Flupiradifurone (flupyradifurone) é um inseticida sistêmico moderno pertencente ao grupo químico das butenolidas, desenvolvido pela Bayer CropScience. É amplamente utilizado no contexto agrícola para o controle de pragas sugadoras, com destaque em programas de Manejo Integrado de Pragas (MIP) devido ao seu perfil de seletividade e baixa toxicidade para muitos organismos benéficos, como abelhas e insetos predadores, quando comparado a neonicotinoides.
Nome comum: flupyradifurone
Número CAS: 951659-40-8
Fórmula química bruta: C12H11ClF2N2O2 (peso molecular ≈ 288,68 g/mol).
Classe química: butenolida (subgrupo 4D do IRAC – Insecticide Resistance Action Committee). Atua como agonista dos receptores nicotínicos de acetilcolina (nAChR), mas difere estruturalmente dos neonicotinoides (grupo 4A), o que reduz o risco de resistência cruzada significativa.
Principal produto comercial: Sivanto.
Histórico de desenvolvimento: flupyradifurone foi desenvolvido pela Bayer CropScience e inspirado no alcaloide natural stemofolina (isolado da planta Stemona japonica). A molécula foi otimizada a partir de um scaffold de butenolida, com introdução de um grupo difluoroetil e piridilmetil para melhorar a atividade inseticida e a estabilidade.
Descoberto por volta de 2012 (código de desenvolvimento BYI 02960), obteve o primeiro registro comercial em 2014 na América Central (Guatemala e Honduras). Na União Europeia, foi aprovado em 2015 por 10 anos (atualmente em processo de reavaliação). É comercializado globalmente desde então, com registros em Américas, Ásia, África e Oceania. Sua introdução representou uma nova classe (4D) para manejo de resistência a inseticidas em pragas sugadoras.
Mecanismo de ação: o flupyradifurone atua como agonista reversível dos receptores nicotínicos de acetilcolina (nAChR) nos insetos. Ao se ligar ao receptor, provoca despolarização da membrana neuronal, excitação contínua e colapso do sistema nervoso, levando à morte do inseto. Diferente da acetilcolina natural, não é hidrolisado pela acetilcolinesterase. É mais potente por ingestão do que por contato e possui ação sistêmica / translaminar. Não é metabolizado por enzimas como CYP6CM1 (comum em pragas resistentes a neonicotinoides), o que explica sua eficácia contra populações resistentes.
Espectro de controle: tem amplo espectro contra pragas sugadoras (Hemiptera), incluindo: pulgões (aphids), moscas-brancas, cigarrinhas e outros. Também controla alguns coleópteros e suprimem outras pragas como psila-da-pêra. Atua em adultos, ninfas e, em menor grau, ovos. É eficaz contra populações resistentes a outros inseticidas do grupo 4. Não é recomendado para lepidópteros ou pragas de solo de forma primária.
Compatibilidades e interações: o produto é flexível para misturas em tanque, mas deve-se sempre realizar o “teste da garrafa” para verificar compatibilidade física (evitar precipitação ou separação de fases) e química (alterações de pH ou EC). É compatível com muitos fungicidas, herbicidas e inseticidas de outros modos de ação, e há patentes para misturas específicas (ex.: com enxofre elementar para ampliar o espectro). Em MIP, é altamente seletivo a inimigos naturais (predadores, parasitoides e polinizadores). Estudos mostram baixa interação negativa com abelhas em condições de campo, mas pode haver sinergismo ou efeitos subletais quando misturado com piretroides (ex.: deltametrina) ou exposto cronicamente. Seguir rótulo/bula para restrições de mistura e intervalos.
Posicionamento agronômico: é posicionado como ferramenta de primeira linha no controle de pragas sugadoras em culturas como hortaliças, frutíferas (pomares, videiras, citros), café, soja (tratamento de sementes), batata, algodão e ornamentais. Aplicações incluem foliar (melhor cobertura), drench/gotejamento (sistêmico no solo) e tratamento de sementes. Oferece proteção precoce e residual, com baixo impacto ambiental e excelente perfil para MIP (seletivo a abelhas e benéficos). Destaca-se no manejo de resistência, permitindo rotação com outros grupos (ex.: não cruzar com neonicotinoides). No Brasil, é recomendado em programas de rotação para mosca-branca, pulgões e cigarrinhas, com intervalos mínimos de aplicação e limite anual de doses.
Números de patentes: BR112012014944A2, EP4203686A4, US20240016155A1 e outras.
Algumas citações em artigos científicos:
doi.org/10.1016/j.cropro.2024.106951 - Entre os seis inseticidas testados contra Bemisia tabaci, o flupiradifurone resultou na maior mortalidade de ninfas e adultos. Três inseticidas eficazes foram então avaliados quanto à sua capacidade de prevenir a aquisição e transmissão do ToLCNDV por Bemisia tabaci. Utilizando técnicas de qPCR, determinamos a quantidade de vírus adquirida por B. tabaci de plantas infectadas pelo vírus que haviam sido previamente tratadas com inseticidas. Os resultados revelaram uma redução significativa nos níveis de vírus no corpo da mosca-branca, sendo o flupiradifurone o mais eficaz entre os inseticidas testados na redução da aquisição do ToLCNDV. O flupiradifurone também apresentou a maior eficácia na redução da transmissão do ToLCNDV por Bemisia tabaci. Experimentos conduzidos em casa de vegetação 24 horas após a aplicação do inseticida demonstraram a completa prevenção da transmissão do vírus da necrose da batata (ToLCNDV) em todas as plantas tratadas com flupiradifurone. No experimento de campo, a flupiradifurone também suprimiu eficazmente a transmissão do ToLCNDV mediada pela mosca-branca por até 14 dias após a aplicação do inseticida. Os resultados indicam que o uso da flupiradifurone tem potencial para o manejo da população do vetor e o controle da doença viral associada, que é conhecida por causar perdas significativas nas plantações de batata.