Formação acadêmica e empregabilidade no agronegócio: o que pensam os recrutadores sobre EAD e ensino presencial

Por Samira Fredi Carpes, da Equalizagro, e Camila Pedroso Ribeiro, da Serpar

05.11.2026 | 16:53 (UTC -3)
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A experiência profissional pesa mais do que o diploma na contratação de profissionais do agronegócio. Em pesquisa com 31 profissionais do setor, a modalidade de ensino, EAD ou presencial, apareceu como critério secundário e, para a maioria, dependente da vaga.

Introdução

O agronegócio é um dos pilares da economia brasileira (Cepea, 2023) e combina sistemas altamente tecnificados e modelos produtivos tradicionais, o que exige profissionais com formação técnica, mas também com competências práticas e comportamentais. Ao mesmo tempo, o ensino superior a distância (EAD) cresceu rapidamente no país (Inep, 2023), movimento acelerado pela pandemia de Covid-19, que aproximou estudantes e empresas dos ambientes digitais de aprendizagem (Unesco, 2021).

Esse crescimento reacendeu o debate sobre a qualidade da formação a distância, especialmente em áreas aplicadas como as ciências agrárias, em que a vivência de campo é parte essencial do aprendizado. Nesse debate, a opinião de quem contrata tem peso direto sobre a empregabilidade dos egressos.

Este artigo apresenta os resultados de um levantamento sobre como profissionais do agronegócio percebem a formação EAD e a presencial e qual o peso dessa modalidade nos processos de recrutamento e seleção.

A hipótese inicial era de que o ensino presencial seria mais valorizado pelos recrutadores, mas que essa vantagem poderia ser relativizada pela experiência profissional, pelas habilidades práticas e pelo desempenho do candidato no trabalho.

Como a pesquisa foi feita

O estudo teve abordagem quantitativa e descritiva. Um questionário estruturado no Google Forms, com perguntas fechadas e semiabertas, foi divulgado por redes de contato profissional e respondido voluntariamente em abril de 2026, com garantia de anonimato. O instrumento abordou o perfil dos participantes, os critérios usados na seleção, a importância atribuída à formação acadêmica, a percepção sobre EAD e ensino presencial e a experiência prévia com profissionais formados a distância.

Participaram 31 profissionais de multinacionais, empresas nacionais, consultorias, cooperativas, propriedades rurais e instituições de ensino, em cargos que vão de assistente a diretor, incluindo engenheiros agrônomos, médicos veterinários, consultores e gerentes. Quanto ao tempo de atuação, 32,3% tinham de 1 a 3 anos de experiência, 19,4% de 8 a 10 anos e 19,4% mais de 10 anos. Pouco mais da metade (51,6%) participa diretamente de processos de recrutamento e seleção. As respostas foram analisadas por frequências absolutas e percentuais.

A amostra reúne, portanto, profissionais em início de carreira e outros com trajetória consolidada, em diferentes níveis hierárquicos. Essa diversidade é relevante porque cargos estratégicos tendem a valorizar alinhamento organizacional e comportamento, enquanto funções operacionais priorizam a execução técnica. Profissionais mais jovens, mais familiarizados com o ambiente digital, também costumam aceitar melhor o ensino a distância.

Resultados

Experiência vem antes do diploma

A experiência profissional foi o critério mais citado na seleção de candidatos (74,2%), seguida pelo perfil comportamental (71%) e pelas habilidades práticas (61,3%). A formação acadêmica aparece bem atrás, com 35,5%, e a instituição de ensino foi lembrada por apenas 9,7% dos participantes (Figura 1). Chama atenção que a indicação ou referência (29%) tenha sido citada quase tanto quanto a formação acadêmica, o que mostra o peso da rede de contatos no setor. Construir relacionamentos em estágios, eventos técnicos e dias de campo, portanto, também conta pontos na hora da contratação.

Figura 1: critérios considerados mais importantes na seleção de candidatos (respostas múltiplas; n = 31)
Figura 1: critérios considerados mais importantes na seleção de candidatos (respostas múltiplas; n = 31)

O resultado acompanha a tendência mundial de contratação baseada em competências, em que empregadores priorizam habilidades aplicáveis e capacidade de adaptação (World Economic Forum, 2023). No campo, onde decisões são tomadas em tempo real e sob condições variáveis, essa preferência é também uma necessidade do próprio setor.

Isso não significa que o diploma tenha perdido valor. Para 54,8% dos participantes, a formação acadêmica tem importância moderada no processo seletivo e, para 42%, importância alta ou muito alta. Com a expansão do ensino superior, o diploma passou a funcionar mais como requisito de entrada do que como diferencial entre candidatos (Brown; Souto-Otero, 2020).

A modalidade de ensino depende da vaga

Questionados se consideram a modalidade de ensino ao avaliar candidatos, 51,6% responderam que depende da vaga, 29% disseram que sim e 19,4% que não (Figura 2). Não há, portanto, rejeição generalizada ao EAD, e sim uma avaliação caso a caso, possivelmente ligada ao peso das atividades práticas em cada função.

A flexibilidade reflete as mudanças recentes no cenário educacional. O período da pandemia ampliou o contato de profissionais e empresas com o ensino digital e contribuiu para uma aceitação maior do EAD, ainda que acompanhada de dúvidas sobre sua eficácia em algumas áreas (Unesco, 2021). Quando existe uma preferência definida, porém, ela recai sobre o ensino presencial.

Figura 2: consideração da modalidade de ensino (EAD ou presencial) na avaliação de candidatos (n = 31)
Figura 2: consideração da modalidade de ensino (EAD ou presencial) na avaliação de candidatos (n = 31)

Percepção ainda favorece o presencial

A maioria (58,1%) acredita que existe diferença significativa na qualidade da formação entre as duas modalidades, enquanto 22,6% veem pouca diferença, 6,5% nenhuma e 12,9% não souberam opinar (Figura 3). Na mesma linha, 61,3% avaliam que a modalidade influencia a preparação prática do profissional, e outros 29% afirmam que isso depende do curso.

Para 38,7%, a modalidade impacta significativamente a qualidade do profissional do agronegócio, mas um terço (32,3%) entende que esse impacto depende de outros fatores, como experiência, perfil e instituição. A preocupação parece estar menos no formato do curso e mais na falta de vivência prática em parte das graduações a distância. Como lembra Bates (2019), a eficácia de uma formação depende da qualidade do processo de ensino-aprendizagem, e não apenas do formato em que ele acontece. Os dados indicam que o setor vive um momento de transição, em que visões tradicionais e perspectivas mais flexíveis convivem.

Figura 3: percepção sobre a diferença de qualidade entre a formação EAD e a presencial (n = 31)
Figura 3: percepção sobre a diferença de qualidade entre a formação EAD e a presencial (n = 31)

Na prática, a avaliação é mais equilibrada

Entre os 14 participantes que já trabalharam com profissionais formados em EAD, metade avaliou o desempenho desses profissionais como bom ou muito bom, três o consideraram regular e quatro, ruim (Figura 4). Os demais 17 respondentes não tiveram essa experiência. O grupo é pequeno e as opiniões se dividem, mas o dado mostra que o contato direto com esses profissionais não confirma, de forma automática, a ideia de que a formação a distância seja inferior.

Figura 4: avaliação do desempenho de profissionais formados em EAD por quem já trabalhou com eles (n = 31; 54,8% sem essa experiência)
Figura 4: avaliação do desempenho de profissionais formados em EAD por quem já trabalhou com eles (n = 31; 54,8% sem essa experiência)

A avaliação de quem conviveu com esses profissionais é, portanto, mais equilibrada do que a percepção geral sobre a modalidade. Isso está de acordo com estudos que indicam que o desempenho depende mais da qualidade do processo de ensino e das características individuais do que do formato do curso (Means et al., 2013; Bernard et al., 2014). Além disso, estudar a distância pode estimular autonomia, organização e disciplina, competências bem valorizadas no ambiente de trabalho.

Considerações finais

A modalidade de ensino influencia a percepção de quem contrata no agronegócio, mas não é o fator decisivo. Experiência profissional, perfil comportamental e habilidades práticas pesam mais na seleção do que a formação acadêmica, e a modalidade é avaliada conforme a exigência de cada vaga.

O ensino presencial ainda é associado a uma formação mais completa, sobretudo na preparação prática. Ainda assim, quem já trabalhou com profissionais formados em EAD fez uma avaliação mais equilibrada, o que sugere que parte da resistência vem da percepção, e não do desempenho observado.

Para os estudantes, a mensagem é clara: estágios, vivência de campo e desenvolvimento de competências comportamentais fazem diferença, qualquer que seja a modalidade do curso. Para as instituições, especialmente as que oferecem EAD, o desafio é garantir atividades práticas que deem ao egresso a experiência que o mercado valoriza. Para as empresas, avaliar o candidato pelas competências demonstradas, e não apenas pelo formato do curso, pode ampliar o acesso a bons profissionais e tornar os processos seletivos mais justos. Por se tratar de uma amostra pequena e por conveniência, os resultados indicam tendências e merecem ser aprofundados em estudos com mais participantes.

*Por Samira Fredi Carpes, engenheira agrônoma, técnica em Agronegócio, mestranda em Agronomia na Universidade de Passo Fundo (UPF) e Coordenadora de Pesquisa em Herbologia Aplicada da Equalizagro, e Camila Pedroso Ribeiro, médica Veterinária, técnica em agropecuária, pós-graduanda em produção de ruminantes na Faculdade Iguaçu e representante técnica Comercial da linha pecuária na Serpar 

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