Grapholita molesta

28.05.2026 | 14:32 (UTC -3)
Foto: Clemson University - USDA
Foto: Clemson University - USDA

Grapholita molesta (Busck, 1916), conhecida popularmente como mariposa-oriental, grafolita ou broca-dos-ponteiros (no estágio larval), é uma das principais pragas da fruticultura de clima temperado no Brasil e no mundo.

Seu nome científico atual pertence à ordem Lepidoptera, família Tortricidae, subfamília Olethreutinae e tribo Grapholitini, gênero Grapholita (Treitschke, 1829). Historicamente, a espécie foi descrita por August Busck em 1916 como Laspeyresia molesta, sendo posteriormente reclassificada em Cydia molesta e, por fim, transferida para Grapholita molesta com base em estudos morfológicos e moleculares da genitália e da filogenia dos Tortricidae. Essa evolução taxonômica reflete avanços na sistemática dos microlepidópteros, consolidando sua posição dentro do complexo de espécies frugívoras da tribo Grapholitini.

Biologia: do ponto de vista biológico, Grapholita molesta apresenta metamorfose completa, com estágios de ovo, larva, pupa e adulto. Os adultos são pequenas mariposas de coloração cinza-marrom, envergadura de 12-15 mm e atividade crepuscular. As fêmeas depositam de 50 a 200 ovos isoladamente na face inferior das folhas, em brotações novas ou próximos aos frutos. As larvas neonatas são brancas e, ao longo de cinco ínstares, medem até 12 mm, adquirindo coloração rosada. A espécie é multivoltina, completando de 3 a 7 gerações por ano conforme a temperatura acumulada (graus-dia). No inverno, as larvas maduras hibernam em casulos de seda sob casca rugosa, em serrapilheira ou em “burrknots” de macieira, pupando na primavera seguinte. O ciclo completo varia de 30 a 50 dias em condições ótimas (20-28 °C), sendo o limiar térmico inferior próximo a 10 °C.

Etiologia: a etiologia dos danos decorre diretamente da alimentação endofítica das larvas. Nas primeiras gerações (primavera), as larvas penetram em brotações tenras (ponteiros), escavando galerias no xilema e floema, o que provoca murcha apical, necrose e “flagging” (morte dos ápices). Esse dano compromete a arquitetura da planta jovem e reduz o número de ramos produtivos. Nas gerações subsequentes, especialmente a partir da segunda ou terceira, as larvas migram para os frutos, penetrando geralmente próximo ao pedúnculo ou em pontos de contato entre frutos. Alimentam-se da polpa ao redor do caroço ou sementes, formando galerias irregulares que exsudam goma (em pêssego e nectarina) e favorecem infecções secundárias por fungos como Monilinia fructicola (podridão-parda). Os frutos atacados apresentam deformações, queda precoce, redução de calibre e perda total de valor comercial, com perdas que podem atingir 10-40% em pomares não manejados e até 80% em populações elevadas. A preferência por tecidos ricos em açúcares e a rápida maturação larval explicam a elevada capacidade de dano econômico.

Ecologia: Grapholita molesta é nativa do leste asiático (provavelmente noroeste da China) e foi introduzida no Brasil em 1929 no Rio Grande do Sul via material propagativo, disseminando-se rapidamente para Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais. É altamente polífaga, porém com forte preferência por Rosaceae de caroço (pessegueiro, nectarineira, ameixeira, cerejeira) e de pomo (macieira, pereira, marmeleiro). Em pomares consorciados ou adjacentes a pessegueiros, a pressão de infestação aumenta significativamente. A espécie explora nichos microclimáticos protegidos (casca, solo) e responde positivamente ao aquecimento climático, com antecipação fenológica de voos e aumento de gerações em regiões de clima temperado. Interage com inimigos naturais, sendo parasitada por himenópteros como Macrocentrus ancylivorus (até 80-90% em pomares sem inseticidas de amplo espectro) e predada por coccinelídeos e crisopídeos, embora o uso intensivo de inseticidas reduza o impacto biológico.

Controle: o controle de Grapholita molesta exige abordagem integrada (MIP), priorizando monitoramento, táticas preventivas e seletivas para retardar resistência. O monitoramento é realizado com armadilhas de feromônio sexual (principal componente: (Z)-8-dodecenil acetato), instaladas a partir do estádio de botão rosa, com limiar de ação de 5-10 machos/trapa/semana. Modelos de graus-dia otimizam o momento de intervenção. Culturalmente, recomenda-se poda sanitária, remoção e destruição de frutos caídos, limpeza de troncos e manejo de “burrknots”. O controle biológico e comportamental destaca-se pela técnica de interrupção do acasalamento (mating disruption) com dispensadores de feromônio, eficaz em áreas extensas e amplamente adotada na Produção Integrada de Pêssego e Maçã no Sul do Brasil, reduzindo em até 90% o uso de inseticidas. Biologicamente, a preservação de parasitoides e o uso de produtos à base de Bacillus thuringiensis ou reguladores de crescimento (ex.: tebufenozida) em estádios iniciais são recomendados. Quimicamente, aplica-se inseticidas de contato ou ingestão (diamidas, espinosinas, oxadiazinas) direcionados a larvas neonatas, rotacionando modos de ação (IRAC) para evitar resistência cruzada observada em organofosforados. Em sistemas de produção integrada, o limiar econômico é respeitado, combinando táticas para sustentabilidade econômica e ambiental.

Outras informações científicas:

Bioensaios laboratoriais e experimentos de campo foram realizados para avaliar a eficácia do parasitoide de ovos Trichogramma dendrolimi como agente de controle biológico aumentativo de Grapholita molesta. Os autores calcularam que, para cada geração da praga, a liberação de 900.000 vespas por hectare — distribuídas em três liberações espaçadas três dias entre si, com pontos de soltura a 10 m de distância — reduziria pela metade os danos aos frutos em pomares com 50% de infestação. Ressalva-se, porém, que o parasitoide, por si só, não fornece níveis de controle comercialmente aceitáveis sob alta pressão da praga, sendo necessária a sua integração com outras táticas compatíveis. O estudo representa contribuição fundamental à incorporação do controle biológico no manejo integrado da grafolita. - DOI 10.1002/ps.6311 -

O estudo avalia a eficácia dos diamidas ciantraniliprole e clorantraniliprole no controle de Grapholita molesta em pomares de pêssego na Sérvia, adotando metodologia padrão EPPO em dois locais experimentais. Ambos os compostos demonstraram alta eficácia na supressão da praga, reduzindo significativamente o percentual de ponteiros e frutos danificados em relação à testemunha. Adicionalmente, a dinâmica de dissipação dos resíduos dos inseticidas nos frutos foi monitorada e os resultados indicaram que, respeitados os intervalos de segurança prescritos, os teores de resíduo estavam abaixo dos limites máximos regulamentares europeus na época da colheita. - DOI 10.17221/71/2019-PPS -

Pesquisa examinou a interação entre a expressão de citocromos P450 e a composição do microbioma intestinal de Grapholita molesta em função da planta hospedeira, avaliando como essa interação modula a adaptação a biopesticidas. Lagartas alimentadas em diferentes hospedeiros (pessegueiro, macieira, pereira) mostraram diferenças significativas na expressão de P450s e na diversidade microbiana intestinal, com implicações diretas na metabolização de compostos como spinosad e abamectina. O trabalho demonstra que o microbioma pode amplificar a tolerância da praga a biopesticidas ao fornecer enzimas bacterianas adicionais de destoxificação, representando uma nova dimensão — microbiológica — na compreensão e gestão da resistência em insetos fitófagos. - DOI 10.3390/ijms242015435 -

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