Benzoato de emamectina (Emamectin benzoate) é um inseticida de amplo uso agrícola, especialmente eficaz no controle de lagartas (lepidópteros). Pertence à classe das avermectinas e é derivado semi-sintético da avermectina produzida por Streptomyces avermitilis.
Nome comum: emamectin benzoate
Número CAS: 155569-91-8 (sal benzoato). O composto base (emamectina) tem CAS 119791-41-2.
Fórmula química bruta: C56H81NO15
Classe química: avermectinas (Grupo IRAC 6 – ativadores de canais de cloreto controlados por glutamato). É um inseticida/acaricida semi-sintético da família das lactonas macrocíclicas, com ação por ingestão e contato.
Principais nomes de produto comercial no Brasil: Proclaim 50 WG
Histórico de desenvolvimento: derivado da avermectina B1 (abamectina) por modificação química na posição 4″ (desoxiepimetilamino). Desenvolvido pela Merck Sharp & Dohme (composto MK-244) nos anos 1980-1990. Posteriormente transferido para Novartis e depois Syngenta. Registros iniciais nos anos 1990 (ex.: Israel/Japão em 1997, EUA em 1999). No Brasil, uso emergencial autorizado em 2014 contra Helicoverpa armigera (devido à forte pressão da praga). Após reavaliação toxicológica pela Anvisa e parecer favorável do Ibama, obteve registro definitivo (Proclaim 50).
Mecanismo de ação: atua principalmente nos canais de cloreto controlados por glutamato (GluCls) do sistema nervoso dos insetos. A ligação causa aumento da permeabilidade ao íon cloreto, hiperpolarização da membrana, interrupção da transmissão nervosa, paralisia irreversível e morte (principalmente por ingestão). Tem ação secundária em receptores GABA. É rápido (larvas param de se alimentar em horas) e possui alguma ação translaminar.
Espectro de controle: age contra larvas de lepidópteros (principalmente instares iniciais a intermediários): Spodoptera frugiperda, S. littoralis, Helicoverpa spp., Plutella xylostella, Tuta absoluta, Heliothis spp. etc. Boa atividade também contra alguns tripes, ácaros e minadores de folhas. Baixa eficácia contra percevejos, cochonilhas e adultos de lepidópteros. Dose baixa (geralmente 5–30 g i.a./ha).
Compatibilidades e interações: geralmente compatível com muitos fungicidas e inseticidas, mas recomenda-se sempre teste de jarra antes de misturas em tanque. Pode haver incompatibilidade física e química com alguns fertilizantes (especialmente NPK) ou fungicidas como propiconazol em certas condições. Evitar pH extremos da calda. Baixa fitotoxicidade na maioria das culturas quando usado nas doses recomendadas. Tóxico para abelhas (evitar aplicação em floração); impacto moderado em alguns inimigos naturais.
Posicionamento agronômico: o benzoato de emamectina é posicionado agronomicamente como um inseticida foliar de aplicação por pulverização, que exige boa cobertura das plantas, com preferência para atingir as partes inferiores das folhas devido à sua ação translaminar limitada. Destaca-se pelo uso em doses baixas e por apresentar residual moderado a bom, sendo uma excelente ferramenta para o controle de lagartas em diversas culturas, como soja, algodão, milho, feijão, hortaliças e frutíferas. No Brasil, tornou-se especialmente estratégico após a entrada de Helicoverpa armigera e continua relevante no manejo de Spodoptera frugiperda e outras lagartas. Recomenda-se sua utilização dentro de programas de Manejo Integrado de Pragas (MIP), sempre com rotação de modos de ação — alternando, por exemplo, com inseticidas dos Grupos 28 (diamidas) e 5 (espinosinas) — para retardar o desenvolvimento de resistência. Em relação à segurança, o produto é relativamente seletivo a alguns predadores e parasitoides quando comparado a piretroides ou organofosforados, embora seja tóxico para abelhas, devendo-se evitar aplicações durante o período de floração; seu impacto sobre inimigos naturais é considerado moderado.
Outras informações:
Experimentos de bioensaio foram realizados para investigar a eficácia comparativa de alguns novos inseticidas, incluindo benzoato de emamectina, lufenuron e spinosad, em larvas de 3º e 5º estágios de desenvolvimento de Spodoptera littoralis. Também foram determinadas as relações tempo-mortalidade, os efeitos sobre o ganho de peso larval, os danos causados pela alimentação e o desenvolvimento larval de S. littoralis. O presente estudo indicou que o benzoato de emamectina é o mais potente entre os inseticidas testados contra larvas de 3º e 5º estágios de desenvolvimento de S. littoralis, com valores de CL90 crônica de 0,31 e 0,64 μg/ml, respectivamente. O efeito combinado do benzoato de emamectina com lufenuron ou spinosad foi aditivo ou antagônico, sugerindo que a aplicação isolada desses inseticidas é mais eficaz do que a aplicação combinada. Em comparação com o lufenuron e o spinosad, o benzoato de emamectina matou larvas de 3º e 5º ínstar de S. littoralis significativamente mais rápido, reduziu acentuadamente o ganho de peso e os danos causados pela alimentação nas larvas de 3º ínstar e causou 100% de mortalidade nas larvas de 5º ínstar durante o desenvolvimento larval. Esses resultados sugerem que o benzoato de emamectina é um composto eficaz em comparação com o lufenuron e o spinosad para o controle de S. littoralis. Experimentos de campo com esses inseticidas podem ser úteis para confirmar a redução dos danos às plantas devido à infestação por S. littoralis. - DOI 10.1016/j.cropro.2014.10.022 -
A linhagem resistente ao benzoato de emamectina (Ben-R) foi isolada por meio de triagem F2 em uma população de campo coletada em Lucas do Rio Verde, estado de Mato Grosso, Brasil. Após dez gerações de pressão seletiva com benzoato de emamectina, a CL50 estimada da linhagem Ben-R foi de 678,38 μg i.a. / mL, enquanto a da linhagem suscetível (Sus) foi de 0,29 μg i.a. / mL, resultando em uma razão de resistência (RR) de 2340 vezes. Os valores de CL50 da progênie de cruzamentos recíprocos das linhagens Sus e Ben-R foram de 93,37 e 105,32 μg i.a. / mL, sugerindo que a resistência é uma característica autossômica incompletamente dominante. A alta sobrevivência de linhagens heterozigotas e resistentes ao benzoato de emamectina (Ben-R) (>92%) em milho não-Bt pulverizado com a dose de campo de benzoato de emamectina confirmou que a resistência é funcionalmente dominante. O número mínimo de segregações que influenciam a resistência foi de 3,55, sugerindo um efeito poligênico. Baixa resistência cruzada foi detectada entre o benzoato de emamectina e os inseticidas metomil, clorpirifós, lambda-cialotrina, spinetoram, indoxacarbe e clorantraniliprole (RR <5,75 vezes). Não houve efeito dos sinergistas butóxido de piperonila, maleato de dietila e S,S,S-tributil fosforotritiotato na linhagem Ben-R, sugerindo um papel menor da resistência metabólica. Nossos resultados mostraram um alto risco de evolução de resistência de S. frugiperda ao benzoato de emamectina, baseado em herança incompletamente dominante. A rotação de inseticidas com diferentes modos de ação pode ser uma das estratégias de manejo da resistência a ser implementada para retardar a evolução da resistência de S. frugiperda ao benzoato de emamectina no Brasil. - DOI 10.1002/ps.6545 -
O benzoato de emamectina é um inseticida crucial para o controle de Spodoptera frugiperda. No entanto, o surgimento de resistência ao benzoato de emamectina representa um desafio significativo para o manejo eficaz da praga, e os mecanismos genéticos subjacentes ainda são pouco compreendidos. Este estudo demonstra que os níveis de resistência em populações de campo de S. frugiperda aumentaram progressivamente, com a expressão de ABCB1 associada positivamente a fenótipos resistentes. Embora os microRNAs (miRNAs) sejam reconhecidos como reguladores cruciais da expressão gênica em nível pós-transcricional, seu envolvimento específico na modulação da expressão de ABCB1 permanece incompletamente caracterizado. Um total de 198 miRNAs foram identificados em S. frugiperda, dos quais 28 apresentaram expressão diferencial entre linhagens resistentes e suscetíveis ao benzoato de emamectina. Notavelmente, o miR-34-5p exibiu um padrão de expressão inverso em relação ao ABCB1 tanto na linhagem resistente selecionada em laboratório quanto nas populações resistentes derivadas de campo. Ensaios com repórter de dupla luciferase confirmaram que o miR-34-5p tem como alvo direto a sequência codificadora de ABCB1, resultando na supressão de sua expressão. Estudos funcionais demonstraram que tanto a superexpressão quanto o silenciamento do miR-34-5p alteram significativamente a susceptibilidade de S. frugiperda ao benzoato de emamectina. Além disso, análises bioinformáticas revelaram que o sítio de ligação do miR-34-5p dentro de ABCB1 é altamente conservado entre S. frugiperda e Helicoverpa armigera. Experimentos in vivo mostraram que a administração de antagonistas do miR-34-5p resulta na regulação positiva de ABCB1 e na diminuição da susceptibilidade ao benzoato de emamectina em H. armigera. Essas descobertas fornecem evidências de que o miR-34-5p participa da regulação pós-transcricional do ABCB1 associado à suscetibilidade ao benzoato de emamectina em S. frugiperda e ampliam a compreensão atual da regulação da desintoxicação mediada por miRNA em insetos lepidópteros. - DOI 10.1016/j.pestbp.2026.107169 -