Stenocarpella maydis (Berk.) Sutton, anteriormente conhecida como Diplodia maydis (Berk.) Sacc. ou Diplodia zeae (Schwein.) Lév., é o agente causal da podridão branca da espiga (também chamada de diplodiose ou Diplodia ear rot) e da podridão de colmo no milho (Zea mays L.). Essa doença representa uma das principais limitações fitossanitárias à cultura do milho em diversas regiões produtoras do mundo, incluindo o Brasil, onde sua importância tem crescido em sistemas de plantio direto e monocultura. O fungo causa perdas diretas de rendimento pela redução do peso e da qualidade dos grãos.
No Brasil, Stenocarpella maydis ocorre nas principais regiões produtoras de milho, especialmente no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, frequentemente associada a Stenocarpella macrospora (Earle) Sutton em condições tropicais. A doença é favorecida por sistemas de manejo que mantêm resíduos de cultura na superfície do solo e por safras com períodos prolongados de umidade durante o florescimento e o enchimento de grãos. Os danos não se limitam à espiga: o patógeno também causa tombamento de plântulas, podridão de colmo e manchas foliares em algumas condições, ampliando seu impacto econômico e exigindo estratégias de manejo integrado.
Taxonomia e histórico
Stenocarpella maydis pertence ao Reino Fungi, Filo Ascomycota, Subfilo Pezizomycotina, Classe Sordariomycetes, Ordem Diaporthales e Família Diaporthaceae. O gênero Stenocarpella foi proposto por Sutton na década de 1970 para acomodar espécies anteriormente classificadas em Diplodia, com base em características morfológicas dos conídios - extremidades arredondadas e septação variável (0 a 2 septos) -, que diferem das extremidades truncadas típicas de muitas espécies de Diplodia.
A espécie foi originalmente descrita por Berkeley em 1847 como Sphaeria maydis, posteriormente transferida para Diplodia maydis por Saccardo e para Diplodia zeae por Léveillé. Estudos moleculares filogenéticos confirmaram sua posição em Diaporthaceae e a ausência de fase sexuada conhecida (teleomorfo). Não há registro de ascosporos ou estruturas sexuadas em condições naturais ou de laboratório, reforçando seu caráter predominantemente assexuado, embora evidências de possível recombinação críptica tenham sido sugeridas em estudos populacionais.
Biologia
Stenocarpella maydis é um fungo necrótrofo que alterna fase parasitária na planta viva e fase saprofítica em resíduos de cultura. O micélio é branco a cinza-claro, cotonoso, e coloniza tecidos da espiga, colmo e raízes. As estruturas reprodutivas assexuadas são picnídios globosos, pretos, erumpentes ou parcialmente imersos em resíduos de colmos, sabugos e grãos infectados. No interior dos picnídios, formam-se conídios (picnidiósporos) hialinos a castanho-claros, cilíndricos a fusiformes, com extremidades arredondadas e 0-2 septos, que são liberados em cirros gelatinosos durante períodos úmidos. Esses conídios constituem o principal inóculo primário.
O ciclo inicia-se com a sobrevivência do fungo como micélio e picnídios em resíduos de milho deixados na superfície ou parcialmente incorporados ao solo. Sob condições de umidade e temperatura favoráveis (geralmente entre 20 e 30 °C), os picnídios liberam conídios que são disseminados principalmente por respingos de chuva ou irrigação por aspersão, com contribuição secundária do vento e possivelmente de insetos. A infecção da espiga ocorre predominantemente durante o período de florescimento feminino, desde o início do aparecimento das sedas até aproximadamente três semanas após o início da senescência das sedas. Os conídios germinam nas sedas ou penetram diretamente pelas brácteas na base da espiga, colonizando os grãos da base em direção ao ápice. O micélio branco torna-se visível entre os grãos, que perdem peso, encolhem e adquirem coloração opaca ou acinzentada. Posteriormente, formam-se picnídios pretos salientes na superfície dos grãos, sabugo e palhas, conferindo aspecto característico à espiga infectada.
Além da infecção via espiga, Stenocarpella maydis pode ser transmitido por sementes infectadas (interna ou externamente), colonizando o mesocótilo, coroa e colmo de plântulas, resultando em tombamento ou infecções sistêmicas posteriores. O fungo também produz micotoxinas.
Bionomia e ecologia
A epidemiologia de Stenocarpella maydis é fortemente influenciada pelo manejo da cultura e pelas condições climáticas. O inóculo primário origina-se principalmente de resíduos de milho da safra anterior. Estudos demonstram que a sobrevivência do fungo é significativamente maior quando os resíduos permanecem na superfície do solo (até 11–17 meses com viabilidade de conídios), comparada à incorporação profunda, onde a decomposição e a atividade microbiana reduzem a viabilidade mais rapidamente. Essa característica explica o aumento da incidência da doença em sistemas de plantio direto e monocultura contínua de milho, práticas amplamente adotadas no Brasil.
A transmissão por sementes foi comprovada experimentalmente, com taxas que podem ultrapassar 90 % sob condições ótimas de temperatura (25 °C) e alto potencial de inóculo, variando conforme a cultivar e o isolado. A infecção secundária dentro da lavoura é limitada, pois o patógeno depende basicamente de inóculo externo trazido pela chuva; no entanto, em anos com chuvas frequentes durante o florescimento e enchimento de grãos, a doença pode se espalhar rapidamente. Condições de alta umidade relativa e períodos prolongados de molhamento foliar ou de brácteas favorecem a germinação de conídios e a colonização. Temperaturas amenas a quentes durante a fase reprodutiva do milho são ideais.
Ecologicamente, Stenocarpella maydis apresenta alta especificidade por Zea mays. Estudos de hospedeiros demonstram que a maioria das plantas cultivadas não é suscetível ou é apenas hospedeira pobre, reforçando o papel da rotação de culturas como ferramenta de manejo. No Brasil, a doença está presente em quase todas as regiões produtoras de milho, com maior frequência de S. maydis nas regiões subtropicais do Sul e de S. macrospora em áreas mais tropicais. A interação com outros patógenos de espiga, como espécies de Fusarium, pode agravar perdas de qualidade e aumentar o risco de contaminação por múltiplas micotoxinas. Além do impacto agronômico direto (redução de rendimento e peso hectolitro), a contaminação por micotoxinas impõe restrições ao uso de grãos e palha na alimentação animal, gerando prejuízos adicionais à cadeia produtiva.
Controle do fungo
O manejo de Stenocarpella maydis deve ser integrado, combinando práticas culturais, genéticas e, quando viável, químicas e biológicas. A rotação de culturas com espécies não hospedeiras (soja, feijão, algodão, pastagens) é uma das medidas mais eficazes para reduzir o inóculo residual. Evitar a monocultura contínua de milho diminui significativamente a pressão da doença em safras subsequentes.
O manejo de resíduos é crítico: em sistemas de plantio direto, recomenda-se a utilização de cultivares com boa tolerância, associada a práticas que acelerem a decomposição dos resíduos (ex.: rolo-faca em momento adequado, manutenção de cobertura viva ou uso de microrganismos decompositores). O preparo convencional do solo com incorporação profunda dos resíduos reduz a sobrevivência do fungo, mas deve ser avaliado em função dos benefícios da conservação do solo.
O uso de cultivares tolerantes ou resistentes constitui a base do manejo genético. Embora a resistência completa seja rara, híbridos com boa tolerância à podridão de espiga e de colmo estão disponíveis no mercado brasileiro e devem ser priorizados em áreas de histórico da doença. O tratamento de sementes com fungicidas sistêmicos pode reduzir o tombamento de plântulas originado de transmissão via semente, embora sua eficácia contra infecções tardias da espiga seja limitada. Fungicidas foliares aplicados no estádio de florescimento apresentam eficácia variável e geralmente não são economicamente viáveis como medida isolada para controle de podridão de espiga; seu uso deve ser integrado a outras práticas e direcionado também ao controle de outras doenças.
A colheita no momento ideal de maturidade fisiológica, seguida de secagem rápida dos grãos até umidade inferior a 14 %, impede o desenvolvimento pós-colheita do fungo e a acumulação adicional de micotoxinas. Grãos infectados devem ser separados e destinados preferencialmente a usos não alimentares ou tratados termicamente quando possível. O monitoramento de campos no final do ciclo e a análise laboratorial de lotes de grãos destinados à alimentação animal são recomendados para evitar problemas de diplodiose.
Controle biológico com antagonistas (ex.: isolados de Trichoderma spp. ou bactérias promotoras de crescimento) tem mostrado resultados promissores em pesquisas, mas ainda carece de formulações comerciais consolidadas para uso em larga escala no Brasil. O manejo integrado, adaptado às condições locais de cada região produtora, permanece a estratégia mais sustentável e eficaz a longo prazo.