnologia sofisticada, e o retorno aparece de forma cumulativa, safra após safra, à medida que a comunidade de fungos se restabelece e passa a contribuir de forma mais consistente para a nutrição e a resiliência da lavoura.
O interesse crescente pelas micorrizas arbusculares em sistemas de grandes culturas não é modismo. Ele reflete uma mudança de olhar sobre como sustentar a produtividade sem depender cada vez mais de insumos externos. Em um cenário de custo elevado de fertilizantes fosfatados, boa parte deles importada, qualquer estratégia que melhore o aproveitamento do fósforo já presente no solo, ou reduza a dose necessária para atingir a mesma resposta produtiva, tem impacto direto na rentabilidade da lavoura. Em anos de câmbio desfavorável ou de instabilidade no fornecimento internacional de fosfatados, esse ganho de eficiência deixa de ser um detalhe agronômico e passa a pesar diretamente no planejamento financeiro da propriedade.
Some-se a isso a crescente instabilidade climática, com veranicos mais frequentes e distribuição de chuva menos previsível, e fica claro por que a resiliência que essa simbiose proporciona diante do estresse hídrico interessa tanto à pesquisa quanto ao produtor.
Um sistema de produção que conserva e estimula sua comunidade nativa de fungos micorrízicos está, na prática, construindo um seguro biológico contra dois dos maiores gargalos da agricultura brasileira: solos pobres em fósforo disponível e irregularidade climática.
Cuidar dessa parceria não exige tecnologia cara nem manejo complexo. Exige, sobretudo, entender que o solo é um sistema vivo, e que parte da produtividade que aparece na lavoura vem de uma rede de fungos trabalhando silenciosamente, quilômetros de hifas por metro quadrado, ampliando o alcance de cada raiz muito além do que os olhos conseguem ver.
* Por Alieze Nascimento da Silva, Monalisa Eli Fernandes Guerreiro, João Guilhermi Freire Paz, Bruna Jikowski, Maria Antônia Lacourt e José Luis Trevisan Chiomento (UPF)
Artigo publicado na Revista Cultivar Grandes Culturas 326
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