Algodão e plástico na disputa por uma moda mais sustentável
Por Fernando Prudente, diretor executivo de Algodão da Bayer
O Brasil convive, há décadas, com um paradoxo desconfortável: tem talentos, recursos e mercado, mas avança pouco quando o assunto é produzir mais e melhor com os mesmos insumos (SILVA FILHO, 2023). Ou seja, a produtividade — indicador central da eficiência com que trabalho, capital e recursos naturais são utilizados — permanece estagnada por longos períodos, limitando o crescimento econômico de longo prazo (SILVA FILHO, 2023; EASTERLY; LEVINE, 2001; PRESCOTT, 1998).
Esse tema, recorrente nos diagnósticos sobre o desenvolvimento brasileiro, não é um debate meramente técnico. A produtividade define renda, competitividade, capacidade fiscal, qualidade dos empregos e, em última instância, o espaço de escolhas do país (HSIEH, 2015). Por isso, sua centralidade é inescapável.
Ao mesmo tempo, existe uma exceção brasileira amplamente reconhecida: a agricultura. Enquanto boa parte da economia apresenta desempenho modesto, o Agro avançou de forma consistente, sobretudo pela incorporação contínua de tecnologia, ciência aplicada e melhorias organizacionais (BUAINAIN et al., 2014; GASQUES et al, 2023). A questão relevante, portanto, não é se a produtividade pode crescer no Brasil — ela pode. A questão é como transformar essa exceção em regra.
O desempenho do Agro brasileiro não se explica por um único fator. Ele resulta da combinação entre conhecimento aplicado às condições tropicais, capacidade de difusão e adoção tecnológica, coordenação institucional entre atores públicos e privados e persistência ao longo do tempo — elemento crucial para ganhos sustentados de produtividade (CARBALO et al, 2017).
Produtividade não muda com ações episódicas. Ela é resultado de trajetórias tecnológicas cumulativas, nas quais produtores assumem riscos, testam soluções e retroalimentam os sistemas de inovação (NELSON; WINTER, 1982). Nesse processo, cooperativas, empresas, universidades, sistemas de extensão e políticas públicas — crédito, seguro, infraestrutura e regulação — desempenharam papéis complementares, ainda que nem sempre coordenados no curto prazo.
A lição central, portanto, não é reduzir o sucesso do Agro à palavra “inovação” em abstrato, mas compreender como o setor construiu um ciclo relativamente completo que conecta pesquisa, validação, adoção e ganhos efetivos de produtividade. É nesse ponto que a discussão deixa de ser setorial e se transforma em agenda nacional de desenvolvimento.
A inovação raramente surge pronta ou de forma espontânea. Ela é um processo marcado por incerteza, aprendizado e seleção ao longo do tempo. O desafio central não está apenas na geração de conhecimento, mas na capacidade de atravessar o caminho entre a solução técnica e seu uso produtivo — reduzindo riscos, custos de adoção e falhas de coordenação.
Quando políticas públicas tratam produtividade por meio de medidas fragmentadas e descontínuas — frequentemente combinadas com proteção excessiva e baixo estímulo à concorrência — a inovação torna-se exceção, não rotina (AGHION et al., 2015). Ganhos sustentados exigem visão de longo prazo, coordenação entre instrumentos e compartilhamento de riscos, criando condições para que o investimento privado se ancore em trajetórias estáveis de aprendizado.
A experiência do Agro brasileiro evidência que instituições importam, sobretudo quando operam em rede e com continuidade. Nesse sentido, a Embrapa desempenhou papel singular como instituição-âncora de ciência aplicada, conectando pesquisa, experimentação, adaptação regional e formação de capacidades tecnológicas (AVILA; EVENSON, 2010; ALVES; SOUZA; ROCHA, 2013). Mais do que gerar tecnologias isoladas, sua contribuição esteve na construção de uma “infraestrutura invisível” do desenvolvimento: recursos humanos qualificados, redes de pesquisa, padrões técnicos, agendas de longo prazo e mecanismos de validação que reduziram incertezas e aceleraram a adoção tecnológica.
É importante, contudo, evitar leituras simplificadoras. O desempenho do Agro não se explica exclusivamente por uma única instituição, mas pela interação entre produtores, empresas, cooperativas, universidades, sistemas de extensão e um conjunto de políticas que, mesmo imperfeitas, sustentaram investimento, aprendizado e escala. A lição, portanto, não é replicar a Embrapa como organograma, mas replicar sua função: articular, de forma contínua, o caminho entre conhecimento e uso produtivo.
A principal lição do Agro é que produtividade não cresce por boas intenções nem por ações isoladas. Ela avança quando há direção estratégica clara, poucos objetivos sustentados no tempo e instrumentos alinhados para reduzir a distância entre pesquisa aplicada, validação e adoção (MAZZUCATO, 2015).
Políticas orientadas por missões exigem coordenação, definição clara de responsabilidades, recursos adequados, monitoramento e espaço para correções de rota. Inovação é processo, raramente linear, e requer estabilidade mínima para que empresas e produtores invistam (FORAY; MOWERY; NELSON, 2012). Além disso, produtividade depende tanto da geração quanto da difusão tecnológica. Em muitos setores, o gargalo não está no laboratório, mas na capacidade de tornar a inovação rotina — testar em ambiente real, adaptar soluções, formar pessoas, criar padrões e financiar a transição até a escala. Isso exige incentivos coerentes e políticas que enfrentem o chamado “vale da morte” da inovação entre protótipo e uso produtivo (OECD, 2015).
O Brasil não romperá a estagnação produtiva com diagnósticos repetidos ou programas pulverizados. Produtividade cresce quando há persistência estratégica e um arranjo institucional capaz de operar o processo completo, da pesquisa à adoção e à escala. A experiência do Agro demonstra que isso é possível e sustentável (GASQUES et al, 2025). Não por um fator mágico, mas pela combinação de ciência aplicada, protagonismo produtivo, atuação em rede e políticas que reduziram riscos e construíram capacidades. Nesse percurso, a Embrapa destacou-se como instituição-âncora ao conferir continuidade, coordenação e foco ao que efetivamente eleva produtividade: inovação que chega ao uso.
Como indicado desde o início, produtividade não é um indicador neutro. Ela define renda, bem-estar, qualidade do emprego e capacidade fiscal do Estado. Tratá-la como critério efetivo de decisão exige mais do que consenso retórico: exige incorporá-la ao desenho, à implementação e à avaliação das políticas públicas.
Sem ganhos persistentes de produtividade, qualquer agenda — social, ambiental ou industrial — torna-se mais frágil e difícil de sustentar. O desafio central não é a falta de ideias, mas a dificuldade de transformar diagnósticos corretos em compromissos duráveis. Transformar a experiência do Agro em uma agenda nacional de produtividade é, hoje, menos um desafio técnico do que uma decisão política.
*Por Pedro Abel Vieira, pesquisador da Embrapa, Antonio Marcio Buainain, professor do Instituto de Economia da Unicamp, e Decio Gazzoni, pesquisador da Embrapa
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