O inseto Sphenophorus levis Vaurie, 1978 constitui uma das principais pragas de solo da cana-de-açúcar no Brasil, com destaque para as regiões produtoras de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. Seus nomes comuns incluem bicudo-da-cana-de-açúcar, bicudo da cana, sugarcane weevil e sugarcane billbug.
A espécie foi descrita por Patricia Vaurie em 1978 com base em exemplares coletados no Brasil. Pertence à ordem Coleoptera, família Curculionidae, e integra o gênero Sphenophorus, que compreende mais de 130 espécies distribuídas mundialmente, muitas associadas a gramíneas. Não apresenta sinônimos taxonômicos conhecidos. Sua distribuição geográfica restringe-se à América do Sul, com registros na Argentina, Paraguai e Brasil. Os primeiros relatos de danos no Brasil datam do final da década de 1970, na região de Piracicaba (SP). Desde então, a praga expandiu-se acompanhando a expansão da cultura e a adoção generalizada da colheita mecanizada sem queima, que mantém palhada sobre o solo e cria microambientes favoráveis à sobrevivência dos adultos.
A biologia de Sphenophorus levis é holometábola, com adultos longevos e larvas como principal estágio causador de dano. Os adultos medem entre 7,7 e 13,3 mm de comprimento, apresentam coloração avermelhada com três listras pretas no pronoto e rostro proporcional ao pronoto. São predominantemente noturnos ou crípticos, permanecendo no solo, sob palhada ou na base das touceiras durante o dia. Os machos emitem o feromônio de agregação 2-metil-4-octanol, que atrai ambos os sexos. O acasalamento pode ocorrer múltiplas vezes ao longo da vida do adulto. As fêmeas ovipõem em cavidades escavadas nos rizomas, abaixo do nível do solo, depositando em média 40 a 70 ovos por fêmea durante o período de oviposição. Os ovos são elípticos, branco-cremosos, medindo 1 a 2,3 mm. A incubação dura de 7 a 12 dias. As larvas, ao eclodirem, perfuram e escavam galerias extensas no interior dos rizomas, alimentando-se de tecidos de reserva e vasculares. O desenvolvimento larval compreende cinco instares e dura aproximadamente 30 a 60 dias, dependendo das condições. Larvas maduras constroem câmara pupal dentro do rizoma; o estágio pupal dura de 5 a 13 dias (média de 10,5 dias em laboratório). Os adultos emergem através de orifícios que conectam as galerias internas ao exterior.
Estudos de bionomia revelam que Sphenophorus levis apresenta dispersão relativamente lenta (cerca de 5 a 6 metros por mês em condições tradicionais) e distribuição espacial agregada, formando reboleiras. A longevidade dos adultos permite que uma geração se sobreponha parcialmente à seguinte. Parâmetros reprodutivos e de desenvolvimento foram detalhados em condições de campo e dieta artificial, fornecendo subsídios para modelos populacionais e tomada de decisão. A espécie era historicamente considerada de baixa mobilidade aérea, com dispersão passiva predominante via transporte de mudas ou soqueiras infestadas; no entanto, registros recentes de campo demonstraram voo ativo, com deslocamentos verticais de cerca de 10 metros e horizontais de 30 metros, o que pode alterar estratégias de contenção de focos.
Ecologicamente, Sphenophorus levis está intimamente associado ao sistema radicular da cana-de-açúcar e a gramíneas silvestres relacionadas. O dano concentra-se principalmente na estação seca (junho a agosto no Centro-Sul brasileiro), quando as larvas destroem rizomas de soqueiras, provocando morte de plantas, falhas no rebroto e redução da longevidade do canavial. Existe correlação direta e linear entre intensidade de dano e perda de produtividade: cada 1% de aumento no dano aos rizomas corresponde a aproximadamente 1% de redução na produtividade, com diminuições de 0,318% no peso dos colmos e 0,68% no número de perfilhos gerados pelos rizomas. Cerca de 90% dos orifícios de saída ou oviposição localizam-se abaixo da superfície do solo, o que facilita a entrada de inimigos naturais, especialmente nematoides entomopatogênicos. Steinernema carpocapsae ocorre naturalmente infectando pupas de Sphenophorus levis no interior dos rizomas, alcançando até 60% de mortalidade. A colheita crua favorece a praga ao manter cobertura de palhada, que abriga adultos e modera as condições microclimáticas do solo. A praga interage ainda com outros organismos do solo, incluindo fungos entomopatogênicos como Beauveria bassiana.
O controle de Sphenophorus levis é considerado difícil e exige abordagem integrada. Medidas culturais incluem o uso exclusivo de mudas sadias e a evitar o transporte de material vegetativo infestado entre áreas. O monitoramento baseia-se em planos de amostragem por “toco atacado” (escavação do solo ao redor da touceira em direção ao sulco) e na porcentagem de tocos com galerias ou orifícios; limiares econômicos variam conforme sistema de produção (irrigado ou sequeiro) e tipo de controle. O controle biológico utiliza nematoides entomopatogênicos (Steinernema carpocapsae e Steinernema rarum), recomendados para aplicação logo após a colheita, explorando os orifícios naturais dos rizomas para alcançar larvas e pupas protegidas. Beauveria bassiana também é estudado, com avaliações de compatibilidade com produtos químicos. O controle químico depende de inseticidas registrados aplicados mecanicamente ao redor das touceiras no momento do corte de soqueira. Entretanto, a eficácia costuma ser baixa em razão da tecnologia de aplicação (dificuldade de deposição adequada no solo e rizomas), do hábito noturno ou críptico dos adultos e da proteção conferida às larvas pelo interior dos rizomas. Estudos indicam que aplicações em formulação sólida e o aumento de dose podem elevar significativamente a mortalidade de adultos (atingindo cerca de 77% em algumas condições, contra menos de 53-59% com doses registradas e aplicações líquidas convencionais). A rotação de ingredientes ativos (exemplos: lambda-cialotrina + tiametoxam, imidacloprida, tiodicarbe, fipronil) é fundamental para retardar a possível evolução de resistência, uma vez que o uso continuado de uma mesma molécula favorece seleção de indivíduos tolerantes. Feromônios de agregação oferecem potencial para monitoramento ou mesmo estratégias de atração e morte, embora ainda pouco explorados em larga escala.
A literatura científica sobre Sphenophorus levis avançou consideravelmente nas últimas décadas, fornecendo bases sólidas para o manejo integrado. Entre os trabalhos fundamentais, destaca-se Degaspari et al. (1987), que descreveu detalhadamente a biologia da praga em dieta artificial e em campo, incluindo morfologia dos estágios imaturos, duração do ciclo, fecundidade e dispersão; o estudo forneceu parâmetros essenciais que ainda servem de referência para pesquisas atuais (DOI: 10.1590/S1678-3921.pab1987.v22.14389).
Casteliani et al. (2020) quantificaram com precisão a relação dano-produtividade e documentaram que quase 90% dos orifícios nos rizomas localizam-se abaixo do solo, além de registrarem infecção natural por Steinernema carpocapsae com mortalidade pupal de até 60%, apontando para o potencial do controle biológico pós-colheita (DOI: 10.1016/j.cropro.2020.105262).
Ferreira et al. (2023) avaliaram o comportamento de adultos frente a uma dose registrada de lambda-cialotrina + tiametoxam, constatando ausência de atração ou repelência e padrão claro de atividade noturna e localização no solo ou palhada; os autores explicam assim a baixa eficácia de aplicações diurnas convencionais e reforçam a necessidade de ajustes na tecnologia de aplicação (DOI: 10.3390/insects14020205).
Faria et al. (2024) desenvolveram uma dieta artificial multidimensional otimizada para a criação de imaturos em laboratório, superando limitações de formulações anteriores e viabilizando estudos controlados de biologia, testes de resistência e avaliação de agentes de controle (DOI: 10.3390/insects15120944).
Silva et al. (2021) avaliaram o potencial de Steinernema rarum como agente de biocontrole, incluindo capacidade de busca do hospedeiro, compatibilidade com vinhaça e produção in vivo, demonstrando viabilidade técnica como alternativa sustentável ao controle químico em sistemas de cana (DOI: 10.3390/agriculture11060500).
No que se refere à resistência a pesticidas, embora estudos específicos sobre mecanismos moleculares (como mutações em canais de sódio ou enzimas de detoxificação) ainda sejam escassos para Sphenophorus levis, diversos trabalhos relevantes abordam a eficácia real de inseticidas em campo, as limitações que podem favorecer doses subletais e as estratégias de manejo para prevenir ou retardar a evolução de resistência.
Ferreira et al. (2023), já citado, demonstra que o comportamento dos adultos (ausência de resposta comportamental ao inseticida e atividade noturna) reduz drasticamente a exposição efetiva, criando condições propícias para seleção de tolerância (DOI: 10.3390/insects14020205). O trabalho de Ferreira e colaboradores sobre aplicações sólidas versus líquidas e aumento de dose (2024) mostrou que formulações sólidas e doses superiores às registradas elevam a mortalidade de adultos de aproximadamente 53-59% para até 76,7%, evidenciando que as doses e tecnologias atuais frequentemente resultam em controle insuficiente, o que pode acelerar o desenvolvimento de resistência se não houver rotação adequada (DOI: 10.21203/rs.3.rs-4018984/v1).
Estudos de campo como os conduzidos por Alencar (2016) testaram diferentes ingredientes ativos e épocas de aplicação no corte de soqueira, registrando em vários casos ausência de diferença estatística em relação à testemunha para variáveis como número de larvas e pupas, e alertaram explicitamente para o risco de evolução de resistência decorrente do uso continuado de uma mesma molécula química. Pesquisas sobre compatibilidade de Beauveria bassiana com inseticidas registrados contra Sphenophorus levis (Polanczyk et al., dados recentes) destacam a eficácia reduzida dos produtos químicos em condições de campo e enfatizam a necessidade imperativa de rotação de modos de ação para preservar a suscetibilidade da população e integrar estratégias biológicas.
Por fim, trabalhos que avaliam misturas como tiodicarbe + imidacloprida ou lambda-cialotrina + tiametoxam em diferentes formulações reforçam que a baixa deposição no alvo e a proteção conferida pelo hábito críptico das larvas limitam o controle, tornando essencial o manejo de resistência por rotação e o aprimoramento da tecnologia de aplicação para evitar pressão seletiva desnecessária sobre a praga.