Entre os inseticidas lançados nos últimos quinze anos, o ciantraniliprole tem um lugar próprio. É uma diamida antranílica de segunda geração que, ao contrário da antecessora, alcança tanto insetos mastigadores quanto sugadores. O nome comum, na grafia ISO, é cyantraniliprole. A molécula foi desenvolvida sob os códigos DPX-HGW86 e SYN545377 e é vendida como ingrediente ativo sob a marca Cyazypyr. Seu número CAS é 736994-63-1, a fórmula bruta é C19H14BrClN6O2 e a massa molecular é de 473,72 g/mol. O nome IUPAC é 3-bromo-1-(3-cloro-2-piridil)-4′-ciano-2′-metil-6′-(metilcarbamoil)pirazol-5-carboxanilida. Quimicamente, pertence às diamidas antranílicas, ou antranilamidas, e integra o grupo 28 do IRAC, o dos moduladores do receptor de rianodina. A diferença estrutural em relação ao clorantraniliprole é pequena: o átomo de cloro do anel fenílico foi trocado por um grupo ciano.
Essa pequena troca tem consequências agronômicas grandes, explicadas pelas propriedades físico-químicas. A solubilidade em água chega a 14,23 mg/L em água pura a pH 7,2, e o log Pow é de 1,94, sem depender do pH. Por isso a molécula é menos lipofílica que o clorantraniliprole e se move melhor na seiva. Em contrapartida, é sensível ao meio alcalino: a meia-vida de hidrólise cai de 30,3 dias a pH 7 para 0,85 dia a pH 9. A degradação pela luz em água também é muito rápida, com DT50 de 0,17 dia em tampão a pH 4 e de 0,22 dia em água natural. Como se verá, essas características orientam as recomendações de preparo da calda.
A história da molécula começa na DuPont, logo após o sucesso do clorantraniliprole (Rynaxypyr), cujos produtos foram lançados em 2008. Os químicos buscavam análogos de logP mais baixo, com melhores propriedades sistêmicas na planta, e a exploração de diamidas com substituinte ciano levou ao ciantraniliprole. Ainda em 2008, a Syngenta adquiriu da DuPont os direitos exclusivos de usar o ciantraniliprole em misturas com seus próprios inseticidas. Esse acordo explica por que a molécula aparece hoje em produtos das duas empresas.
O primeiro registro veio em julho de 2012, na Argentina, com o Benevia para tomate, seguido do Canadá em 2013 e do Japão e do Brasil em 2014. Nos Estados Unidos, a EPA concedeu o registro em fevereiro de 2014. No Brasil, a entrada se deu pela cafeicultura. O Ministério da Agricultura autorizou a importação emergencial do produto para controlar a broca-do-café em Minas Gerais, porque os produtores tinham ficado sem alternativas após a proibição do endossulfam. Vieram depois o registro do Benevia para mosca-branca, em fevereiro de 2016, e o registro definitivo do Verimark, em junho do mesmo ano, recomendado para 28 culturas.
Em 2017, a FMC assumiu a molécula em razão da obrigação de venda de produtos da DuPont para que fosse autorizada a fusão com parte do negócio da Dow, que resultou na criação da Corteva. A exclusividade terminou em 20 de janeiro de 2024, quando a patente expirou em muitos países. A essa altura, a molécula já estava registrada em mais de 50 países e regiões.
A proteção industrial apoiava-se na família de patentes "Cyano anthranilamide insecticides". Ela nasceu do pedido internacional PCT/US2004/003568, depositado em 21 de janeiro de 2004, com prioridade do pedido provisório norte-americano 60/443,256, de 28 de janeiro de 2003, publicado como WO 2004/067528 A1. Nos EUA, a família inclui a US 7,247,647 e a divisional US 7,875,634, além da US 8,475,819. Inclui também a US 9,161,540, que lista como inventores Hughes, Lahm, Selby e Stevenson e tem hoje a FMC como titular. Há equivalentes como a EP 1599463 (validada na Eslovênia como SI1599463T1), a CA 2512242C e a MX 254990B, e a família tem histórico de litígio. Não consegui confirmar o número do pedido brasileiro no INPI.
O mecanismo de ação é comum a todo o grupo. As diamidas antranílicas ativam seletivamente os receptores de rianodina dos insetos, e a morte decorre da liberação descontrolada dos estoques de cálcio nas células musculares. Na prática, o inseto fica letárgico, paralisado e acaba morrendo. A molécula age por ingestão e por contato, mas é mais potente por ingestão, e o inseto para de se alimentar cedo.
O que distingue o ciantraniliprole é a mobilidade. Estudos com marcação radioativa confirmaram que ele sobe pelo xilema até as folhas novas. Dentro da folha, o movimento é acropetal, sem movimento basipetal significativo, e a ação translaminar foi demonstrada em várias culturas. É essa sistemicidade que lhe permite atingir os insetos sugadores, que o clorantraniliprole alcança pouco.
Daí vem o chamado espectro cruzado, que abrange várias ordens de insetos, incluindo lepidópteros e hemípteros. Entre os exemplos estão moscas-brancas, tripes, pulgões, moscas-das-frutas, psilídeos e lagartas de frutos.
As propriedades químicas determinam o manejo da calda. A bula do Benevia pede:
- pH entre 5 e 7, corrigido quando passar de 7, o que é coerente com a hidrólise rápida em meio alcalino;
- uso da calda em até 8 horas, se a aplicação for interrompida;
- teste de jarra antes de misturar com fertilizantes foliares.
A bula também alerta para fitotoxicidade em algumas culturas. O risco vem de misturas com estrobilurinas, enxofre, cobre, mancozebe, captana ou clorotalonil, e de aplicações feitas até 7 dias antes ou depois de uma estrobilurina.
Quanto às interações biológicas, a molécula é vendida em associação com abamectina (grupo 6) e, no tratamento de sementes, com tiametoxam (grupo 4A). Em linhagens resistentes, o butóxido de piperonila reverteu parte da resistência. Isso foi visto em mosca-branca e em pulgão-do-algodoeiro, sinal de que monooxigenases P450 participam do processo. Por outro lado, há resistência cruzada com as demais diamidas, o que impede rotacionar produtos dentro do grupo 28.
A seletividade a inimigos naturais pode ser expressiva: a toxicidade de contato foi 297 vezes maior para D. citri do que para o parasitoide Tamarixia radiata. Ainda assim, o perfil ambiental exige cuidado. A molécula tem baixa toxicidade para mamíferos, mas é altamente tóxica para abelhas melíferas e moderadamente tóxica para minhocas e para a maioria das espécies aquáticas. A EPA classifica o risco agudo para abelhas como alto e observou que dois produtos de degradação são mais tóxicos que a molécula original. Por isso as bulas brasileiras proíbem aplicar na floração ou restringem a aplicação ao período após o pôr do sol.
Regras de manejo da resistência:
- usar o produto em janelas de cerca de 30 dias;
- limitar a exposição total a diamidas a 50% do ciclo da cultura;
- não aplicar diamidas em sequência sobre a mesma geração da praga.
Outras informações:
- Selby et al. (2013) apresentaram a química, a biologia e as relações estrutura-atividade de uma série de cianoantranílicas diamidas. O ciantraniliprole foi escolhido entre elas para desenvolvimento comercial, e o artigo mostra como a menor lipofilia trouxe sistemicidade e atividade em várias ordens de insetos (doi 10.1016/j.bmcl.2013.09.076).
- Barry et al. (2015) descreveram o movimento da molécula após aplicação foliar. Com 14C e bioensaios com Helicoverpa zea, confirmaram o transporte pelo xilema até folhas não tratadas, o movimento acropetal sem o basipetal e a ação translaminar contra pulgões, lagartas e moscas-brancas (doi 10.1002/ps.3816).
- Tiwari e Stelinski (2013) mostraram que a molécula foi muito mais tóxica para o psilídeo-dos-citros do que para seu parasitoide. Ela reduziu o assentamento e a alimentação do inseto mesmo em concentrações baixas, e em campo as aplicações foliares e em drench diminuíram adultos e ninfas (doi 10.1002/ps.3468).
- Civolani et al. (2014) usaram a eletropenetrografia para mostrar que a mosca-branca do biótipo Q não conseguiu se alimentar do floema em tomateiros tratados. Os autores atribuem isso à interrupção rápida da ingestão (doi 10.1603/EC13511).
- Bielza e Guillén (2015) encontraram em Frankliniella occidentalis pouca variação de suscetibilidade entre populações. A CL50 para larvas foi de 33,4 a 109,2 mg/L, e os adultos foram 23 vezes menos suscetíveis. Não houve resistência cruzada com os inseticidas já usados contra tripes, e as doses subletais reduziram fecundidade, fertilidade, alimentação, oviposição e acasalamento (doi 10.1002/ps.3886).
- Pes et al. (2020) confirmaram por LC-MS/MS e bioensaios com S. frugiperda que, no tratamento de sementes, a molécula é absorvida e sobe pelo xilema até as folhas novas. Houve mortalidade de lagartas até o estádio V6: 40% para o ciantraniliprole e 57,5% para o clorantraniliprole. Na aplicação foliar, porém, não houve translocação das folhas pulverizadas para as folhas novas (doi 10.1371/journal.pone.0229151).
- Wang et al. (2018) fizeram o primeiro relato de resistência de campo. Todas as 18 amostras de B. tabaci MED, de nove províncias chinesas, foram menos suscetíveis que a linhagem de referência. Em três províncias, os fatores de resistência subiram de 2015 para 2016: em Shanxi, de 5,62 para 25,81 vezes (doi 10.1016/S2095-3119(16)61613-1).
- Wang et al. (2019) mostraram que a população de Shanxi tinha 26,4 vezes de resistência. Com seleção, chegou a 138,4 vezes, sem resistência cruzada a abamectina, imidacloprido, tiametoxam, sulfoxaflor ou bifentrina. A herança foi autossômica e incompletamente dominante, e o butóxido de piperonila suprimiu a resistência (doi 10.1016/S2095-3119(19)62557-8).
- Zeng et al. (2021) obtiveram uma linhagem de A. gossypii com 17,3 vezes de resistência. Ela tinha resistência cruzada a piretroides, imidacloprido e acefato, e vários genes P450 estavam superexpressos. Expressar os genes CYP380C6 e CYP4CJ1 em Drosophila bastou para conferir resistência (doi 10.1021/acs.jafc.1c00922).