Pratylenchus brachyurus

23.01.2026 | 14:47 (UTC -3)
Foto: Jonathan D Eisenback, Virginia State University
Foto: Jonathan D Eisenback, Virginia State University

Pratylenchus brachyurus é um dos principais desafios fitossanitários da agricultura contemporânea, especialmente em regiões tropicais e subtropicais. Este nematoide fitoparasita, descrito originalmente por Godfrey em 1929 no Havaí, transcendeu suas origens geográficas para se tornar um problema de dimensão global, afetando culturas de importância econômica fundamental e causando perdas significativas na produtividade agrícola.

Taxonomia

Taxonomicamente, Pratylenchus brachyurus pertence ao filo Nematoda, classe Chromadorea, ordem Tylenchida, família Pratylenchidae. A nomenclatura específica "brachyurus", derivada do grego para "cauda curta", reflete uma característica morfológica distintiva que facilitou sua identificação inicial. Desde sua descrição em abacaxi no Havaí, este patógeno expandiu-se geograficamente de forma impressionante, um fenômeno intimamente relacionado à globalização do comércio agrícola e ao movimento de material vegetal contaminado.

No contexto brasileiro, a relevância de P. brachyurus intensificou-se a partir da década de 1990, coincidindo com a expansão da fronteira agrícola no Cerrado. A transformação de áreas de vegetação nativa em sistemas de monocultura intensiva criou condições ideais para o estabelecimento e proliferação deste nematoide. Atualmente, está presente em todas as principais regiões produtoras do país, desde o Sul até o Norte, consolidando-se como um dos principais nematoides da soja brasileira e afetando significativamente outras culturas como algodão, milho, café e cana-de-açúcar.

Biologia e ciclo de vida

A biologia de Pratylenchus brachyurus revela notável adaptação ao parasitismo vegetal. Seu ciclo de vida, completado em 20 a 45 dias dependendo das condições ambientais, confere-lhe capacidade de rápida multiplicação. O desenvolvimento passa por estágios bem definidos: ovo, quatro estágios juvenis e adulto, sendo que a primeira muda ocorre ainda dentro do ovo. Uma característica particularmente relevante do ponto de vista epidemiológico é que todos os estágios juvenis e adultos são móveis e infectivos, ampliando o potencial de colonização radicular.

A reprodução predominantemente partenogenética mitótica representa uma vantagem evolutiva significativa, permitindo que uma única fêmea estabeleça populações viáveis sem a necessidade de machos. Com capacidade de produzir 50 a 150 ovos durante seu ciclo de vida, uma população inicial pode crescer exponencialmente em condições favoráveis, com fatores de reprodução que podem alcançar 100 vezes em cultivos sucessivos de hospedeiros suscetíveis.

O comportamento como endoparasita migrador diferencia P. brachyurus de outros nematoides economicamente importantes. Ao contrário de espécies sedentárias como Meloidogyne, que estabelecem sítios permanentes de alimentação, P. brachyurus move-se continuamente através do córtex radicular. Esta mobilidade constante, combinada com a alimentação destrutiva, resulta em extensas lesões necróticas que comprometem severamente a funcionalidade do sistema radicular.

Ecologia e distribuição

Embora apresente preferências por temperaturas entre 25°C e 30°C e solos de textura arenosa a média, Pratylenchus brachyurus demonstra capacidade de sobrevivência em condições variadas. Esta flexibilidade ecológica explica parcialmente sua ampla distribuição geográfica e a diversidade de ambientes agrícolas que coloniza.

Os fatores edafoclimáticos exercem influência determinante sobre as populações do nematoide. A temperatura não apenas afeta a velocidade do ciclo de vida, mas também influencia a atividade de movimentação e alimentação. A umidade do solo é particularmente crítica, uma vez que o nematoide requer filme de água para locomoção. Períodos de seca prolongada podem reduzir populações, embora o organismo possua mecanismos de quiescência que permitem sobrevivência em condições adversas.

A dispersão de P. brachyurus ocorre por múltiplas vias, sendo a movimentação de equipamentos agrícolas com solo aderido o principal vetor de disseminação a longas distâncias. Esta realidade torna o manejo preventivo, incluindo limpeza de maquinário, fundamental para evitar a introdução do nematoide em áreas indenes. A dispersão natural por movimentação ativa é limitada a poucos centímetros por safra, mas água de irrigação e erosão podem transportar nematoides a distâncias consideráveis dentro de uma propriedade.

A ampla gama de hospedeiros constitui outro aspecto ecológico crucial. P. brachyurus parasita não apenas culturas comerciais, mas também numerosas plantas daninhas que atuam como hospedeiros alternativos entre safras. Esta característica dificulta significativamente o controle através de pousio ou rotação inadequada, pois a vegetação espontânea pode manter e até ampliar populações do patógeno.

Etiologia e patogênese

A atração de Pratylenchus brachyurus às raízes ocorre por gradientes químicos, incluindo CO₂ e exsudatos radiculares específicos. A penetração ocorre preferencialmente em tecidos mais tenros, como a zona de alongamento ou pontos de emergência de raízes laterais, onde a combinação de movimentos mecânicos do corpo e secreção de enzimas hidrolíticas facilita a invasão.

Uma vez no interior da raiz, o nematoide inicia sua migração destrutiva através do córtex. O estilete é repetidamente inserido nas células, e enzimas digestivas são secretadas através das glândulas esofagianas. Esta alimentação contínua causa ruptura de membranas celulares, desorganização tecidual e morte celular progressiva. O trajeto de migração torna-se visível como lesões necróticas de coloração marrom-avermelhada a escura, sintoma característico que dá nome ao gênero "nematoide-das-lesões-radiculares".

Os danos primários ao sistema radicular desencadeiam uma cascata de consequências fisiológicas. A redução da área funcional de absorção compromete a captação de água e nutrientes, refletindo-se em sintomas secundários na parte aérea: clorose foliar, nanismo, murcha em períodos de maior demanda evapotranspirativa e redução geral do vigor. Em casos severos, pode ocorrer maturação precoce e perdas substanciais de produtividade.

A interação de P. brachyurus com outros patógenos merece atenção especial. As lesões radiculares funcionam como portas de entrada para fungos como Fusarium, Macrophomina phaseolina e Rhizoctonia solani, criando complexos de doenças sinérgicos onde os danos combinados superam largamente aqueles que cada patógeno causaria isoladamente. Esta interação patogênica complexa frequentemente dificulta o diagnóstico e complica as estratégias de manejo.

Dinâmica populacional

A densidade populacional inicial, a suscetibilidade do hospedeiro, as condições ambientais e as práticas de manejo determinam coletivamente a trajetória populacional de Pratylenchus brachyurus ao longo de uma safra. Em cultivos sucessivos de hospedeiros favoráveis sem intervenção adequada, as populações tendem ao crescimento exponencial até atingirem capacidade de suporte determinada por fatores limitantes.

Os limiares de dano econômico variam conforme a cultura, cultivar e condições ambientais. Para a soja, populações acima de 20 a 40 nematoides por 100 cm³ de solo são geralmente consideradas preocupantes. Entretanto, estes valores devem ser interpretados com cautela, pois condições de estresse abiótico podem potencializar os danos mesmo em densidades menores, enquanto condições ótimas de cultivo podem mitigar parcialmente os efeitos de populações mais elevadas.

Fatores abióticos

A presença de P. brachyurus potencializa significativamente os efeitos de estresses abióticos. Em condições de déficit hídrico, por exemplo, plantas com sistema radicular comprometido pelo nematoide sofrem estresse hídrico mais severo e precoce que plantas sadias. Similarmente, deficiências nutricionais são agravadas pela redução da capacidade de absorção radicular. Esta interação entre estresses bióticos e abióticos é particularmente relevante em sistemas de produção sob condições marginais ou em regiões sujeitas a irregularidades climáticas.

A compactação do solo representa outro fator que interage negativamente com o parasitismo por P. brachyurus. Sistemas radiculares já comprometidos pelo nematóide enfrentam dificuldade adicional para penetrar camadas compactadas, resultando em exploração limitada do perfil de solo e maior vulnerabilidade a estresses hídricos e nutricionais.

Desafios de manejo

A ausência de resistência comercial completa na maioria das culturas, a ampla gama de hospedeiros incluindo plantas daninhas, a capacidade de sobrevivência em restos culturais e a rápida taxa de reprodução limitam a eficácia de estratégias isoladas de manejo. O controle efetivo requer abordagens integradas que combinem múltiplas táticas.

A rotação de culturas, embora fundamental, encontra limitações práticas. A identificação de espécies verdadeiramente não hospedeiras ou más hospedeiras é crucial, mas a lista de opções economicamente viáveis é restrita. Algumas gramíneas como braquiárias e milheto apresentam potencial, mas a eficácia varia entre cultivares e condições. Crotalárias, tradicionalmente recomendadas para manejo de nematoides, apresentam respostas variáveis frente a P. brachyurus, com algumas espécies sendo até hospedeiras favoráveis.

O uso de nematicidas químicos, embora eficaz na redução populacional, enfrenta restrições crescentes devido a preocupações ambientais, custos elevados e pressões regulatórias. Alternativamente, o controle biológico com fungos nematófagos, bactérias antagonistas e outros agentes de biocontrole tem mostrado resultados promissores em pesquisas, mas a consistência de desempenho em condições de campo ainda representa um desafio.

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