Mycosphaerella fijiensis

12.03.2025 | 14:46 (UTC -3)
Foto: Luadir Gasparotto
Foto: Luadir Gasparotto

O fungo Mycosphaerella fijiensis causa a doença conhecida como sigatoka-negra. Além desse nome, ela também é popularmente chamada de "mancha-preta" ou "mal-do-Panamá das folhas" (embora este último induza confusão com outra doença grave da bananeira).

Culturas atacadas

O principal alvo do fungo Mycosphaerella fijiensis são as plantas do gênero Musa, que incluem as variedades de banana e plátano cultivadas comercialmente. As principais espécies afetadas são:

  • Musa acuminata e híbridos
  • Musa balbisiana e híbridos

Essa doença ocorre em praticamente todas as regiões tropicais e subtropicais onde a bananeira é cultivada, sendo especialmente devastadora em áreas com alta umidade relativa e temperaturas amenas.

Sintomas

Os sintomas da sigatoka-negra são facilmente identificáveis nas folhas das bananeiras.

Eles se manifestam em estágios progressivos:

  • Estágio inicial: surgem pequenas manchas escuras ou avermelhadas nas folhas.
  • Estágio intermediário: as manchas aumentam de tamanho, tornando-se alongadas e com bordas amareladas ou marrons.
  • Estágio avançado: as lesões tornam-se necróticas (pretas), levando à morte dos tecidos foliares. A área afetada pode se romper, formando orifícios nas folhas.
  • Impacto geral: a redução da área foliar prejudica a fotossíntese, comprometendo o crescimento da planta, o peso dos frutos e a qualidade da colheita.

Em casos graves, a sigatoka-negra pode causar perdas de até 50% na produtividade das bananeiras.

Biologia e etiologia

Mycosphaerella fijiensis, patógeno altamente especializado, possui biologia e etiologia complexas. Envolvem ciclos de vida com fases sexuada (ascospórica) e assexuada (conidial), além de uma notável capacidade de adaptação às condições ambientais e às práticas agrícolas.

Mycosphaerella fijiensis pertence à classe Dothideomycetes e ao filo Ascomycota.

  • Domínio: Eukaryota
  • Reino: Fungi
  • Filo: Ascomycota
  • Classe: Dothideomycetes
  • Ordem: Capnodiales
  • Família: Mycosphaerellaceae
  • Gênero: Mycosphaerella
  • Espécie: Mycosphaerella fijiensis

Possui duas formas distintas de reprodução:

  • Fase assexuada (anamorfo): representada como Paracercospora fijiensis, responsável pela produção de conídios.
  • Fase sexuada (teleomorfo): representada como Mycosphaerella fijiensis, responsável pela produção de ascosporos.

Ambas desempenham papéis cruciais na disseminação e perpetuação da doença, sendo adaptadas para sobrevivência em diferentes condições climáticas.

As estruturas do fungo costumam ser assim apresentadas:

  • Conídios: esporos assexuados produzidos em grande quantidade durante a fase inicial da infecção. Eles são facilmente dispersos pelo vento, chuva ou água de irrigação e podem infectar novas folhas em estágios iniciais de desenvolvimento.
  • Ascósporos: esporos sexuados produzidos em estruturas chamadas pseudotécios (ou espermogônios). Esses esporos são mais resistentes e desempenham um papel importante na disseminação da doença em longas distâncias, especialmente durante períodos chuvosos.

A alternância entre as fases assexuada e sexuada permite ao fungo explorar diferentes nichos ecológicos, garantindo sua sobrevivência em ambientes variáveis.

O ciclo de vida de Mycosphaerella fijiensis é policíclico. Ou seja, ele pode completar múltiplos ciclos de infecção dentro de uma única estação de cultivo. As principais etapas incluem:

  • Disseminação: os esporos (conídios ou ascósporos) são liberados das lesões foliares infectadas e transportados pelo vento, chuva ou outros vetores até novas folhas hospedeiras.
  • Germinação e penetração: após a deposição nas folhas, os esporos germinam rapidamente (em até duas horas) em condições favoráveis de umidade e temperatura. O fungo penetra nos tecidos foliares através dos estômatos, iniciando a colonização interna.
  • Colonização e sintomatologia: a partir da penetração, o fungo se espalha intercelularmente, causando necrose nos tecidos foliares. Os primeiros sintomas aparecem cerca de 15 a 30 dias após a infecção, dependendo da cultivar e das condições ambientais.
  • Produção de novos esporos: à medida que as lesões progridem, elas começam a produzir novos conídios e ascósporos, perpetuando o ciclo de infecção.

Em regiões tropicais como a Amazônia, onde as condições são extremamente favoráveis (alta umidade e temperaturas amenas), os ciclos são contínuos e extremamente rápidos, levando a perdas totais em poucos meses.

A biologia de Mycosphaerella fijiensis está intimamente ligada às condições climáticas.

Os principais fatores que influenciam seu desenvolvimento incluem:

  • Temperatura: o fungo prospera em temperaturas entre 20°C e 30°C.
  • Umidade relativa: altas taxas de umidade (>80%) são essenciais para a germinação dos esporos e a penetração nos tecidos vegetais.
  • Presença de água livre: o orvalho e as chuvas prolongadas facilitam a liberação e disseminação de esporos, especialmente os ascósporos.

Em períodos secos, o fungo pode sobreviver em folhas mortas e secas, aguardando condições mais favoráveis para reiniciar o ciclo de infecção.

Mycosphaerella fijiensis apresenta alta variabilidade genética, o que contribui para sua capacidade de superar barreiras de resistência em cultivares e desenvolver resistência a fungicidas. Essa variabilidade é resultado de:

  • Recombinação genética: durante a fase sexuada, ocorre troca de material genético, gerando novas combinações de características.
  • Seleção natural: o uso intensivo de fungicidas e o cultivo de variedades suscetíveis favorecem a seleção de cepas mais agressivas ou resistentes.

Essa plasticidade genética torna o manejo da sigatoka-negra ainda mais desafiador, exigindo estratégias integradas e adaptativas.

Controle

As estratégias de manejo da sigatoka-negra incluem práticas agronômicas, uso de fungicidas e desenvolvimento de variedades resistentes. Abaixo estão detalhados os principais métodos...

Práticas culturais:

  • Rotação de culturas: evitar o monocultivo contínuo de bananeiras na mesma área.
  • Manejo adequado da irrigação: reduzir a umidade excessiva nas folhas.
  • Eliminação de restos culturais: remover folhas infectadas para evitar a disseminação de esporos.
  • Densidade de plantio: evitar plantios muito densos, que favorecem a umidade prolongada.

Fungicidas sistêmicos e de contato são amplamente utilizados no controle químico da Sigatoka-negra. No entanto, o uso indiscriminado pode levar à resistência do fungo. Por isso, recomenda-se: (a) alternância de princípios ativos; (b) aplicação conforme as orientações técnicas e legislação local; e (c) monitoramento constante da eficácia dos produtos. (Clique aqui e veja pesticidas registrados para o controle da sigatoka-negra)

A pesquisa científica tem buscado desenvolver variedades de banana resistentes à Sigatoka-negra. A Embrapa, por exemplo, desenvolveu técnicas inovadoras para o controle biológico da doença, utilizando microrganismos benéficos e melhoramento genético.

O uso de agentes biológicos, como fungos antagonistas e bactérias promotoras de crescimento, tem sido explorado como alternativa sustentável ao controle químico.

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