Leptoglossus zonatus

09.06.2026 | 10:10 (UTC -3)
Foto: Jennifer Carr - University of Florida
Foto: Jennifer Carr - University of Florida

O inseto Leptoglossus zonatus (Dallas, 1852) é um hemíptero fitófago de expressiva importância econômica em culturas de interesse agronômico. No Brasil, recebe os nomes populares de percevejo-gaúcho e percevejo-de-pernas-foliáceas; nos países hispano-falantes, é denominado chinche patón; em inglês, western leaffooted bug. A designação "pernas foliáceas" alude à principal característica morfológica diagnóstica do gênero Leptoglossus: a expansão laminar das tíbias posteriores, que distingue seus membros dos demais coreídeos.

Taxonomia e histórico

Leptoglossus zonatus pertence à ordem Hemiptera, subordem Heteroptera, família Coreidae, subfamília Coreinae e tribo Anisoscelini. A espécie foi descrita por William S. Dallas em 1852, na obra List of the specimens of hemipterous insects in the collection of the British Museum, sob o basônimo Anisoscelis zonatus Dallas, 1852. Carl H. Stål a reclassificou como Theognis zonatus em 1862 (Stettin. Entomol. Zeit. 23:295) e em 1870 (K. Svens. Vet.-Akad. Hand. 9(1):162); foi Francis Walker, em 1871, quem a transferiu definitivamente para o gênero Leptoglossus, combinação binomial válida até hoje. A tribo Anisoscelini reúne os percevejos coreídeos com expansões foliáceas nos membros posteriores.

Estudos recentes com o gene mitocondrial citocromo oxidase I (COI) revelaram ao menos dois haplótipos genéticos distintos em Leptoglossus zonatus no hemisfério ocidental, com implicações para a compreensão da origem e do potencial invasivo de populações em novas regiões agrícolas.

Biologia

Leptoglossus zonatus apresenta desenvolvimento hemimetabólico, com fases de ovo, ninfa (cinco estádios) e adulto. Os ovos, cilíndricos, são depositados em fileiras sobre caules, pecíolos e folhas dos hospedeiros, eclodindo em aproximadamente 10 dias. O desenvolvimento ninfal total dura de 40 a 50 dias, com cada instar requerendo de 3 a 12 dias. A temperatura base para o desenvolvimento é de 10,37°C, sendo necessárias cerca de 650 unidades de calor acumuladas (graus-dia) para completar o período de ovo a adulto.

A longevidade dos adultos é de 60 a 90 dias, podendo ser maior em condições de invernada. A espécie completa duas a três gerações anuais segundo o regime térmico da região. Adultos medem entre 18 e 22 mm, apresentam coloração castanho-escura a cinza, faixa transversal sinuosa esbranquiçada que cruza os hemélitros (asas anteriores) e duas manchas amareladas no pronoto. A espermateca apresenta três regiões estruturalmente distintas - reservatório distal, duto muscular mediano e duto alargado proximal -, com valor diagnóstico para a identificação taxonômica de fêmeas adultas.

Bionomia da praga

Leptoglossus zonatus é marcadamente polífago, com registros em mais de 50 espécies vegetais de ao menos 14 famílias botânicas. Os principais hospedeiros agronômicos incluem milho, sorgo, algodão, maracujá, citros, amendoeira, tomateiro, melancia e pinhão-manso.

Ninfas e adultos alimentam-se por picada-sucção em sementes em desenvolvimento, grãos leitosos e frutos jovens. Os danos incluem abortamento de frutos, queda prematura, necrose de grãos e predisposição a infecções secundárias. Na Califórnia, infestações severas causaram queda de até 45% das nozes e 54% de danos em pistaches; no Brasil, perdas superiores a 15% na produção de milho foram estimadas em áreas sem controle adequado.

O comportamento gregário é marcante: adultos formam grandes agregações durante a invernada e nas transições entre hospedeiros, mediadas pelo feromônio de agregação. Em regiões temperadas, os adultos hibernam em folhagens densas de citros ou entre bainhas de palmeiras, retomando a dispersão em direção às lavouras no início da primavera. A espécie é ainda apontada como potencial vetor de patógenos em milho, ampliando sua importância sanitária além dos danos mecânicos diretos.

Ecologia

A distribuição geográfica de Leptoglossus zonatus estende-se do sul dos Estados Unidos (Arizona, Califórnia, Flórida, Louisiana e Texas) até a Argentina, passando pelo México, América Central e América do Sul (Colômbia, Venezuela, Peru, Equador, Bolívia e Brasil).

No Brasil, é praga relevante do milho e do maracujazeiro em diversas regiões. Análises moleculares com o gene COI revelaram dois haplótipos no hemisfério ocidental: o primeiro restrito à Califórnia e ao México, o segundo com ocorrência ampla da América do Norte ao Cone Sul, sugerindo eventos de introdução antrópica.

A espécie é classificada como criossensível (chill-intolerant): experimentos controlados demonstraram que exposições de seis horas a −5,8°C e −9,7°C correspondem, respectivamente, à DL50 e DL95 dos adultos invernantes. Esse parâmetro ecofisiológico é fundamental para modelar o impacto de eventos climáticos extremos sobre as populações e antecipar surtos nos cultivos subsequentes. Em zonas tropicais e subtropicais, onde as temperaturas raramente atingem esses limiares letais, Leptoglossus zonatus mantém populações ativas ao longo de todo o ano, favorecendo múltiplas gerações e pressão fitossanitária contínua sobre as culturas.

Controle do inseto

O manejo de Leptoglossus zonatus é desafiador pela mobilidade do inseto, amplitude de hospedeiros e comportamento gregário.

No controle químico, organofosforados e piretroides têm demonstrado eficácia, especialmente quando aplicados nos picos populacionais ou durante a dispersão primaveril dos adultos invernantes. O monitoramento com armadilhas de feromônio de agregação associadas a estímulos visuais cromaticamente atrativos (amarelo) permite estimar a densidade populacional e calibrar o timing das intervenções dentro do Manejo Integrado de Pragas (MIP).

No controle biológico, o parasitóide de ovos Hadronotus pennsylvanicus (Hymenoptera: Scelionidae) demonstrou capacidade de localização e parasitismo dos ovos de Leptoglossus zonatus em condições de laboratório e campo, com taxas que justificam investigações para programas de controle aumentativo. Os fungos entomopatogênicos Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae também foram avaliados contra Leptoglossus zonatus, com resultados promissores para formulações de aplicação foliar.

Práticas culturais, eliminação de hospedeiros alternativos no entorno dos talhões, monitoramento preventivo de bordas e adjacências com vegetação nativa, e escalonamento de épocas de plantio,  complementam as táticas de controle e integram-se eficientemente a um programa estruturado de MIP. A adoção de níveis de ação econômica baseados em amostragens sistemáticas é recomendada para racionalizar o uso de inseticidas e preservar a fauna auxiliar, especialmente em cultivos perenes como a amendoeira e o pistache.

Outras informações

Estudo acompanhou a dinâmica sazonal de populações de Leptoglossus zonatus em pomares de amendoeira e pistache no Vale Central da Califórnia. Os autores documentaram que a espécie utiliza diferentes hospedeiros ao longo do ano - amendoeiras na primavera, pistaches no verão e romãzeiras no outono -, com dispersão a partir dos refúgios de invernada entre março e maio. Os danos às culturas incluíram aborto embrionário, necrose de amêndoas e queda de frutos, atingindo até 45% em amendoeiras e 54% em pistaches nas infestações mais severas. O trabalho fornece base fenológica para o planejamento de estratégias de monitoramento e controle dirigidas às janelas de maior vulnerabilidade das culturas. - DOI: 10.3390/insects10080255 -

Trabalho avaliou a virulência dos fungos entomopatogênicos Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae sobre adultos de Leptoglossus zonatus e do percevejo-escudo Pachycoris klugii em condições de laboratório. Diferentes concentrações conidiais foram testadas, e ambos os fungos causaram mortalidade significativa em Leptoglossus zonatus, com valores de CL50 compatíveis com uso prático em formulações. Os resultados apontam para o potencial do controle microbiano como componente do MIP para esses percevejos, sendo uma alternativa menos impactante sobre inimigos naturais em comparação aos inseticidas sintéticos. - DOI: 10.5897/AJB11.2617 -

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