Ceraeochrysa cincta

02.06.2026 | 08:07 (UTC -3)
Foto: Vitaly Charny
Foto: Vitaly Charny

Ceraeochrysa cincta (Schneider, 1851) é um crisopídeo predador (Neuroptera: Chrysopidae) com reconhecido potencial como agente de controle biológico em agroecossistemas das Américas. No Brasil, onde a pressão por práticas de manejo integrado de pragas (MIP) mais sustentáveis cresce diante da resistência de insetos a inseticidas e das exigências de exportação com baixos resíduos, espécies como Ceraeochrysa cincta merecem atenção de engenheiros agrônomos e pesquisadores. Suas larvas vorazes atacam pragas de importância econômica, enquanto os adultos contribuem indiretamente para a manutenção do equilíbrio ecológico.

O inseto Ceraeochrysa cincta (Schneider, 1851). A espécie pertence à ordem Neuroptera, família Chrysopidae (crisopídeos ou lacewings verdes), subfamília Chrysopinae e tribo Chrysopini. O gênero Ceraeochrysa foi proposto por Adams em 1982 para acomodar espécies predominantemente neotropicais e subtropicais que apresentam características morfológicas e genitais distintas das do gênero Chrysopa sensu stricto. Originalmente descrita como Chrysopa cincta por Schneider em 1851 (Symbolae ad monographiam generis chrysopae), a espécie passou por revisões taxonômicas significativas. A monografia de Freitas e Penny (2009) e o trabalho de resolução nomenclatural de Tauber et al. (2010) esclareceram várias sinonímias, incluindo a de Chrysopa rochina (Navás, 1915), hoje considerada sinônimo júnior de Ceraeochrysa cincta. Questões envolvendo Ceraeochrysa cornuta foram reavaliadas, mas Ceraeochrysa cincta permanece como espécie válida e amplamente distribuída. A identificação de adultos baseia-se em venação alar, coloração da cabeça e tórax, e estruturas da genitália masculina; as larvas exigem chaves específicas que consideram a distribuição de setas e o hábito de carregar detritos.

Entre os nomes comuns, destacam-se “crisopa verde”, “crisopídeo” ou simplesmente “lacewing verde”. As larvas recebem a designação popular de “bicho-lixeiro” ou “trash-carrier” em razão do comportamento de transportar sobre o dorso exúvias, detritos vegetais e secreções cerosas de presas (especialmente cochonilhas). Essa “capa” proporciona camuflagem e proteção mecânica contra predadores e condições abióticas adversas, característica marcante do gênero Ceraeochrysa.

A biologia de Ceraeochrysa cincta segue o padrão dos crisopídeos predadores, com adaptações que favorecem sua atuação em campo. Os ovos são depositados isoladamente sobre longos pedúnculos sedosos fixados na face abaxial das folhas, estratégia que minimiza o canibalismo entre as larvas recém-eclodidas. A incubação dura aproximadamente 4–5 dias a 25 °C. As larvas são campodeiformes, ágeis e passam por três instares. Diferentemente de crisopídeos “nus”, as de Ceraeochrysa cincta são carregadoras de detritos (“trash-carriers”): acumulam material sobre o dorso, o que aumenta a sobrevivência em ambientes expostos como lavouras de cana, café ou hortaliças. Estudos mostram preferências instar-específicas por ovos de presas alternativas (ex.: Corcyra cephalonica): o primeiro e o terceiro instares tendem a consumir mais ovos não parasitados, enquanto o segundo pode explorar ovos parasitados por Trichogramma. O período larval varia de 12 a 21 dias conforme temperatura e qualidade da presa; quando alimentadas exclusivamente com ninfas e adultas da cochonilha-rosada Maconellicoccus hirsutus, a média foi de 20,7 dias (1º instar: 6,4 dias; 2º: 5,3 dias; 3º: 9,0 dias). A pupação ocorre em casulo sedoso oval, geralmente aderido a folhas ou caules, com duração de 8–12 dias. Os adultos são insetos delicados, verde-claros, com olhos dourados e antenas longas; voam principalmente ao crepúsculo ou à noite e alimentam-se de néctar, pólen, melada e, ocasionalmente, pequenas presas. A longevidade adulta pode ultrapassar 30 dias em condições favoráveis, com fecundidade entre 100 e 300 ovos por fêmea, embora a fertilidade varie conforme geração e dieta. Em criações sucessivas em laboratório, observam-se, a partir de certa geração, ovos inférteis e sem pedúnculo, aspecto relevante para biofábricas.

A bionomia de Ceraeochrysa cincta envolve os fatores causais que determinam seu desenvolvimento, sobrevivência e flutuações populacionais em sistemas agrícolas. Temperatura ótima situa-se entre 24–28 °C; desvios reduzem taxas de desenvolvimento e sobrevivência. Umidade relativa elevada favorece a espécie, comum em grande parte do território brasileiro. A disponibilidade de presas é o principal fator biótico: populações de Ceraeochrysa cincta acompanham surtos de pulgões, cochonilhas, ácaros tenuipalpídeos e ovos de lepidópteros. Interações intraguilda merecem destaque: larvas predam ovos de Corcyra cephalonica parasitados por Trichogramma galloi, com preferências instar-específicas que podem afetar a compatibilidade entre agentes de controle biológico em MIP. Pesticidas de amplo espectro causam alta mortalidade; contudo, alguns reguladores de crescimento de insetos (IGRs) como piriproxifeno apresentam seletividade maior, permitindo uso integrado.

Populações oriundas de sistemas convencionais demonstraram maior tolerância a certos inseticidas em comparações com sistemas orgânicos. Variabilidade genética elevada, detectada em populações do sudeste brasileiro, confere capacidade adaptativa a diferentes culturas e condições edafoclimáticas. Patógenos entomopatogênicos (ex.: Beauveria bassiana) podem incidir, embora dados específicos para a espécie ainda sejam escassos. Esses fatores etiológicos explicam tanto a persistência da espécie em agroecossistemas quanto os desafios para sua conservação e multiplicação artificial.

Ecologicamente, Ceraeochrysa cincta apresenta distribuição neotropical/subtropical ampla: do sul da Flórida (EUA), Caribe e América Central até a América do Sul, com registros em múltiplos estados brasileiros (Amazonas, Bahia, Ceará, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo, entre outros). Ocorre em lavouras de cana-de-açúcar, cafezais, hortaliças, pomares e sistemas consorciados. Sua posição trófica como predador generalista contribui para a regulação de pragas secundárias e primárias, complementando outros inimigos naturais como Chrysoperla externa, fitoseídeos e parasitoides. Em sistemas diversificados, beneficia-se de vegetação nativa ou faixas de bordadura que fornecem néctar e refúgio para adultos. Estudos de genética populacional revelam alto fluxo gênico entre diferentes agroecossistemas do sudeste brasileiro, indicando que as populações não estão estruturadas de forma isolada e que a mobilidade dos adultos facilita rápida colonização de áreas com surtos de pragas. Interações intraguilda com outros crisopídeos e Trichogramma exigem estratégias de conservação que promovam a diversidade de agentes, em vez de favorecer uma única espécie. Em campos submetidos a intenso uso de inseticidas, a abundância tende a ser menor, reforçando a importância de práticas de manejo que preservem populações nativas.

No que se refere ao controle, Ceraeochrysa cincta pode ser empregada tanto em estratégias conservativas quanto aumentativas. A conservação envolve redução de aplicações de inseticidas tóxicos em períodos críticos (pico de larvas), manutenção de cobertura vegetal diversificada e plantas com néctar extrafloral, além de monitoramento visual de larvas “lixeiras” ou adultos em voos crepusculares. Para uso aumentativo, protocolos de criação em laboratório utilizam presas alternativas como ovos de Corcyra cephalonica ou Diatraea saccharalis, com desenvolvimento satisfatório. Experimentos com gerações sucessivas demonstram viabilidade técnica, desde que se monitore a qualidade reprodutiva (evitando linhagens com alta proporção de ovos inférteis). Liberações inundativas são promissoras contra cochonilhas e ácaros; no caso de Maconellicoccus hirsutus, cada larva consome em média cerca de 80 ninfas e 17 adultas durante seu desenvolvimento, posicionando a espécie como predador complementar. A compatibilidade com Trichogramma requer atenção: predação intraguilda pode reduzir a eficácia combinada se as liberações não forem escalonadas ou monitoradas. Estudos de tolerância indicam que populações de sistemas convencionais podem apresentar maior resiliência a alguns produtos, facilitando integração em MIP. No contexto brasileiro, Ceraeochrysa cincta integra-se bem a programas que já utilizam agentes biológicos como Phytoseiulus persimilis ou Trichoderma spp., desde que se evitem produtos incompatíveis. Recomenda-se priorizar a conservação de populações nativas e testar liberações em culturas com histórico de surtos de cochonilhas ou ácaros tenuipalpídeos.

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