Pochonia chlamydosporia

05.06.2026 | 07:50 (UTC -3)
Foto: Yunfan Zhou, Limei Yang, Shengtao Xu, Shu Li, Li Zeng, Hui Shang, Xundong Li, Huacai Fan e Si-Jun Zheng - CC BY 4.0
Foto: Yunfan Zhou, Limei Yang, Shengtao Xu, Shu Li, Li Zeng, Hui Shang, Xundong Li, Huacai Fan e Si-Jun Zheng - CC BY 4.0

Pochonia chlamydosporia (Goddard) Zare & W. Gams é um fungo ascomiceto filamentoso da família Clavicipitaceae (ordem Hypocreales) amplamente estudado como agente de controle biológico de nematoides parasitas de plantas.

Originalmente descrito em 1913 por Goddard como Verticillium chlamydosporium, o táxon passou por revisões: transferido para Diheterospora chlamydosporia por Barron & Onions em 1966 e, em 2001, reclassificado para o gênero Pochonia por Zare & W. Gams com base em dados moleculares e morfológicos que evidenciaram sua posição filogenética distinta entre os fungos nematófagos.

Sob o princípio “um fungo, um nome”, Pochonia prevaleceu sobre propostas posteriores como Metacordyceps chlamydosporia. O gênero atualmente é restrito a um clado monofilético com Pochonia chlamydosporia como espécie-tipo. Reconhecem-se variedades como var. chlamydosporia (principal para nematoides) e var. catenulata, além de táxons descritos posteriormente (ex.: var. spinulospora). Isolados de diferentes hospedeiros nematoides (cistos vs. galhas) frequentemente não formam anastomoses e são considerados biótipos distintos, identificáveis por sequências do gene da subtilisina VCP1.

Não existem nomes comuns populares consolidados para Pochonia chlamydosporia. Na literatura e no comércio é referido como fungo nematófago parasita de ovos, fungo oviparasita ou, no contexto de produtos formulados, como bionematicida à base de Pochonia chlamydosporia.

A biologia de Pochonia chlamydosporia é marcada pelo hábito facultativo. O fungo produz conídios hialinos, globosos a subglobosos, em fiálides verticiladas que formam cabeças ou cadeias curtas, e clamidósporos dictioides (ou dictioclamidósporos) de paredes espessas e multicelulares, amarelados, que funcionam como estruturas de resistência e sobrevivência no solo. Colônias em meio de cultura são brancas a amareladas, de crescimento relativamente lento (cerca de 0,3 cm/dia a 25 °C). Pochonia chlamydosporia cresce saprofiticamente sobre matéria orgânica, coloniza a rizosfera de plantas (Gramíneas, Solanáceas, entre outras) e comporta-se como endófito radicular sem causar danos ao hospedeiro vegetal. Estudos genômicos e de secretoma revelam um repertório expandido de enzimas hidrolíticas (proteases S8 e S10, quitinases GH18, carboxipeptidases) e proteínas efetoras secretadas, essenciais para a degradação da casca quitino-proteica dos ovos de nematoides. O gene VCP1 (subtilisina) é marcador de virulência e de biótipos. Análises comparativas entre isolados de nematoides-de-galha (Meloidogyne) e de cisto mostram diferenças em elementos transponíveis, famílias gênicas e respostas transcriptômicas sob estresse nutricional, indicando adaptação evolutiva ao estilo de vida multitrófico (saprofítico, parasita de ovos e endofítico). Duplicações gênicas (ex.: GH30) e sinais de transferência horizontal de genes bacterianos reforçam a capacidade de transição entre modos de nutrição.

Na bionomia, o ciclo está sincronizado com a presença de ovos de nematoides sedentários endoparasitas. Clamidósporos germinam no solo úmido, o micélio cresce saprofiticamente ou na rizosfera utilizando exsudatos radiculares e, ao encontrar ovos (ou, em menor escala, fêmeas), forma apressórios ou hifas de penetração. Enzimas secretadas degradam a casca; o fungo coloniza o conteúdo do ovo e produz novos propágulos (conídios e clamidósporos). A produção abundante de clamidósporos é fundamental para a persistência no solo por meses e para formulações comerciais viáveis. Diferentes isolados apresentam preferência por hospedeiros nematoides específicos (biótipos), com virulência variável in vitro e em casa de vegetação. A densidade de inóculo, a proximidade de ovos e as condições edáficas determinam a taxa de parasitismo, que pode variar de 10 % a mais de 70 % dependendo do sistema.

Ecologicamente, Pochonia chlamydosporia é cosmopolita e frequente em solos supressivos naturais a nematoides. Sua atividade depende de temperatura (ótima em torno de 20–28 °C), pH (geralmente neutro a levemente ácido), umidade e, especialmente, teor de matéria orgânica, que favorece sobrevivência e atividade saprofítica. É competente na rizosfera e endofítica em raízes de culturas como tomateiro, batata, soja e hortaliças, promovendo crescimento vegetal (possivelmente via produção de hormônios ou facilitação de absorção de nutrientes) e induzindo resistência sistêmica induzida (ISR) contra nematoides e outros patógenos. Em sistemas de produção sustentável e orgânica, Pochonia chlamydosporia tende a ser a espécie fúngica dominante ou única isolada de ovos de Meloidogyne, contribuindo significativamente para a supressividade do solo. Em solos estéreis ou com menor diversidade microbiana, sua ação é reduzida, evidenciando interações com a microbiota nativa. O fungo compete moderadamente no solo bulk, mas beneficia-se da proteção e nutrientes da rizosfera.

No controle de pragas, Pochonia chlamydosporia é empregado como agente de biocontrole de nematoides parasitas de plantas, especialmente Meloidogyne incognita, Meloidogyne javanica, Heterodera spp., Globodera spp. e, em menor escala, Nacobbus e Rotylenchulus. Formulações baseadas em clamidósporos (granulados, pó umectável ou tratamento de sementes) são incorporadas ao solo, aplicadas via irrigação ou tratadas em sementes. A eficácia varia (reduções de 30–80 % em populações de ovos e juvenis, menor formação de galhas) conforme isolado, dose, cultura, densidade inicial do nematoide e condições ambientais. Além do parasitismo direto de ovos, o fungo reduz a infectividade de juvenis e promove saúde radicular e crescimento da planta.

No Brasil, produtos comerciais contendo Pochonia chlamydosporia estão registrados para diversas culturas e contribuem para o manejo sustentável, especialmente em hortaliças, soja e algodão, onde nematoides de galha causam perdas significativas. Desafios incluem variabilidade de desempenho em campo, necessidade de inóculo de alta qualidade e viabilidade, e integração em programas de manejo integrado de pragas (MIP). Estudos de compatibilidade mostram que, embora sensível in vitro a vários agroquímicos, o fungo frequentemente sobrevive, coloniza raízes e solo, e mantém atividade nematicida em condições de casa de vegetação quando combinado com fungicidas, inseticidas ou nematicidas químicos, permitindo uso conjunto em sistemas convencionais.

A seleção de isolados deve considerar critérios integrados: produção de clamidósporos, virulência contra alvos específicos, capacidade de colonização radicular e desempenho em campo. Avanços genômicos e moleculares permitem identificar marcadores de virulência e biótipos, otimizando o desenvolvimento de produtos mais consistentes.

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